Oscilações

Eu só quero é estar ainda em algum canto ou ponto distante e ver tudo isso sendo consumido pelo fogo, pouco a pouco, incendiando e virando cinzas escuras, bem como deve. Todas essas ilusões e mentiras onde eu já estive em alguma hora e sei que muitos ainda estão ou irão estar, em algum momento. É como uma estrutura toda bem feita, mas com pisos falsos, esperando o próximo passo que provavelmente, será o último. Mesmo que eu ainda esteja perto desse rio, que agora passa tão sereno na margem onde meus pés estão, essa água não impediria. Quando aquela tarde, em oculto alguma entidade quis me dizer algo e eu não quis escutar. Uma chuva repentina, alguém que caía de moto na avenida e eu vi… Dois meninos que conversavam entre si e um deles exclamou “Ei, já sei de uma brincadeira! Vamos tocar fogo em tudo e depois na gente?” “Vamos, deve ser massa não é? Eu risco o palito e tu joga o querosene!” “Acho melhor eu jogar o querosene e tu riscar o palito!” “Ei, meninos, me dêem essa idéia aí de vocês, é melhor. Eu compro ela, juro que compro e executo! Eu mesmo incendeio tudo, inclusive meu próprio corpo! Podem deixar, eu mesmo risco os palitos e jogo o querosene em cada centímetro que houver, com todo o prazer!” Muita coisa eu já percebi como uma perseguição de acontecimentos súbitos e eu sem saber se a culpa era minha, mesmo que não tenha tido a intenção de errar. Pulei em uma sequência de penhascos e as fraturas foram severas… Apesar de achar que não. Em tudo prevalece um preço, uma cobrança. Questão é que não sabia se eram penhascos, em meus acessos de ingenuidade, uma inocência esperançosa. Imaginei que lá em baixo fosse haver algum rio, uma floresta com árvores macias ou algo que evitasse um completo desastre. Eu já tinha lido em algum canto que a repetição de acontecimentos é o que torna a coisa em si completa, o mostro mais forte, o inimigo de couraça impenetrável e invencível. E foi o que mesmo sem querer, mesmo que com outras intenções completamente diferentes, acabei fazendo. Alimentando o monstro de forma sequencial e repetitiva, sem nem me dar conta. Mas os estóicos já diziam, não é? Que o meio termo é o lugar mais lindo? E que tudo aquilo que fede se você souber, se tiver um pouco de pensamento além, ele vira um maravilhoso perfume? Mas até sendo estóico a mente ainda pode se dividir em diversos sistemas cujo fluxo não para, até que apague de vez. Não é fácil… De algo ruim que aconteceu e eu achar que nem era real. Não poderia ser real. “Não. Isso aqui não é um teste!” Se eu pudesse voltar há uns dez anos atrás, certamente que veria a base disso tudo que me trouxe até aqui e agora. Mas aí seria necessário voltar ainda mais dez… Mas também depende de qual caso eu iria conseguir ver desde o início. O que quero dizer é que em algum momento, em uma série de desfechos e ocorrências divididas, iniciou-se segundo escolhas minhas, todos os desdobramentos que agora vivencio.

Uma perseguição de acontecimentos súbitos e eu sem saber se a culpa era minha, mesmo que não tenha tido a intenção de errar. Pulei em uma sequência de penhascos e as fraturas foram severas… Apesar de achar que não. Em tudo prevalece um preço, uma cobrança. Questão é que não sabia se eram penhascos, em meus acessos de ingenuidade, uma inocência esperançosa. Imaginei que lá em baixo fosse haver algum rio, uma floresta com árvores macias ou algo que evitasse um completo desastre. Eu já tinha lido em algum canto que a repetição de acontecimentos é o que torna a coisa em si completa, o mostro mais forte, o inimigo de couraça impenetrável e invencível. E foi o que mesmo sem querer, mesmo que com outras intenções completamente diferentes, acabei fazendo. Alimentando o monstro de forma sequencial e repetitiva, sem nem me dar conta. Mas os estóicos já diziam, não é? Que o meio termo é o lugar mais lindo? E que tudo aquilo que fede se você souber, se tiver um pouco de pensamento além, ele vira um maravilhoso perfume? Mas até sendo estóico a mente ainda pode se dividir em diversos sistemas cujo fluxo não para, até que apague de vez. Não é fácil… De algo ruim que aconteceu e eu achar que nem era real. Não poderia ser real. “Não. Isso aqui não é um teste!” Se eu pudesse voltar há uns dez anos atrás, certamente que veria a base disso tudo que me trouxe até aqui e agora. Mas aí seria necessário voltar ainda mais dez… Mas aí também depende de qual caso eu iria conseguir ver desde o início. O que quero dizer é que em algum momento, em uma série de desfechos e ocorrências divididas, iniciou-se segundo escolhas minhas, todos os desdobramentos que agora vivencio.

Olho para os céus agora, e vejo o que me lembra um enorme coelho que corre sem rumo… Ou uma enorme face que olha rumo ao infinito do azul celestial… Muitas formas que mudam constantemente. Por vezes em mim, há algo como a percepção de que, uma vida inteira já tivesse sido passada e não importasse mais se vivi ou não. Como se no dia e horário de uma festa que aconteceria, já houvessem se tornado um passado, no espaço de um dia depois. E um atraso salvou. Deixando quem estava tentado a ir, aliviado por já ter passado, pois no fundo não queria mesmo fazer tal ação. E se ampliasse essa instância, esse pensamento, para o tempo e duração do que seria uma vida toda? Não necessitaria fazer mais nada… Antes de passar a ter cada espaço dos pulmões preenchidos pelo oxigênio que corrói lentamente, e abrir os olhos pela primeira vez na face desse mundo, não faria mais. Antes de correr desesperada e cegamente até o óvulo materno, não fizesse mais, pois o tempo já havia acabado antes mesmo de começar. “Ele passou do tempo de nascer, não há mais o que fazer! O cérebro entrou em colapso pelo excesso de tempo sem oxigênio, lesão irreparável dos impulsos elétricos!” “Que bom então!” Eu poderia dizer… “Parem já, seus neurônios estúpidos, com essas drogas de ligações entre vocês, não façam mais nenhuma! Parem já com essa ligação infeliz que dá início em outra, de uma vez por todas! Pois que o meu nome seja apagado de todos os registros de nascimento e qualquer rastro de minha existência tenha sido dizimado de uma forma tal e absoluta, em qualquer lugar que possa ser mapeado, medido ou sequer imaginado…” Esse tal espaço provável onde ainda poderia ocorrer o fenômeno da vida, já teria sido fechado bem antes. Como um natimorto, ou o projeto de um filho que nunca foi concebido nem mesmo em um embrião. Se porventura houve esse projeto, ele teria sido rasgado, amassado e jogado ao lixo. Deixasse para lá, tudo bem então, não precisaria mais. Já cheguei a me perguntar insistentemente por muito tempo em um dilema um tanto doloroso: o que seria pior? Você ser inexperiente e assim ficar muito mais a mercê de impulsos e acabar fazendo alguma coisa de qualquer natureza que seja, sem pensar duas vezes? Ou ter muito mais experiência, e estar apto a tomar as mesmas decisões, só que agora de uma forma muito mais estruturada e extremamente aperfeiçoada, como o bote de uma serpente ardilosa e infalível? Como disse, é um tipo de perplexidade que já invadiu por muito tempo, meus pensamentos… E eu falando assim, aqui e agora, me denunciam instantaneamente, que por vezes já desejei ou ainda desejo fazer algo. Bom ou ruim? Conseguiria fazer maliciosamente bem ou o total oposto disso? Isso não consigo dizer, nem que tente, realmente não consigo contar esta última parte… Nem sei se importaria de fato. Mas sinto isso… Essas oscilações com um turbilhão de pensamentos e devaneios impressos. A ideia de ver novamente e sozinho, depois de tantos anos, a velha casinha onde meu pai nasceu e meu avô morreu. A casinha onde tanta história ocorreu, e hoje é somente a imagem deteriorada de um passado remoto… Como uma sombra esquisita, um fantasma desolado em meio aos matos. E se nenhum deles dois tivessem nascido? Quanta coisa que não teria acontecido, tantos eventos que jamais existiriam em toda uma linhagem familiar e terrena?

Já tentei consolo e conforto em tanta coisa, que já nem sei mais… Tudo o que a filosofia poderia me esclarecer em suas mais completas e diversas vertentes possíveis. Na sociologia, também tentei entender o movimento de toda essa entidade que é separada e independente sobre tudo o que é considerado “humano”, se ele deseja ou não. Apesar de ter sido ele o criador de todo esse mecanismo mental e engenhoso. Já conversei com alguns atropológos também, inclusive amigos meus. Fenomenologia já nem cito mais… Ocultismo, satanismo, simbologia… Ai! Toda sorte que cartomantes e místicos poderiam me descrever e fazer enxergar algo de diferente e lúcido. Ainda assim, para mim, sinto que ainda não tenho o que desejo saber… É como um fio de luz inalcançável pelo o qual tento eternamente ver de onde vem seu imutável foco brilhoso, para que me orientasse, me desse ao menos um único norte correto. E é assim… De repente pegar e dizer tanta coisa dessa forma, uma atrás da outra. Como uma descarga violenta de energia que paralisa instantaneamente um coração e faz entrar em colapso todos os órgãos de qualquer animal que seja na face desta terra. Uma besta sedenta por carne que estraçalha uma débil matéria de nervos e ossos. Ou o impacto de um veículo em altíssima velocidade, em um frágil corpo que se despedaça por inteiro… E isso me lembra, certa vez em que vi, na beira de uma pista onde veículos velozes passavam, um pobre cachorro que se debatia e gritava de dor bem ali na minha frente. Tentei pegá-lo, mas em seu instinto primitivo de defesa, tentou me morder. Por pouco não mordeu forte… Ele correu para o meio da pista e eu fiz sinal para que os carros parassem, do contrário ele seria esmagado. E pararam. O animal tentava correr normalmente, mas estava completamente desorientado e sua cabeça sangrava. Era estranho demais a forma como ele corria sem sair do lugar… Até que, na escuridão da noite em meio aos matos ali perto, ele sumiu… Não o encontrei mais de forma alguma, embora tivesse tentado. Tudo silenciou. E naquele momento em que lhe vi ali no chão em tremenda agonia e tentei salvá-lo, eu era algum Deus e ele o homem. O perdido animal, que se chama homem. Mesmo que ainda, tenha sido por uma fração de momento. Por acaso, seria morrer encontrar o Nirvana? Mas é muito para se absorver, não tem como… Como disse Shakespeare “A vida é só o tempo de contar até um.” Exatamente… Como uma fração de tempo interrompida por inteiro, uma contagem breve. E até que essa disrupção espontânea aconteça, espero aqui, bem aqui nesse local onde me encontrei de repente, sem saber como e o que me trouxe até aqui.

Sendo o mais franco e direto possível com você leitor, tenho em mente que devo dizer meu nome e esse tal lugar onde me vejo agora. Zero intenção de minha parte, de descrever tal coisa de forma cansativa e enrolada. Meu nome é Pedro. Na verdade, não é Pedro não. Não tem nada a ver com isso. Só digo que é esse por conta de ser um nome um tanto comum e fácil… Também imagino que meu nome pouco importe realmente, se é que possuo algum… Mas o lugar, acho altamente imprescindível que fale como é, ou ao menos tente isso. É um calor sufocante bem nesse espaço em que me encontro agora. Eu realmente não sei se já estive aqui antes ou se é somente o momento de agora mesmo. O que mais tem me horrorizado nesse meio tempo em que estou aqui parado, que deve já fazer algumas horas, é que olhando direto e um pouco mais à frente, vejo um homem muito parecido comigo. Até mesmo na cor da roupa que ele usa, o modo como olhou para fora da janela daquela casinha, e as feições do rosto… Que coisa mais louca foi o que senti ao ver isso! Se tenho algum irmão gêmeo, disso nunca fiquei sabendo! Ele apareceu nessa janela com uma moça, se abraçaram e deram um beijo. Mas foi coisa rápida. Ao que observei e ainda observo, saíram os dois e sentaram na área dessa mesma casa, com mais duas pessoas que estão de costas para mim. Todos conversam tranquilamente entre si, e um deles estar deitado em uma rede. Pois bem. O local em que estou agora, me parece um sertão árido. É um clima totalmente abafado, quente e quase sem vento nenhum. É exatamente essa a sensação que tenho agora. Por sorte ainda, estou em pé, encostado em uma grande árvore. Isso ao menos, me trás um pouco de alívio pela sombra que ela faz. Ao olhar para os lados, para trás e para a frente, tudo o que posso ver são montes bem altos com sua vegetação um tanto já seca e castigada pelo calor. É como se aqui onde me encontro, fosse um tipo de buraco. Pelo menos, lembra algo assim. Sinto um cheiro de erva seca pelo sol, algum pássaro pia ao longe… Mas fora isso reina um silêncio completo, que chega a incomodar. Ao que posso perceber, quando o silêncio se torna demasiado, o cérebro passa a criar seu próprio barulho… É como um vício em estímulos que não há o que fazer! E esse sol, absurdamente escaldante. Um pouco à minha frente tem um rio, mas a água não corre forte. Ele é um pouco fundo e estreito. Consigo sentir o cheiro bom de matéria orgânica na água… Tem um tronco grosso sobre ele, que permite que se passe para o outro lado até chegar nessa casa que falei. Ela deve estar, há uns trinta metros de mim. Sim, eu estou aqui, embaixo desta árvore e já deve fazer muito tempo. O leitor agora já deve ter dito consigo mesmo “pois sai daí ué, o que te impede?” Exato. Exatamente isso, que também me pergunto, desde o momento em que abri os olhos aqui! A única ação que consegui tomar, até agora, foi a de levantar (sim, quando me dei por conta que estava aqui, me encontrava sentado sobre as folhas secas) e conseguir, aos poucos, ir tomando noção do local em que estou. Até minha retina ir se acostumado aos poucos com a luz forte do sol. Quando digo noção, quero dizer que posso identificar algumas plantas, o clima, o bioma, etc… É como se uma espécie de catatonia aguda, dessas que estão intimamente ligadas aos distúrbios esquizofrênicos mais severos e fulminantes, tivesse tomado conta de mim por inteiro, algo que parece ter sido totalizado aos poucos… Ainda há o detalhe de por exemplo, ao que posso perceber, tem uma grande plantação um pouco distante, quando olho para o lado, que deve ser quiabo. Tem outra de couve e uma outra maior ainda de milho. Também há muitas bananeiras. Bem lá no fundo, há um boi e uma vaca e uma média plantação de mogno africano. Bem sei o quanto essa madeira é cara e luxuosa…

A questão é que se tento correr, não consigo. Se tento sair daqui de onde estou agora, a ação que faço de tentar movimentar meu corpo, simplesmente não me obedece. Porquê isso? O que tá havendo? Que paralisia é essa? Eu já tentei e ainda estou tentando, lembrar da última memória que pode vir em minhas lembranças. Eu juro que estou tentando feito um louco, recuperar algum fragmento disso. Tudo que consigo lembrar, é apenas que, eu entrei dentro de um ônibus e tinha muita gente sentada nele. Tenho a sensação de que o rosto de todo mundo ali era esquisito. Nunca vi tanta gente com um rosto tão deformado como cheguei a ver nessa ocasião! Bizarro! Pelo menos é o que acho que vi. Não sei se, por esse calor sufocante que sinto agora, minha cabeça que já começa a doer e minha garganta irritar, me faz acreditar que foi tudo assim, como se tudo tivease sido distorcido. Como se o estress sobre mim só piorasse a situação, até mesmo no que penso ou deixo de pensar. Depois de ter visto esse povo, (que também olhavam muito para mim, como se nunca tivessem visto alguém na vida) só recordo ainda de um moça, que não possuía seu rosto deformado e falava comigo… Não lembro o que foi falado, não consigo. Mas lembro que ela perguntou meu nome e eu devo ter dito. Ela me disse o dela também, mas também não consigo lembrar mais com clareza. Tento e tento, mas é como se minha memória falhasse gravemente… Como se meus neurônios, responsáveis por este fluxo, este fluído que mantém nossas memórias vivas dentro de uma massa encefálica, fossem colapsando, uma por uma. Gradual e lentamente… O que há de mim agora? Ou melhor, o que será de mim? Olha, pois bem. Eu já falei do local em que me vejo até agora. Lá na frente há ainda algumas cercas de madeira com arame farpado. Ao redor da casa que mencionei ver, é um dos únicos locais que lembram e inspiram vida e conforto. Cheio de plantas de várias espécies, tão verdes, lindo de se ver. Umas poucas galinhas e um cachorro caminham lentamente por ali. As quatro pessoas que falei também, ainda estão lá. Dois de costas para mim, o cara que é idêntico a mim sentado ao lado dessa garota, em uma cadeira. Estão de mãos dadas. Tá com um pedaço, acho que umas duas horas atrás, quando vi ele chegando nessa casa. Todo bem arrumado, essa garota veio sorridente ao encontro dele. Os dois juntaram as mãos, se abraçaram e entraram. Ela deve ter lhe chamado para entrar. Achei uma cena tão bonita de se ver, marcante… Reparei, observei… Ela é linda… Isso eu admito, linda mesmo. Deve ter um romance com esse cara. Meu intuito aqui não é relatar nada romântico não, muito pelo contrário. Mas é que realmente, não há como simplesmente pular essa parte que tanto me causou impressão. É mais um detalhe dessa louca estranheza na qual presencio agora! Mas como diabos pode alguém parecer tanto comigo assim, como ele? Como assim? Ai, minha cabeça de novo… Sinto algo como uma tontura, uma vertigem! Me seguro na árvore para não cair. Olha! Se tivesse alguém aqui comigo do meu lado, eu pediria para observar nessa mesma direção em que olho agora! Esse cara que falei, deve ser mesmo eu! Consigo ver ele mais de perto agora. Eles estão se aproximando mais e bem mais… Aí voltaram para dentro de casa novamente. Que estranho… O mais estranho é que, antes de chegarem até aqui perto do rio, eu vi eles atravessando de volta esse tronco em direção da casa novamente. O que houve que não continuei vendo eles vindo em minha direção? Será que apaguei outra vez sem perceber? Quando me dei conta novamente só ouvi ela dizendo para ele ” Vai na frente, que minha labirintite pode atacar e eu cair. Preciso olhar para os teus pés em movimento!” E isso tão perto, bem ali do meu lado praticamente… Eu dei um passo. Consegui finalmente sair do local que antes parecia me prender. Então… Vou lá nessa casa. Preciso ver e ter a certeza, se aquele cara ali sou eu mesmo! Isso não entra na minha cabeça… Tem uma frase que ecoa em minha mente enquanto estou indo. “O local é seco e o clima torrado… Se não fosse por ti eu não teria chegado…” O que isso quer dizer? Cheguei em frente à casa. Mas… Não há ninguém mais aqui na área! Entro devagar. Procuro em cada cômodo até chegar no quintal, lá nos fundos. É tudo aberto, não há muro nenhum em local algum. Dos fundos da cozinha, posso ver aquela mata onde me vi antes, sem conseguir sair do lugar. É uma imensidão, entre vários montes ao longe. Esse clima seco é que lasca tudo… Sensação de garganta ardente, de cabeça zonza e doendo pelo calor. Eu devia ter tomado água e me banhado naquele rio, mas não fiz. E também não vou mais voltar lá…  Na cozinha pequena, um fogão a lenha que ainda tem alguma brasa por ali… No interior aqui desta casa, é tudo muito bem arrumado. O que acabo de achar, é que aquele povo todo que vi aqui há pouco tempo atrás, saíram mas devem voltar logo. Será que saíram simplesmente pelo medo de terem me visto se aproximando? Volto para a área da frente, onde há uma rede armada e umas cadeiras. Sento em uma. Que silêncio… Ele só é quebrado por algum pássaro que emite seu piado penoso, ao longe… Alguma cigarra que cogita em cantar com aquele seu chiado contínuo… Mas aí para. Ela começa e para, toda vez. Eu não entendo… Cadê aquele casal que tava aqui ainda há pouco e o cara que parecia muito comigo? É só um silêncio e um vazio que reina! E aqueles outros que vi conversando? Um deles estava na rede… Eu lembro, lembro bem…
” Ei… Eu tinha falado com a mãe que você viria… Mas o que aconteceu, nem eu sei explicar bem. Ela parecia tão feliz… Preciso que me perdoe…”
Como se fosse um vulto, uma aparição repentina, aquela moça que eu vi desde o começo veio em minha direção e falou isso. Eu estava de cabeça baixa e quando vi, olhei assustado para ela. Aí ela sumiu de novo. Já tava tão perto de mim, e sumiu. Foi como um vento repentino… Como um tresvario em minha mente atordoada. Acho que vou levantar e procurar sair desse local. Pegar essa estradinha de piçarra que se encontra em minha frente e seguir por ela, mesmo que sem direção nenhuma! Mesmo que nesse sol escaldante e clima seco. Eu tenho que sair daqui… Talvez lá na frente eu encontre alguém que possa me ajudar, me dá alguma carona, não sei! Esse ambiente todo aqui é que deve tá favorecendo em me sentir como me sinto agora, em ver o que vejo como uma alucinação generalizada!

Em meus ouvidos ecoa, de momento em momento, algo como um som agudo, como se eu tivesse levado uma pancada que tivesse afetado meus tímpanos. É um som que incomoda e me deixa mais tonto… Até que para totalmente, outra vez. Eu achei que fosse ver aquelas pessoas aqui outra vez, pedir ajuda, conferir quem era aquele cara que tanto se parecia comigo… Mas nada. Não há mais ninguém aqui agora, não vejo mais nenhum vivente… Mas as galinhas ainda ciscam o terreiro ali, calmamente… Ao mesmo tempo, esse ambiente trás uma paz tão grande, uma calmaria… Mas dentro de mim é esse incômodo emotivo, essa inquietação em que me deparo, sem saber como vim parar aqui e o que me trouxe até aqui! Chega me bate uma revolta, uma melancolia… Como não? É justo que qualquer um sinta, em uma situação que seja igual ou semelhante.
“Olha… Você não quer água? Vem, vamos comer… Você tá cansado… Eu sei o quanto você queria algo diferente, disso aqui… Infelizmente não tinha muito, sobre o meu controle… Eu queria poder ser capaz de secar o mar inteiro afim de achar o teu corpo, se fosse preciso…”
Outra vez ela aparece e fala algo que não entendo, em minha direção. Mesmo em toda sua beleza que possui, a forma como aparece para mim me assusta enormemente. Sinto a brandura de seu toque e a maciez de suas mãos em meu rosto… É como se uma leveza invadisse toda minha mente em fração de segundos… Minha tontura volta outra vez! Eu vou fugir daqui, agora!

Em um instante, me vejo correndo na direção contrária agora de uma estradinha de piçarra e barro vermelho. Um contrito embargado parece apertar meu peito… O vento que sopra levanta esse barro em cima das folhagens mais altas. Eu não encontro ninguém, em lugar algum…. Embora veja casas e plantações muito bem cuidadas. Será que faz parte de algum jogo e todos se escondem de mim agora? Ou observam ao longe e imaginam qual será meu próximo passo? Deve haver alguma outra avenida principal mais distante, algum caminho certo, onde passe algum carro com alguém de bom coração. Deve ter alguém que me veja e me explique algo, um pouco mais ao longe daqui… Um tanto mais distante de toda esse lugar que mais parece uma enorme clareira de campina, como um horizonte de eventos. Estranho demais… A direção em que vou é a contrária onde ainda há pouco estava. Toda uma imensidão erma que seria fácil se perder, perante os meus olhos…

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