Subterrâneo

Nada é mais real que o próprio nada… Samuel Beckett

Eu queria falar com um profissional da área novamente. Mas estou falando sozinho, outra vez. Na verdade sozinho não, converso comigo mesmo e isso não pode ser “falar sozinho”. Já ouvi muito dizer que isso é um mecanismo ancestral biológico que busca evitar a consumação da loucura total. A insanidade mais perfeita. E é mesmo, nunca discordei disso. Eu ia para uma consulta particular uma certa vez mas perdi o horário do ônibus e aí já era. Foi uma consulta cara e eu perdi. Nem lembro se houve reembolso do dinheiro… Se a psicóloga soubesse que uma conversa que ela perde também lhe é ruim, ela mesma teria agendado novamente. Ela mesma faria questão de remarcar. Pois assim poderia ouvir de mim uma história que nunca mais sairia de sua mente… E vice versa. Mas o tal do dinheiro e seu tempo ocupado fala mais alto que qualquer outra coisa, não é mesmo? “Não deu certo se vire, quem perdeu foi o paciente e não eu. Ele que necessitava. Tenho outras consultas. Estou acima disso.” Ledo e amargo engano doutora, você também precisava ouvir alguma coisa e deixou passar. Não se iluda. Mais cedo ou mais tarde seremos dois. Escuta de mais uns cem pacientes mas todas as histórias diferem. E cada uma é valiosa também. O dinheiro vem e vai. Mas se foi embora o tempo, acabou, passou para nunca mais. Mas sim, eu já falei uma vez com um psicólogo e foi bom. Não fui eu quem marquei a consulta. Tive de fazer por questões de trabalho, foi gratuito. E valeu a experiência. A questão de falar com psicólogos é tão agradável quanto falar com um amigo íntimo. A mesma coisa pode não ser, obviamente. Já que o psicólogo geralmente tem toda sua formação técnica e apurada para causas de desequilíbrios emocionais, hormonais, etc. E por esses detalhes crucias ele pode sair ganhando… Mas um momento de diálogo com um amigo que lhe abre a mente e traz aquela sensação de paz e alegria, por si só já é uma consulta gratuita sem que os dois saibam. É algo que não existe preço nem cobrança, nem precisa marcar, tecnicamente falando. É isso. O que dói e corrói a mente de uma pessoa só é visto com o tempo… Só um desprovido de sagacidade mental e inteligência de anos de evolução para não perceber isso. É como se eu fosse a parte de um experimento que eu mesmo não quis começar… Que ao longo do tempo vou vendo como fico, como me saio, como as coisas vão se encaixando e se revelando pouco a pouco. Como eu sempre ainda consigo fugir, do último instante da porta que se fecha. Do calabouço que se tranca para não mais se abrir. Do monstro que corre e procura mas não consegue mais me ver porquê de alguma forma eu consegui fugir. Como Nietzsche disse, que aquele veneno que não mata só nos deixa mais forte. E o absurdista Camus também que disse, que não é possível criar experiência sem que se passe por ela. É impossível passar pelo rio sem se molhar, mas agora se conhece o que é passar por dentro de um rio. E se conhece bem quanto mais se passe, quanto mais se molhe para depois secar.

Como eu havia dito, sobre fugir e fugir e no final conseguir, entende? Eu sempre tenho sonhos recorrentes com isso. Considero um fenômeno oculto. É tão estranho e bom ao mesmo tempo… Os sonhos são sempre os mesmos… De repente me vejo correndo por entre corredores, descendo por túneis que me parecem infinitos e bem projetados. Passo por masmorras, abro portões, subo e desço muros. Abro portas de madeira, de ferro, de vidro… Sempre em uma fuga frenética sem que eu saiba o motivo dela. Quem tenta me segurar não consegue pois é como se eu fosse escorregadio. E sempre se abrem. Sempre fujo de algo que não vejo bem. Que nunca se revela e mesmo não sabendo, insisto em fugir. Fugir seria tão divertido assim? Quando menos espero me vejo assim novamente. Fugindo de novo. Num desses sonhos pulei o muro de um cemitério que era suspenso e fiquei escondido lá por detrás, meio ofegante e suado. Quanto mais se andava lá por cima eu conseguia ver as lápides e túmulos antigos. Um cemitério aberto e suspenso… Aonde já se viu isso? Que negócio mais louco! Fiquei esperando algo passar para que eu pudesse sair. Mas que droga de algo foi esse que passou ou ia passar é que também não vi. Eu nunca vejo. Mas sinto uma presença e eu devo me esconder. Depois já quase acordado, uma certa sensação de um torpor repentino. De não conseguir fazer mais nada. Como se houvesse sido drenada toda minha energia vital. Perco o gosto e ânimo com as coisas mais básicas. Comer, andar ou voltar a dormir… Gosto nenhum! Se tento ler algo, o que quer que seja, solto o livro em seguida, como se fosse uma comida que não consegue mais descer de jeito nenhum. Como se todas as frases e palavras que circulam e recirculam em minha mente, já fossem algo imenso, em que reflito e medito por horas a fio. Se torna indigesto demais se tento absorver algo novo… Não cabe e não suporta mais. Não mais… Me tornei um “adorador do nada” com o tempo. Pude enxergar que a ideia do “nada” é sublime e perfeita. Não sentir nada sobre absolutamente nada e puder limpar a mente com isso. Como era no princípio, antes de tudo passar a existir. Aí que as vezes me pergunto, se essas fugas que faço não são mesmo reais? Eu entendo que sejam sonhos só para não enlouquecer de vez, mas talvez tudo seja mesmo real. Isso explicaria o cansaço tão medonho que sinto ao acordar. Kafka não poderia estar mais correto quando disse que a vida seria um constante desvio no qual, quem está desviando não tem tempo nem para saber do que se está desviando exatamente. E me pergunto: será que o desviador desejava saber o porquê de desviar? A condição para ele continuar desviando poderia ser exatamente essa: não saber jamais o motivo. Pois, toda sua vida e razão de continuar vivendo poderia está sendo sustentado por apenas esse detalhe: continuar desviando, continuar fugindo do que não se sabe. Não é bom que se saiba. Era a condição imposta. Era exatamente sua motivação contínua. Era ruim fazer isso mas bom ver que no final, estava tudo bem. É como eu sempre me sinto dentro desses sonhos lúcidos que tenho. Dentro do sonho, me abaixo em um canto e sinto que estou bem. Escondido atrás de cercas de madeira, dentro de moitas, dentro de um quarto de alguém que também dorme. Sinto que o que me procura ali próximo não pode mais me achar, se eu não fizer tanto barulho. E acordo suado e com o coração acelerado. Um amigo meu me falou certa vez que também sofria com sonhos recorrentes do tipo. Sem saber bem se foi real ou não. Um que ele mesmo me falou, parecia com esses que tenho. Me disse que, dentro desse seu sonho ele estava procurando sua amada que havia sumido de casa fazia já uns dias. Procurou por todos os cantos que se podia, espalhou cartazes nas ruas, fez o possível… Até que em um certo momento ele entrava em um antigo convento da cidade. Foi andando e olhando para os muitos túmulos dos padres seculares que ali jaziam. Sentia uma paz dentro de si, como se um descanso bom lhe invadisse a alma… Até que ouviu a voz de uma mulher vindo do jardim ao lado. Imaginou que fosse a voz de sua amada desaparecida. Ele então passou por dentro da pequena moita alta do jardim e saiu do outro lado. Sua amada estava de costas para ele e ao se virar tomou um susto. Disse para ele ir embora dali se não os dois seriam caçados e mortos. Ele disse que ia embora mas somente com ela, e por que diabos no mundo ela fugiu sem dizer nada e agora falava de perseguição e ser caçada.

” -Vamos fugir então meu amor, eu não queria ter ido embora de casa sem você. Mas é que de repente algo começou a me perseguir e saí deixando você dormindo. Você é sempre tão lindo dormindo Lourenço, tão angelical. Os teus suspiros sempre tocam na paz do que eu sonho. Vamos por aqui, a gente já foi descoberto novamente… Vamos correr, rápido! Detrás daquela árvore tem uma portinha com um túnel! Lá está nossa única saída desse convento!”

Então esse meu amigo continuou me dizendo que em seu sonho, eles dois conseguiam correr, abrir a porta do túnel atrás da árvore e descer uma longa escada que dava para um corredor gigantesco. Ele me disse que era gigantesco pois teve a sensação de passar muitas noites inteira correndo por ele. Abrindo algumas portas ele chegou no final. Outra porta lhe levou para fora dali, em um gramado aberto onde algumas crianças brincavam no intervalo da escola. Ao puxar a mão de sua amada para também sair junta, não havia mais nada ali. A mão era um graveto seco, na verdade. A porta era apenas um chafariz no chão. Uma garotinha perguntou se estava tudo bem e esse meu amigo enfim acordou. Como eu. Cansado e totalmente suado. Sem saber se de fato teria tudo aquilo sido real. É isso… Essas questões é que me intrigam… Como um outro sonho que tive em que minha casa era a única no meio do mar. Flutuava no mar. De repente o mar revolto me fez sentir medo. Cada janela que eu fosse tentar pular fora dali as ondas invadiam. Acordei me sentindo bem, por estar em terra firme. Mas foi… O que também muito me dói é imaginar que, aquilo que poderia ser minha realidade infelizmente não é. Como tantos e tantos projetos que eu queria mas que, por uma impossibilidade humana, não há como fazer. A sensação de que há tanta vida para tão pouco conseguir viver, para se doar e conseguir abarcar tudo o que seria maravilhoso e sublime nessa breve existência… Sei lá. A sensação de poder ser mais de um de forma simultânea. Sinto as vezes que minha vida tem sido um vórtice de acontecimentos que parecem só me testar, como algo que não me é favorável. Mas lamentar, infelizmente não muda um passado. Uma noite dessas eu vi um cara que me contou uma coisa que ele havia acabado de passar. Parecia desesperado e aflito. Antes de ele correr novamente e fugir da minha vista, me contou rapidamente o que tinha acontecido. Segundo ele, há poucos instantes atrás ele estava num supermercado ali próximo, e quando já ia indo embora, uma mulher com duas crianças pequenas, foi até ele e lhe pediu um dinheiro. Ele deu o dinheiro e no mesmo instante uma loucura de sua mente, fez com que ele pedisse a mulher, sexo em troca. Ela aceitou de prontidão. Já estava mesmo na rua e tudo. Não tinha mais tanta surpresa para ela qualquer coisa bem doida. Deixou as crianças rapidamente em casa e foi lá no mato mesmo, com esse cara. Depois do ato, a mulher olhou para ele e disse que o marido era traficante e que provavelmente ela ia ter que contar o que havia feito. Era fiel. E se tinha feito aquilo tinha sido por um momento de loucura e precisava do dinheiro. Depois disso esse tal homem saiu correndo pelas ruas feito louco. Desesperado de temor. Não queria correr o risco de morrer por uma bobagem daquela. Enquanto ele me contava, uma senhora saiu na calçada e falou “Ei Gilberto, já tá enchendo o saco do povo de novo em! Ele é assim com todo mundo meu filho, liga não! Já contou essa história pra um monte de gente… É doente e toma remédio. Foi um trauma que ele teve no passado…”
Eu só dei tchau para o Gilberto… Ele parou na esquina e disse com um olhar perdido “Só escapei daquilo porque meu primo se parecia muito comigo… Ele era traficante também…”

Enfim. Às vezes é preciso dizer certas coisas para não morrer afogado nos próprios pensamentos aleatórios. Lasca a mente de quem for… Sou um adepto do ocultismo. Também acho interessante aquele personagem que curte um satanismo, das HQs, chamado Hellblazer. Me amarro, sou fã. Muitas vezes vou andando por dezenas de quilômetros por dentro de trilhas. Matas escuras e outras mais claras. Riachos calmos outros não. Na chuva ou não. Como algumas frutas que encontro… Sento num tronco de árvore e vejo o riacho passando logo abaixo entre as pedras. Fico bem além das estradas, entre as árvores. Me ponho na posição de meditação adotada por xamãs e indígenas ancestrais, e ali faço minha projeção astral. Como se eu visse o antes e o depois de tudo. Da partícula formadora de todas as coisas que deu origem ao universo. É até difícil acontecer algo que eu já não tenha previsto… Os budistas praticam a meditação para limpar a mente e a visão que possuem da vida, da realidade. Remédio sublime. Na tarde de um certo dia aí, eu sai com dois amigos para caminhar e meditar entre as matas. Um deles insiste em dizer que a ideia foi minha. Eu que passei na casa dele que já ficava no caminho, o outro chegou pouco depois e daí a gente foi. Já no entendimento do outro, não foi assim. A ideia partiu dele mesmo e a gente se encontrou ali perto e foi. Para mim, a ideia surgiu foi dentro de um sonho que tive e a gente combinou tudo por lá. Digo que só pode ter sido assim, já que na noite anterior eu realmente tive um sonho bastante lúcido com aquilo e com os eventos que vieram depois. E no dia seguinte foi exatamente daquela forma. Pegamos uma estrada de terra e caminhamos por umas duas léguas e meia. Adentrando no profundo das matas. A gente passava por casinhas abandonadas, sem telhado, com o mato tomando de conta. Até por um cemitério que há muito tempo já não recebia ninguém em suas sepulturas rachadas e cobertas de matos. Visto de longe, era como manchas brancas no meio do imenso verde. O imenso verde silencioso. Somente alguns pássaros que cantavam de forma pausada. E o som de besouros e cigarras era constante. Os limpa-folha-do-nordeste com seu canto contínuo e agudo em algum lugar do enorme descampado… E os Toutinegra de Bachman com aquele canto que remete ao mistério e a uma estranha quietude. Tudo calmo e ao mesmo tempo em movimento. Para nós, aquilo tudo era objeto de um fascínio sem igual, sem preço, uma imensidão inestimável. Até que, já próximo de chegar em uma trilha que levava a umas cachoeiras, estava na estradinha bem ali um cachorrinho solitário. Tenho a impressão de que logo quando olhei nos olhos dele ele sorriu para mim e fez um sinal para que eu voltasse dali mesmo.

– Caraca… Tive uma impressão tão forte agora… Vi tão claramente esse cachorro me dando um sinal como se eu devesse voltar… Não viram não? Sou eu que tô enlouquecendo?
– Não, não… Eu vi também e achei estranho… E aí? A gente segue ou não?
– Conversa é essa vocês dois? Medo de um cachorro agora é? Vamos. Tá tudo bem. Acho que é o cansaço que tá fazendo vocês enxergarem coisas além…
E a gente foi andando. O cachorrinho começou a seguir a gente… E quanto mais a gente dissesse para ele voltar, mais ele seguia. Parecia meio acuado, mas seguia. E se parássemos, ele também esperava. Meus pés começaram a fazer calo de tanto andar. O outro amigo meu também. A gente andava e o cansaço já começava a bater. Era um fim de tarde. De repente, como algo inesperado, começou a baixar uma serração. Uma neblina densa foi tomando conta da mata pouco a pouco. Como se uma mão gigantesca fosse puxando um lençol branco e cobrindo tudo por ali. Foi que tudo ficou turvo, que há uns três metros à frente não se via mais nada com clareza. Eu e meus amigos sentíamos aquilo como uma alucinação que se iniciava. Um forte encanto que era derramado sobre nós. Como se de repente a gente estivesse entrado em um portal. Em um túnel que dava a passagem para um mundo diferente desse em que vivemos. Passamos a sentir aquilo como um local novo que a gente entrou, porque de início ficamos brincando com aquela ideia. “Já pensou, se por muita loucura, esse cachorro tiver levando a gente para dentro de um portal? E não tiver mais jeito? A gente ficar num looping no meio dessa mata aqui? Um delírio eterno e bom?” Dizíamos que era bom, porque estava mesmo bom para a gente. Nosso estado de espírito era de paz. Éramos caminhantes com vasta experiência em florestas e forte resistência física. Caminhar era um calmante para nós. Aí foi assim. Eu só lembro que, descemos essas trilhas que tem cercas de um lado e árvores altas do outro. Entre árvores e cipós, passando ali já dá para ouvir o som da água caindo forte lá dentro. São lindas cachoeiras pequenas e médias. Em dado momento entre as árvores algo nos impressionou. Vimos em cima das pedras algo que lembrava uma mulher toda cheia de ornamentos e cordões brilhantes em volta de si, que estava em pé logo ali onde a água caía forte e espumosa. Bem na pontinha mesmo da cachoeira… Ela não se movia com a força das águas, se mantinha perfeitamente parada olhando para o outro lado da mata. E então, nada mais vimos em um piscar de olhos. Aquela visão desapareceu da gente…

E o cachorro sempre na frente como se fosse conduzindo a gente. De repente ele parou, pulou a cerca e ficou um tempo olhando lá para dentro entre as árvores. De orelha em pé como se necessitasse ouvir algo importante. Como se fosse um chamado… Ele sumiu por alguns instantes e a gente ficou chamando ele. Poderia ser que ele estivesse atrás de um animal qualquer… Alguma presa que estivesse caçando. Até que voltou em disparada com um papel na boca. Era um papel antigo e velho, enegrecido pelo tempo… Em um lado estava escrito ”O pergaminho mais velho” com uns símbolos ao lado que, dias depois eu pesquisei um pouco e tive a certeza que eram nórdicos. Aí eu virei o verso e estava lá o seguinte texto ”O homem é um animal perdido. Alcançarei o nirvana. Eu me isolei até a enésima potência. E no som noturno de uma floresta distante, desejei me livrar daquilo que me era enormemente oculto e estranho. Assim como sempre me livrei dos males que me perseguiam no local mais profundo dos meus sonhos…” Nós três ficamos impressionados com aquele papel achado pelo cachorro. Com o que ali estava escrito e que certamente já fazia tanto tempo. O papel ali ainda intacto no meio das folhagens. Como entender a proporção daquilo tudo? Por que o cachorro trouxe aquilo até a gente? Ficamos comentando sobre aquilo e até hoje ainda falamos disso as vezes… E com um certo calafrio por dentro. O papel a gente deixou lá mesmo. Mas continuamos mais em frente antes de voltar para casa. Passamos por as quedas d’água e ficamos um tempo conversando sentado no mirante de uma pedra altíssima. A neblina densa se mantinha. Era um descampado sem fim e enorme. Um silêncio que poderia perturbar. Enquanto a gente estava sentados descansando um pouco, o cachorrinho olhou para trás de orelha em pé. Foi andando calmamente em direção ao caminho que viemos e em disparada, sumiu de nossas vistas. Ainda chamamos ele para voltar, mas sem sucesso. Nem fez conta e sumiu. Me pergunto até hoje se ele estava tão perdido quanto a gente. Ou queria nos confundir. Já que tanto ele quanto a gente precisava de uma direção. Ou qualquer caminho para ele seria o certo.

Pouco tempo depois a gente voltava pela estrada de sempre, para chegar em casa. Passamos novamente pelas quedas d’água no fundo das árvores, pelo cemitério abandonado cheio de lápides rachadas e antigas e por algumas casas abandonas na beira da estrada. Eu tinha uma forte sensação de que uma entidade das matas nos guiava a todo instante. Na verdade, a própria força da natureza é uma entidade superior e sublime, isso não há dúvidas. Muitas vezes era como se as árvores e o vento falassem diretamente com a gente em uma só palavra, no mesmo tom profundo de uma forte correnteza que arrasta tudo consigo. Sentíamos como sendo uma parte dela e que lhe devíamos todo o respeito. Por vezes também, imaginamos ouvir claramente uma voz que chamava pelos nossos nomes, em algum ponto distante da mata, mas que ainda assim chegava aos nossos ouvidos. Até demos uma procurada, mas nada de ver mais o cachorro em lugar algum. Sumiu de vez. Em um certo ponto lá na frente a neblina desapareceu e um sereno leve começou a cair. Aquele cheiro de folhas molhadas e barro úmido nos dava mais força para caminhar. Lembro de termos comido algumas frutinhas que achamos pela encosta da estrada. Dava uma paz sentir tudo aquilo. Até que saímos da estradinha de terra e chegamos na estrada principal. Toda asfaltada e com caminhões e carros pequenos passando constantemente por ela. Um pouco adiante ficava a casa de um dos meus amigos. Assim que avistamos a casa, tomamos um enorme susto.
– Troço é aquele ali cara? Tá vendo? Olha lá, em frente tua casa… Tem uns policiais falando com a tua mãe e mais gente. Será se aconteceu alguma coisa séria em?
– Não sei cara… Tô nervoso agora… Vamos ver o que houve!
– Vamos dá uma corridinha!
Quando chegamos lá, a mãe desse meu amigo ao nos ver, começou a chorar e se ajoelhou agradecendo aos céus. Unidades do setor de inteligência da polícia militar e um destacamento do canil faziam plantão ali já fazia uns quatro dias.
– Ah meu Deus, obrigado! Meu filho apareceu! Aonde vocês estavam em? Já faz uma semana meu filho, uma semana inteira que vocês haviam desaparecido! Vocês querem me matar, é isso? Até a polícia e os bombeiros já fizeram busca atrás de vocês nessas matas por aí afora! Ai meu senhor, meu coração não aguenta! Me segurem que vou desmaiar!
Depois disso a história ainda foi um tanto longa. Tivemos que ir em delegacia prestar depoimento, em rádios da cidade. Até reportagem de algumas emissoras foram atrás da gente para que fosse dado entrevista. E fizemos. Foi sempre a mesma coisa que repetimos para o policial da primeira vez: “
– A gente não passou uma semana fora, que tipo de mentira é essa? Fizemos uma trilha na mata, como de costume. Somente isso e pronto. Foi apenas uma tarde e só! Não estamos entendendo nada disso!
Mas não dava. Não se sustentava. Aos poucos foram nos mostrando como de fato, havia passado uma semana. E pela lógica fomos entendendo depois que isso realmente fazia sentido. Polícia com helicópteros, bombeiros, drones e a notícia do nosso desaparecimento sendo espalhada pelos quatro cantos do mundo? Se fosse só o sumiço por uma tarde nada disso teria sido feito nem alarmado. Isso nos deixou como que, confusos ao extremo e meio apavorados com aquele evento. Foi só quando a notícia chegou a academia de física nuclear de uma cidade vizinha, que aquele fenômeno pôde, enfim, ganhar um aspecto mais “lógico” e aceitável. A verdade é que de lógico aquilo não tinha era nada. Muito menos aceitável. Poucos são os que presenciam algo nessa escala e mesmo assim continuam com a mente sã. O normal é ter sérias dificuldades em entender tudo isso. É tão surreal que não dá para computar bem. Um desses físicos veio até nossa cidade e nos chamou para uma conversa. Como uma entrevista particular. E ao que a gente foi detalhando como tinha sido nossa aventura daquela tarde, ele sorriu e olhando nos nossos olhos falou:

– Sim meus jovens, foi exatamente o que eu achei mesmo. O que eu havia vindo fazendo todos esses inúmeros cálculos aqui nesse caderno, se confirma com a história que vocês me contam! Vocês entraram em uma espécie de buraco de minhoca! São nada mais nada menos que uma característica topológica hipotética do contínuo espaço-tempo do cosmos. A física quântica tem como papel explicar essa teoria, embora seja bem louco. Esse fenômeno já foi visto e estudado outra vez em dezembro de mil novecentos e setenta. É bastante famoso inclusive. Um piloto se perdeu em seu avião monomotor no triângulo das bermudas e algo semelhante aconteceu com ele. Mas não foi nessa mesma proporção. Isso aqui é algo inédito até onde sabemos, é absolutamente bizarro e mágico! A sorte é que nos dois casos, quem entrou conseguiu sair. O caso desse piloto foi só de algumas horas. Já o de vocês durou uma semana, embora vocês não tenham nem percebido! O fenômeno do colapso da função de onda foi rompido e vocês enfim saíram do tunelamento. A mãe de vocês me contou também, que essa notícia do desaparecimento de vocês foi parar longe, obviamente. E eu claro, pude ver isso hoje pela manhã… A exemplo do The age, jornal australiano ou, o Le Mond em Paris. Vi nos dois sites matérias sobre este caso. De certo que em outros lugares ao redor do mundo também já esteja sendo noticiado isso. Não estranhem se vierem repórteres do exterior afim de entrevistarem vocês. É muito provável que se não fosse mesmo um túnel quântico, os bombeiros com helicópteros e a própria polícia, teria achado vocês. O raio de busca foi feito exatamente onde vocês foram, não? Só que jamais, ninguém viu vocês!
– Sim, pelo o que ficamos sabendo, o local foi ali mesmo. Gostaria de dizer que não estamos buscando fama nenhuma. E temos todo o direito de fugir de entrevistas e aparecer na mídia. Eu pelo menos, não desejo isso. Mas essa história é difícil de entrar na cabeça, é uma loucura que chega mesmo a perturbar, compreende isso? De verdade? Mas tá certo então… O que haveremos de fazer nesse caso? Creio que nada. Já ‘’ passou’’, tudo bem. Se o senhor diz isso, pode ser real, quem sabe. Mas para a gente, não passa de um surto coletivo. Um equívoco louco e generalizado. Já fizemos isso várias vezes e nunca isso aconteceu! Como assim? Também não fizemos uso de nenhum entorpecente. Não que eu lembre. Nunca vamos entender isso completamente… Nem dormido direito a noite eu tenho mais, só pensando nisso. E meus dois amigos de igual modo também. Pode ser isso aí que o senhor diz e também pode não ser… Mas a verdade é que tanto meus amigos quanto eu, não achamos nada daquilo ruim. Por nós, ficávamos para sempre dentro daquele portal então! Se é que era mesmo um portal. Perdido no meio de uma floresta eterna, sem ter mais que voltar para este mundo tão ruim.
– Eu entendo completamente meus jovens, saibam disso. E é claro, pode ser também o que eu lhe falei, meu caro! Tudo depende de como você interpreta. E os buracos de minhoca que falei para vocês aqui, se trata de uma teoria mesmo. Um túnel quântico que é provável de acontecer no tecido do universo. Uma distorção grave do espaço-tempo. Dependemos também da matemática para tudo isso. E ela é sempre tão perfeita, não é mesmo? Se parar e pensar, no final tudo são números, embora não vejamos ele como conhecemos. Por isso temos um embasamento sólido quanto a essa teoria. Iremos mandar uma equipe de físicos para a região em que vocês estavam. Uma série de pesquisas e estudos será feito lá nesses dias seguintes. Em nome de todo o instituto acadêmico de Física, agradecemos a vocês garotos!

Depois de toda essa história, fizemos trilha só depois de um bom tempo e por outros locais e caminhos. Nossa família criou um certo trauma com aquilo tudo, e ganhar confiança de novo levou um bom tempo. Ainda saio sozinho as vezes e penso não somente nesse acontecimento tão surreal. Reflito em tantos outros que houveram e, quem sabe, depois conto aqui nesta folha, ou para outro alguém que tenha a sede dos delírios. Como o papel antigo que achamos na mata, e dizia ser um velho pergaminho. Só os loucos que possuem a grande ânsia dos raros delírios é que se entendem. Além dos rios em oculto. Como as fortes ventanias que se tocam nas muitas árvores que balançam e sussurram coisas que tão poucos podem compreender.

2 comentários em “Subterrâneo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s