Fúnebre passagem

Não sofro pelas coisas palpáveis e tocáveis… São as do plano imaterial, aquelas que não se podem ver nem tocar que mais me causam dor… Lourenço Mutarelli

Uma deserta rua de ladeira por alguma noite da semana. Jhon descia essa mesma rua sem saber bem o porquê de estar fazendo tal ação. Mas vai descendo rapidamente essa mesma ladeira, afim de não prosseguir e apenas ficar tão somente parado ali mesmo. Sentar em alguma calçada e descansar seu corpo que estava tão exausto e dolorido embora ele não conseguisse imaginar nem de longe, o porquê daquela condição. Ia caminhando ao lado de sua tia que possuía cabelos loiros e encaracolados com um óculos de muito grau. Ela que antes segurava-se fortemente nos braços de jhon, mantinha-se de braços cruzados e olhando pensativamente para o chão. Andavam rapidamente sem parar ou olhar para trás. A dúvida latejava nos pensamentos de Jhon já que ele queria mais que tudo entender porquê diabos estava fazendo o que estava. Olhava para sua tia, abria a boca, fazia o gesto de todas as pronúncias das palavras, mas nada, absolutamente nada dizia. Não queria ou não conseguia mesmo? Ao menos vontade ele tinha. A noite nem estava fria, já que não se tratava do primeiro semestre do ano quando se dava o inverno, mas sua tia estava de blusa manga longa e calça de tecido preto, próprias para o aquecimento corporal. Jhon não queria continuar seguindo de forma alguma, mas sim parar, voltar para casa.
– Não vamos parar Jhon, sei que você pensa em sentar e não ir, mas não! Não nos chamaram, mas vamos em respeito a dor do próximo! E também não vou andar desacompanhada por essas ruas desertas. E se tivesse acontecido com você ou eu? Ela era filha única. Foi um tiro certeiro na testa e a bala ficou alojada na nuca. O clarão do disparo chegou até a cozinha da casa, segundo a mãe que tava jantando na hora. Ela está como que petrificada na cama, como se qualquer movimento trouxesse para a superfície, a lembrança da filha convertida em dor, ah meu Deus… Tipo como quando se leva um golpe na carne sabe? E cada movimento do corpo faz doer mais… Falam que foi um mero assalto, mas é contraditório de mais pra ser verídico… O celular se encontrava caído ao chão e o único assalto foi o da vida da pobre jovem… Motivo passional, é isso o que a polícia acha!
– De quem está falando tia? Como assim? Você me chamou para isso em algum momento? Pode me pôr a pá disso que você diz aí?
A tia no entanto, continuava andando sem falar nada. Olhando agora para a frente, avistaram várias pessoas frente à uma humilde casinha amarela, que destacava-se não só por isso, mas também por estar em irregularidade se comparada com o padrão das outras no que diz ao sentindo de aparência frontal. Esta se mantinha bem mais para dentro, de modo que caminhava-se primeiro por um uns dez metros de terra batida com pedrinhas para poder adentrá-la. Ao lado uma árvore grande e robusta balançava lentamente com um murmúrio do vento, seus longos e folhosos galhos por cima de todo o telhado da casinha, de forma que parecia estar constantemente varrendo as telhas envelhecidas dali.
– Olha, é logo alí onde estão tantas pessoas! Não vamos demorar meu filho! Mas vamos lá prestar esse ato de solidariedade cristã!
Para Jhon, a vontade de voltar correndo aumentou bem mais quando ele viu de longe aquelas pessoas totalmente paradas e olhando para a frente. Todas elas imóveis logo alí em frente a casa e o estranho modo de como sua tia parecia não lhe escutar. Mas continuava andando ao lado da tia, como se aquela condição incômoda já lhe tivesse sido toda calculada e predisposta a muito tempo atrás, antes mesmo de ele nascer, por algum ser desconhecido e de enorme poder. Lhe era mais com um transe.

Até que chegaram frente a casa. Sentados ao chão, dois velhos de feições magras e chapéu de palha na cabeça conversavam entre sí ali em frente. – E esse pé aí Messias? Sabe de que é? Desde eu muito menino essa grandona já balançava pra lá e pra cá, varrendo esse teto… Nunca cansa né? – Oh sim, oh sim, Juarez hehe! Nunca cansa e a noite ela endoida muito mais! Dizem que ela já falou que tem ciúmes da casa e mata qualquer um que se atrever a subir nos telhados! Tem uma pilha de ossos e restos mortais lá no quintal… Talvez seja de algum doido que duvidou dela e foi estrangulado aí em cima mesmo pra todo mundo da rua ver! Os ossos ela só fez jogar lá e pronto!
Logo ao entrarem, cartazes, fotos e medalhas presas à uma velha parede desbotada, deixavam claro sobre quem aquela casa pertencia. Um silêncio chato e mórbido pairando tanto fora quanto dentro da casa. Algumas molduras não possuíam foto alguma e, muitos quadros repetidos de paisagens desertas também se fixavam nas paredes e até mesmo no teto. Mas as fotos que haviam, eram todas emolduradas e mostravam momentos felizes entre amigos e familiares. No entanto, para Jhon era impossível saber quem de fato estava ali pois, por mais que tentasse de todas as formas reconhecer quem era a figura central daqueles momentos registrados, havia uma opacidade tão grande sob cada registro, uma turbidez tão forte, que não deixava enxergar com total clareza. Isso também se fazia presente nas demais pessoas que estavam na foto. Dificultava por demais reconhecer a quem pertencia aquela casa, a quem se dava aquele tumulto de lamento e choro onde é bem típico em velórios de quem muito fez o bem enquanto era vivo, a quem muito deixou saudades e grandes amigos. Jhon olhava para o lado e parado na sala, reparava que na sala de jantar bem logo a sua frente estava um caixão com algumas pessoas ao redor olhando tristemente para o corpo já fétido. Um jovem rapaz parado ao lado, passava seus dedos pelo rosto do morto e chorando se punha a repetir “Adeus meu velho amigo, agora é apenas um nunca mais!”  Um prato com laranja em cima do cadáver que estava recoberto por um fino véu branco foi posto, afim de espantar e evitar que um exército de moscas que ali circulavam, fizessem seu trabalho o mais acelerado possível. Jhon ficou olhando sem reação para toda aquela comoção fétida e abafada por alguns instantes, até que olhou para o lado e viu que sua tia olhava e passava os dedos atenciosamente sob os quadros na sala. Jhon aproximou-se ansioso para sua tia.
– Tia, fale pra mim! De quem é mesmo esse velório em? Quem é essa menina que você falou? Você a reconhece pelas fotos?
– Como eu não reconheceria a pessoa Jhon? Ora que pergunta! É só olhar bem de perto, venha! Ele ainda era jovem, coitado… Cinquenta anos? Poderia ainda viver o mesmo tanto! Mas tinha problemas no coração e ainda fumava e bebia, não era pra menos! Que Deus o tenha!
Jhon se aproximou e fez o mesmo que a tia. Passou os dedos em cima dos quadros e olhou com toda atenção. Mas nada. Era tão embaçado que não tinha como entender quem se fazia presente no centro de todas as cenas emolduradas.
– Não, não dar tia! Pelos céus! Como eu não vejo? Mas como assim um cara de cinquenta anos? Você não tinha dito que era uma jovem menina? E Porque não consigo enxergar entre um e outro de fato?
Nesse momento Jhon sentiu um pânico lhe percorrer pelo corpo. Mais uma vez quis sair correndo dali desenfreadamente, mas sua tia já olhava para ele e segurava seu braço fortemente.
– Tenha calma seu apressadinho que você só vai quando eu for! Ora essa! Tá, tá… Talvez eu tenha me confundindo mesmo, não sei bem ainda… Mas talvez não seja mesmo uma menina… Não, não! Com essas fotos aqui dá pra certificar Jhon! De fato não é mesmo uma menina!
– Como minha tia, você vem em um velório, sem ao menos saber de quem se trata? Ao menos se é homem, mulher, ou qualquer outro animal?  Mas tá tia… Por favor, só vamos logo com isso… Você sabe que eu não queria está aqui, só estou lhe acompanhando… Estou muito cansado e amanhã tenho que trabalhar bem cedo… Já passa da meia noite, certeza!
– São exatamente duas da manhã, a julgar pela hora que saímos de casa. Não lembra que eu fiquei te esperando um bom tempo na sala da tua casa e você concordou tranquilamente em vir? Mas não te entendo meu sobrinho! Ele era seu chefe de trabalho há tanto tempo!
– sua tia falava um pouco zangada- E é essa a consideração que você tem por ele? Para dá seu último adeus? Por favor né! Mantenha a compostura, não quero deixar uma má impressão com os familiares dele, e creio que nem você!
– Como é a história? Chefe de trabalho? O Aurélio? Que conversa é essa tia, se ainda ontem almoçamos juntos? Como soube disso?
– Aiai viu Jhon, dá-me paciência com você! E precisa de muito tempo pra morrer é? Conhece outro Aurélio com a mesma cara desse que está nas fotos? Outras medalhas e outros cartazes de sentimentos de amigos, com o mesmo nome dele? Tenho a visão ruim, mas agora estou de óculos ora essa! Olhe, repare só nessa direção… Bem ali a filhinha dele está no quarto amparada pela mãe que está como que petrificada sem acreditar. Elas amavam ele mais que tudo nessa vida… Que lamentável! Como seguirão agora, mesmo financeiramente? Precisam do restante da família mais que tudo agora… Uma família unida é antes de tudo uma base sólida nessa vida já tão dura! Mas ande, vamos vê-lo, depois vamos embora!

Jhon estava perplexo. Totalmente em estado de choque. Não podia acreditar só nas palavras de sua tia, necessitava vê-lo… Necessitava, mas quanto mais tentava menos ainda conseguia. Aurélio? Aquele bom homem de enorme coração que quando entrava em qualquer setor daquela empresa de telecomunicações onde já era chefe sênior a mais de duas décadas, alegrava e brincava com todos? Que nas reuniões da empresa sempre passava uma mensagem de confiança e altivez que contagiava a todos? Levava comida para os momentos de confraternização que ele mesmo cozinhava, e tantas coisas mais que marcaram… Jhon estava de boca aberta, sem acreditar. Não seria só um sonho ruim? Porque ele não reconheceu de forma alguma as fotos na parede embora relutasse em tentar?

Os dois seguiram para a sala de jantar, tentando não somente encaixar ali mas também, ultrapassar todas aquelas pessoas que se aglomeravam uma ao lado da outra para observar o corpo no caixão, e que só parecia aumentar mais e mais. Em diversos momentos ali, Jhon teve a impressão de que o caixão mudava constantemente de posição pela sala. As vezes era como se ficasse inclinado para baixo ou um pouco para o lado. Os dois passaram pela sala ignorando momentaneamente o caixão, afim de chegarem ao modesto quarto vizinho que ficava bem ao lado da sala de jantar e ao qual estava logo ali na caminha de solteiro, a esposa de Aurélio e sua filhinha que sentada em seu colo, olhava penosamente para a mãe e mechendo em seu cabelo falava  – Calma mãe, vai ficar tudo bem, tá? Tudo isso aqui agora é apenas um sonho ruim, que nos leva se deixarmos, para dentro de outro! Nunca acaba se a gente deixar permanecer, vira um eterno labirinto! Pesadelos acabam e bons sonhos vem, você não acha? Se não fosse, algum dos dois não existiam. Eu só não sei quem é esse homem no pé da porta, a senhora sabe?
– Quem? Ah, esse é o Jhon filhinha!
Disse a mãe tentando conter um choro que soava meio abafado, mas um tanto explícito só parecendo está rodeado por uma inquietante indecisão, entre chorar ou se manter calma.
– Ele trabalhou anos e mais anos com seu papai… É um dos subordinados mais velhos da empresa, você não lembra dele meu amor?
Nesse momento Jhon estava finalmente parado ao pé da porta enquanto sua tia adentrou o quarto e ficou ao lado da cama. Jhon viu que sua tia não estava tão certa, já que a filha que amparava a mãe e não o contrário. O quarto possuía uma iluminação meio azulada, meio acinzentada e parecia vir tanto da lâmpada logo acima quanto do telhado velho. Com aquela cor, era difícil para qualquer um que observasse com cuidado, enxergar todos os detalhes visuais que normalmente qualquer vista boa pode perceber.
– Jhon? – A menina fez essa pergunta em voz alta e a testa franzida, mantendo a boca em forma de “o” com a última sílaba da palavra a qual acabava de dizer, por algum tempo.
– Não, não mamãe, eu lembro de Jhon! Ele veio aqui em casa algumas vezes com papai e até almoçaram juntos aqui! Eu tô falando é desse outro que tá com as duas mãos no rosto e que desde que o corpo do papai chegou ele não sai da porta, não sai desse mesmo lugar! Sai daí homem feio, sai sai!
– Mas meu amor – disse a mãe já cansada – eu não estou vendo nenhum homem aqui! Que história é essa Carol? Pare de dizer lorotas!

Havia uma figura masculina parada ao pé da porta. Ele se mantinha com as duas mãos coladas ao rosto e jamais daria para reconhecer sua face se ele assim permanecesse. Suas vestes eram um casaco preto de couro totalmente lotado de inúmeros zíperes, fivelas e numerais feitos em papel colado por ele todo. Havia também três símbolos gravados no casaco, que eram o símbolo do infinito com mais dois que não se completava o “oito” deitado, mas em forma de um semiacabado símbolo, agrupados imediatamente ao lado do outro. As calças eram de um pano fino e leve, e elas pareciam infladas como se houvesse uma forte e contínua corrente de ar por ali, tornando-as como um balão. Mas era impossível tal coisa ali naquele quarto. Os braços do homem mantinham-se apertados em seu corpo, de modo que dava uma sensação de que ele desejava ocupar o menor espaço ali e de que alguém a qualquer momento iria entrar pela porta e necessitava que ele logo saísse do meio da passagem.
– Mas tem mesmo um homem aqui. -disse Jhon meio tímido e com voz baixa – vocês não o conhecem?
– Calado Jhon! Venha aqui e fale com a esposa do Aurélio! Dê a ela e a filha sinceras condolências, que já vamos embora! Não queira bancar o engraçadinho agora falando lorotas. Pelo menos a menina é uma criança, dá pra entender…

Jhon então deu um passo para adentrar o quarto. Nesse momento, o homem que se mantinha parado ao pé da porta, saiu de seu canto e rapidamente manteve-se estático bem no meio da passagem. As duas mãos jamais saiam de seu rosto e ele mantinha a cabeça para a frente.
-Saia da minha frente por favor – disse Jhon que tocou com a mão as costas do homem, afim de que ele percebesse e saísse da frente. O lado que Jhon tocou foi o ombro esquerdo do homem e ele virou a cabeça por cima do ombro direito. Nesse momento Jhon pensou por uma fração de segundos “Que droga é essa? Coisa mais anormal que já vi! O normal de qualquer pessoa seria em uma situação dessa, por instinto, olhar para o mesmo lado onde recebeu o estímulo sensorial. No entanto com esse cara é diferente… Ele olhou pelo lado oposto e suas mãos não saem do rosto… Pra quê diabos ele olha então se nem pode ver direito? Quem enxerga bem assim? Parece ter as mãos coladas ao rosto!”

– Oh Jhon! – gritou sua tia – Porquê cargas d’água você está parado aí? Não está me ouvindo é? Venha até aqui falar com a dona Emília, anda anda!
O homem ao pé da porta com uma voz rouca então disse sussurrando  – Passe, passe, passe. Não é meu intuito te atrapalhar… Anda logo, acho melhor tu acordar, tá tarde! Acho que a verdade é oculta e ninguém nunca a verá… Deixa que o que já foi, foi. Tudo que o homem acha que sabe sobre Deus, é inconcebível e insustentável, não passa de uma grande mentira ilusória! Ele mal consegue ver o que tem adiante dele e vem querer falar da absurda idéia de um Deus, como se ele fosse digno disso! Como se soubesse de algo, mas não passa de um vaidoso egocêntrico! Um ser perfeito criaria um imperfeito a troco de quê? Sentir toda a beleza de sua perfeição em contraste de algo imperfeito? Ou será que seria para o imperfeito sentir toda a força de sua imensa miséria frente a perfeição infinita do outro ser? E se tudo o que se mostra como verdade for uma grande mentira e o que é mentira se converter em uma impactante e assustadora verdade? A matéria é miserável. O universo e o vazio, a forma e a matéria, a sabedoria e a energia… A descontinuidade do universo em sua tríade! Mas porquê? Porquê, porquê…
Ao dizer isso o homem saiu do meio da porta, e voltou a se estreitar em seu canto e repetindo a última palavra da frase que havia acabado de falar com as mãos em seu rosto.

– Desculpe tia, não foi minha intenção. Estou só meio pensativo. Olá dona Emília… Meus mais sinceros pêsames a você. Talvez saiba o quanto seu marido era estimado lá na empresa, o quanto eu particularmente gostava dele… Estudávamos juntos… Amigos de décadas… Que ele esteja em paz! E você também garotinha, ame sua mãe mais que tudo, ela sempre será sua melhor amiga e agora, mais ainda…
– Muito bem Jhon. Já vamos indo! Suponho que não tenha visto mas, durante esses quase vinte minutos que você, não sei por qual motivo, ficou ali parado ao pé da porta, eu falei já com dona Emília! Estava indeciso se entrava ou não? O que houve? Parece está assustado. Ah, acalme-se meu sobrinho! Ao chegarmos, farei aquele bom chá de capim-santo com pedaços de arame pra gente. Vai acalmar teus nervos! – Jhon olhou assustado e meio sem entender para sua tia 
– Mas como assim arame, tia?
Emília ainda se mantinha sentada na beirada da cama com a filha em seu colo.
– Em mãe? Ele não vai sair dali? Esse homem feio? Ele fica falando coisa sem noção e eu tenho medo! O que ele quer, em?
Mas sua mãe nada dizia, parecia não ouvir. Por fim falou
– Filha você deveria tentar dormir… E se realmente tem alguém aí, sinto que ele não sairá mais… Não sairá não por falta de vontade ou por uma impossibilidade… Mas simplesmente por não valer a pena mover nada, dizer mais nada, realizar alguma ação de qualquer que seja ela… Só parar e restar aí mesmo…

Nisso, Jhon e sua tia saíram do pequeno quarto de coloração estranha e caminharam até a sala. Quando Jhon parou e se pôs a olhar para o caixão que hospedava o triste defunto de seu ex chefe e amigo, Jhon sentiu repentinamente uma ânsia de vômito e uma vontade quase que incontrolável de virar o caixão com tudo no chão. Sua tia percebeu seu acesso de ânsia e disse – Controle-se Jhon, não comece com suas coisinhas tá bom? Não está tão podre assim, não está tão malcheiroso!”
Nesse momento Jhon baixou a cabeça e respirou fundo afim de tentar amenizar aquele mal cheiro que ao invadir-lhe o nariz embrulhava totalmente as entranhas de seu estômago. Todos os outros que estavam na sala ao lado do corpo, agora estavam como que petrificados e vestidos com o mesmo véu que cobria o corpo morto. De repente todos se mantinham olhando para o teto com suas mãos segurando inúmeras velas na cabeça ao mesmo tempo que susurravam coisas incompreensíveis. Jhon virou-se para sua tia com a intenção de dizer que aquilo poderia causar um incêndio ou algo assim, já que todas as velas estavam acesas e além de serem muitas, estavam derretendo e toda a cera quente escorrendo pelo rosto dos que ali estavam. Uma massa de pele queimada com cera escorrida se formava cada vez mais na cabeça e rosto daquelas pessoas. Jhon foi invadido por um forte sentimento de medo e horror ao presenciar aquilo. A vontade de correr e gritar agora tinha chegado ao limite extremo.
– Anda Jhon, segure velas também ande! Ande, agora! Não precisa ir embora! Seja mais um de nós aqui nesse recanto de trevas eternas!
Sua tia não estava mais com as vestes normais de antes, estava idêntica as outras figuras ali da sala e também segurando dezenas de velas na cabeça com a cera quente impregnando em seu rosto mais e mais. Ela permanecia ali como os outros mas com a diferença de um sorriso mudo escancarado e mostrando os dentes. Jhon tentou correr no mesmo instante, mas suas pernas pareciam ter absorvido o peso de dez toneladas. Era impossível. Ele então gritou o mais alto que pôde e com toda força de seu braço virou o caixão no chão que caiu com muita violência e barulho. O corpo apodrecido no chão, muitas moscas rondando, as pálidas figuras imóveis na sala com seus susurros incompreensíveis…

Nesse instante Jhon sentiu uma mão quente que tocava fortemente seu ombro.
-Acorde meu amigo Jhon! Hoje o dia está lindo! Os pássaros cantam alegremente nas árvores! Bom, tirando o fato de que nosso amigo infelizmente partiu. É é, verdade… Mas, ele agora está bem melhor que a gente não acha? Longe de toda essa podridão mundana… Longe de toda essa estupidez e tristeza sem limites!
Jhon estava deitado sobre sua mesa de trabalho e levantava vagarosamente. Sua testa suada e marcada pelo elástico de sua agenda de trabalho, denunciavam que ele havia tirado um cochilo demorado ali.
– Ué! Disse Jhon meio sobressaltado – Ângelo? O que tá fazendo aqui?
– Ora que pergunta mais boba não é Jhon? O mesmo que tu faz todos os dias, trabalhar ora essa! Não reconhece que estamos na empresa? Andou bebendo no domingão ontem foi, meu caro? Sua cara realmente não é das melhores… Chegamos bem mais cedo hoje… Eu estava ali preparando um café para mim quando vi você chegar, pôr o casaco na poltrona e deitar sobre a mesa… Está bem mesmo?
– Sim sim, estou bem… É, de fato eu bebi um pouco ontem, ressaca desgraçada agora vem com força… Mas vou ali no trailer da frente tomar um bom caldo quente, vai me ajudar de mais! Eu estava num pesadelo tão horrível Ângelo, muito obrigado mesmo por ter me acordado viu? Troço de sonho mais esquisito foi aquele, cruzes!
– Haha! Eu imaginei que fosse mesmo cara… Por isso vim te acordar. Tu se remexia muito e ficava dizendo que tinha um homem no quarto, ou que queria sair correndo feito doido… Deu pra ouvir. Mas tu deve ter cochilado por uns quinze minutos somente… Ainda bem que só a gente estava aqui. Mas foi aí que vim te acordar… Daqui a pouco a sala aqui vai lotar e não é bom que te achem assim dormindo… Tá assim também pela morte do Aurélio né cara? Eu entendo, também estou meio mal ainda…
Já marcava por volta de umas sete e meia da manhã, e os primeiros funcionários do setor e do restante da empresa começavam a chegar.
– Quinze minutos? Não entendo… A sensação que tenho é de que o pesadelo durou horas e horas… Mas espera aí! O Aurélio de fato, morreu? É sério mesmo isso Ângelo? Eu não creio não cara…
Jhon perguntou desacreditado. Então seu pesadelo estava certo?
– Sim cara. Oh Jhon, tu está meio avoado em cara? Morreu ontem a noite, o enterro será hoje meio dia… Foi infarto fulminante. Achei mesmo que tu soubesse já que todo mundo aqui da empresa sabe. Vou lá Jajá dar o meu último adeus… Não quer vir também?
– Não não, Ângelo, valeu cara! Mas não vou não… Não vou acentuar ainda mais essa lama na roupa… Desde ontem que não tou nada bem, e o pesadelo dessa manhã só piorou… Eu achei que fosse apenas um sonho ruim, aí você vem agora e me diz que é real… Nem consigo crer, nem pensar direito pra ser mais exato… Mas enfim, bom dia pra você, vou ali!
– Ué… Mas não fique assim meu amigo! É normal tudo isso… Apenas o processo natural da vida. O velho dilema da ampulheta que vira e não se pode mais parar seu curso até que tenha se esgotado toda a fina areia. O estreito pescoço da ampulheta… De grão em grão, a areia sempre desce!
– Ângelo dizia isso enquanto punha seu paletó –
– Mas ok então! Vá lá lavar seu rosto e depois tome aquele velho caldo de siri que a gente sempre toma. É uma delícia de revigorante natural para começar bem o dia de qualquer um! E ah, pegue leve nesses álcool em? A sobriedade também tem seu grande valor, meu velho! Nunca esqueça que dessa vida o certo é sermos todos degustadores… E saber apenas apreciar cada coisa é exatamente como deve ser!
Ângelo saiu pelo corredor entre os computadores e as mesas secretariais ali da sala assobiando e acenando com seu feliz bom dia para os outros funcionários que ainda tomavam café em suas cadeiras de trabalho. Jhon saiu pela porta dos fundos que estava a poucos metros de sua mesa, e se encaminhou passando as mãos pelo rosto, para o banheiro dos funcionários do setor logístico que ficava já na extremidade do terreno da empresa. Adentrou ao banheiro, abriu a torneira e jogou generosamente água em seu rosto.
– Pelos céus! Que troço foi tudo isso? Aposto que nem mesmo o mais lúcido dos pesadelos do mais louco lunático, teria tanto detalhe quanto esse que tive… O odor, a textura de cada coisa, os lamentos… Ah! Estarei ficando doido com tudo isso? Foi sonho mesmo ou uma falsa memória? A diferença entre elas é demasiada tênue… Talvez eu já tenha vivido mesmo algo de muito parecido, algo de muito próximo… Talvez por isso, seja tão fácil moldar isso na mente e se fosse o caso, tantas outras vezes também… Eu também muito recordo de, na confusão de meus sonhos, aquela figura que já se tornou recorrente para mim… A imagem de um ser alado que sentado, chora profunda e silenciosamente sob o teto de um casebre abandonado a beira de uma estradinha deserta de terra, sem que eu possa ir até lá e ajudá-lo… Às vezes está chovendo forte e outras é somente uma forte ventania que balança as vegetações por todos os lados… Tenho sempre a mesma sensação de ouvir uma penosa melodia que canta e não para… Mas nunca posso ir até lá e saber de fato o que é, ajudar o tal ser… Isso eu nunca consigo… E ninguém nunca me dá uma explicação boa para isso! Ninguém! Mas se essas alucinações são sonho ou uma realidade remota, do mesmo jeito eu sinto e do mesmo modo até sofro… Me sinto as vezes preso em um túmulo aberto… Do qual posso ver a luz do dia mas não consigo sair…
Mais lúcido ainda é que, se o Ângelo realmente não estiver com uma brincadeira de muito mal gosto, o trágico fato realmente se consumou… Se não fosse ontem eu ter
bebido sozinho em casa, arriscaria dizer que alguém pôs algum alucinógeno em minha bebida… Nem mesmo lembro como cheguei hoje aqui na empresa! Que apagão foi esse que senti? Mas enfim, não há mais nada que eu possa fazer… Espero que fique tudo bem!
Jhon saiu do banheiro e caminhando uns cinquenta metros, chegou ao portão de entrada onde do outro lado da tranquila rua, havia o “Lanches da Mônica” em um pequeno trailer. O porteiro deu-lhe um animado bom dia.

Ao sair pelo portão, Jhon parou na calçada e ficou observando um velho e acabado carro que passava vagarosamente ali na rua com o motorista gritando preguiçosamente sem a ajuda de qualquer caixa de som para tal.
– Olha só, olha só! Vai passando na sua rua, o carro do aro! Aro para o seu carro, de todos as formas e tamanhos, tem o velho e o novo, o que importa é que é aro!

– Hehe! Esses aí já tão nessa faz mais de vinte anos… Quando um filho morre o outro assume o posto e assim vai… – Disse o porteiro gargalhando –
O carro além de um modelo muito antigo, estava completamente enfeitado de aros dependurados por ele todo. Alguns velhos, outros quebrados, outros novos. Em cima do carro havia um menino em pé e bastante maltrapilho, com um dos aros nas mãos, como se estivesse se preparando para lançar um disco.
– Eu sou o próprio Mirón! A arte encarnada de Atenas! O disco não fica jamais, ele se vai assim como tudo o que já foi bom!
O menino imitava com incrível habilidade e equilíbrio a escultura grega do discóbulo e, embora o carro estivesse em movimento constante, ele parecia jamais cair dali.
– Mas o quê? Disse Jhon sem entender nada – As vezes me pergunto mesmo se ainda estou sonhando… Mas é cada uma viu! Onde já se viu vender aros no meio da rua? Será que o que aquela menina disse sobre o labirinto onírico, seria mesmo real? Nunca conseguir acordar de uma alucinação? Como se, certa vez que eu tenha acordado isso tenha sido apenas o início de mais outro delírio? Rapaz, vou logo é tomar meu caldo, essa ressaca tá me tirando é sarro, só pode!
Jhon seguiu para o trailer. Mônica dançava bem ali e derramava algo preto de dentro de umas panelas amassadas e seu marido como um trapezista frenético, balançava-se com as duas mãos no teto do trailer que com o peso, balançava tudo junto derrubando utensílios. O carro dos aros prosseguiu com seus dois anunciantes excêntricos que seguiam sempre gritando a mesma frase da qual acabavam de dizer, pelas inúmeras ruas da cidade.

7 comentários em “Fúnebre passagem

  1. Cara tá ótima essa história. Só preciso preencher mais com assuntos filosóficos sobre a existência etc. Fora isso… Dá mais sentimentos de pesar nos personagens, tentando envolver mais o John nessa história de família, só para os outros se sentirem confortáveis diante da morte. A princípio na minha visão é isso… Alguém de família ou não família dele estar morta, e alguém quer que o envolva com sentimento em algo que não tem contato. Isso é interessante e acontece. Massa, parabéns.

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  2. Gostei bastante, principalmente na parte em que Jhon fica espantado por ver um carro com aros rsrs, continue sempre assim, quero poder apreciar mais seu contos, vc escreve maravilhosamente, me dá muito orgulho!!!!

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