Deitado na chuva

Corria inúmeras distâncias para quando chegasse, observar que o local ainda era o mesmo… Ambrose Bierce

O local era a mesma casa de minha tia na primeira rua depois da calma avenida do bairro Planalto da Barra. Local bom, muito bom. O que estraga é a grande ladroagem. Toda minha infância viu essas ruas anos após anos. Muita coisa e história, maioria delas bestas e sem graça. Mas para mim era sempre bom e cheio de graça. Para toda criança tudo é bom e tem mais cor embora nem seja de fato. Parece que nada dura tempo suficiente para gerar um desgosto imortal. Muito embora isso ocorra tempos depois.

Eu só não estou compreendendo o porquê de eu estar aqui novamente na casa dela, aqui nessa mesma área de piso vermelho e com visíveis rachaduras superficiais. Está tudo vazio de gente aqui dentro. Toda a mobília está toda ainda como eu via antes. A casa ainda tem seu antigo modelo como era antes da reforma. Reforma essa que aconteceu não tem dois anos direito, isso eu sei bem. Ficou tudo mais bonito e até moderno mas eu sempre preferi como era antigamente, com essa forma que agora vejo. A forma de antes mantinha e conservava todas as minhas memórias que por aqui e antigamente criei. É por isso que agora só me é possível acessar tais memórias na forma intuitiva e imaginativa, como um sonho lúcido e vago. Depois da reforma já não tem mais meu agrado, já que tudo é novo. Carecia de novos acontecimentos que para mim seriam dignos de serem todos bem guardados, no mais profundo recanto de carinho e saudade. Mas isso já não deve mais nem acontecer… Nem por lá ando mais… Nem ando nem quero. Não ando lá porque não quero mais, perdeu a graça para mim e já faz tempo. Tanta coisa que perde a graça com o tempo, perde o brilho… Mudanças são sempre tão profundas. Para lá ou para cá tem sempre sua profundidade que parece imensurável.

Pois bem. Acontece que eu acordei nessa área coberta por telhas envelhecidas. Seu teto é alto e lá entre as ripas já foi habitação com ninhos de muitos pássaros barulhentos. Gosto muito do canto dos pássaros… O que não gosto é quando não estou bem e eles continuam cantando. Me vem assim o contraste da infelicidade e do incômodo em minha alma. O mesmo acontece com as fragrâncias diversas. Gosto muito dos perfumes bons que existem… Mas só acho melhor apreciar quando estou bem comigo mesmo. Do contrário prefiro não sentir. As memórias que são despertadas geram novamente aquele incômodo pesaroso… O poder da neutralidade acalma e estabiliza seja o que for. Pois quando levantei do chão, veio em minha mente a idéia de que eu poderia ter bebido muito ou alguém me drogado com um forte entorpecente. Teria ido dormir nessa minha tia, de modo que, ao chegar e chamar por ela eu sequer teria lembranças de como foi tudo aquilo. Visto meu estado tão avançado de embriaguez ela nem teria tentado me levar para dentro para que eu deitasse na cama ou algo assim. Cheguei, deitei, adormeci. Tudo que ela me dizia era mais como um barulho sem sentindo e embaralhado, distante, sem palavras formadas, eu não entenderia nem se quisesse. Mas não pode ter sido assim não… Eu sei que isso tá mais para auto engano mesmo. Beber muito assim eu já até bebi… Mas a casa dela seria o último canto neste mundo em que eu procuraria abrigo. Na verdade não. Nunca bebi a ponto de não lembrar onde estou ou de ficar feito um débil mental sem consciência do que está fazendo. Muito pelo contrário, eu sempre soube… Não, definitivamente não vim parar aqui dessa forma. Por isso que não entendo. Terá sido uma brincadeira de mau gosto da parte dela? De algum de meus familiares ou amigos? Não tenho tantos amigos. Os que tenho me são como irmãos sérios, jamais fariam coisas do tipo. Uma explicação lúcida e objetiva para isso parece que só foge de mim toda vez que chego mais perto. Constato que aquele poste da rua em frente a área da casa, está funcionando corretamente. Sua luz amarela clareia tanto a rua ali fora como a ampla área aqui dentro. O mesmo poste que clareou meu pai pondo minha pulseira vermelha de recém nascido em um buraco daquele mesmo muro e tapando com cimento. O porquê de ele ter feito isso eu nunca soube. Só recordo de ele ter me falado isso várias vezes. Isso tudo há muitas e muitas décadas atrás. Vou andando para a sala ali dentro da casa. Uma TV antiga, daquelas de tubo grande atrás, está ligada. Em sua tela está tudo azul como se ela tivesse um problema. Hoje a TV que está ali é dessas super modernas, disso sei. Estou sozinho mesmo ao que parece, completamente só. Cadê o pessoal que sempre animaram essa casa? Lembro que minha tia não morava só… Ela devia ter mais de um filho que seriam meus primos e o marido… Lembro de algo mais ou menos assim, é certeza.

Passo a mão no rosto várias vezes tentando tornar toda essa situação mais compreensível e clara. Mas é lento de mais, arrastado, vagaroso… Lá fora e aqui dentro tudo inerte e calmo. A TV nem emite aquele chiado comum. Aperto os botões algumas vezes. Até que ela dá um sinal. É transmitido ali uma trágica notícia cuja legenda diz em baixo “EUA sob ataque! Word Trade Center em colapso!” Ao ver tal coisa eu afasto para trás com enorme espanto. Mas o quê? Isso não é sobre aquele tal atentado do 11 de setembro? Mas isso aconteceu faz muitos anos… Quando aconteceu eu não lembro pois só tinha lá meus cinco anos, mas isso ficou famoso mundialmente. Como diabos está passando aqui e agora? Ainda mais a noite? Eu sei que todo o evento terminou ainda pela manhã! Na época eu até queria ter visto isso ao vivo, mas agora não quero mais. Aperto novamente aqueles botões de forma até frenética, mas a notícia parece está saindo em qualquer canal que eu mude. Que tipo de loucura é essa? Saio dali e vou correndo até a cozinha. Aquela minúscula cozinha em seu antigo formato… Hoje eu sei que ela está bem grande e com um acabamento mais refinado. Ao olhar para a pia vejo que esta ali vários pratos, copos e restos de comida como que usados recentemente. Parece utensílios de aniversário, como aqueles que sempre se realizavam por aqui. No fogão uma chaleira em início de fervura me faz ver que algum chá verde está cozinhando. Só pode ser chá, reconheço pelo aroma… Apago o fogo. Um papel de presente ao chão diz “Aos onze anos de meu filho Caio, com muito amor!” Onze anos de Caio? Mas não foi de Caio o casamento que teve há quatro anos atrás e que foi tudo de bom? Foi uma festa inesquecível isso eu também sei, já que também estive presente nela! Não compreendo mesmo o que está havendo aqui. Esse papel me lembrou uma carta que estava sendo escrita mas parou pela metade.

Ao voltar para a sala vejo que a programação da TV resolveu mudar. Está passando uma corrida de fórmula 1. O narrador diz que ali é o grande prêmio do pacífico e que Senna lidera a pole position. GP do pacífico? Essa é boa mesmo. Piada só pode. Eu sei bem o ano em que essa corrida aconteceu, 1994. Aí vem e passa agora bem aqui na minha frente? Mas bom, espera… Que ano estou mesmo? Se não sei nem como cheguei aqui, e como fui parar sentado naquela área, como posso me achar digno de opinar e afirmar em qual ano realmente estou? De fato é complicado… No entanto não pode ser só loucura minha, algo parece ter algum motivo, não sei… Ou talvez não. Talvez haja uma possibilidade não nula de ser só loucura minha. Calma! Vou ao quarto que era ou ainda é de Caio. A porta se abre facilmente e ninguém está ali dentro. As camas estão bem arrumadas e o quarto todo em ordem. Um papel meio envelhecido com um rosto sorridente e estampado está sobre a cama. “Eternas saudades de todos que lhe amavam, Filomena Vanilda”. Vanilda é o nome da minha tia. Que eternas saudades são essas que estão sentindo dela? Também não vejo ela aqui, mas não vejo um motivo para uma saudade eterna… Não posso crer que ela tenha morrido, não posso mesmo! Sensação de que há poucos minutos vi ela em algum lugar por aqui nessa casa, ou em alguma rua, embora seja um tanto confuso… Mas sinto isso, não pode haver tanto tempo desde que a vi! Devo até ter falado com ela, perguntado como iam as coisas. Como já teriam confeccionado até cartões de lembranças? Parece algo monótono que não passa e me deixa com essas dúvidas… Como a sensação de uma véspera por algo que nunca vêm ou acontece, apenas pairando. Será que só o agora é real? O passado é desprovido de nossa mera lembrança? No banheiro ao lado, o piso molhado dava a impressão de ter sido usado alguns instantes atrás. Uma fragrância de sabonete ainda era presente. Seria uma boa explicação eu ter usado… Mas não pode ser… Aquele cheiro agradável não está em minha pele, meus cabelos nem molhados estão. Essa mesma fragrância está em minha memória de algum tempo bom que já passou faz muito tempo, e não sai jamais… Mas não, definitivamente não fui eu que usei, não pode ter sido. Volto para a sala. Novamente outro acontecimento na TV. Um carro luxuoso e conversível vem vindo em uma carreata lotada e de repente, um passageiro que está atrás é atingido por um tiro no peito e depois no rosto. Isso não é o assassinato do cara lá? Deixa eu ver… Kennedy, sim. Jhon Kennedy. Se candidatava a presidência lá dos Estados Unidos.

Duas notícias trágicas e uma coisa normal… O que isso quer dizer? Ou não quer dizer nada? Obras do acaso… Certas coisas apenas são, sem motivos ou causas maiores. São simplesmente por haverem possibilidades de serem, existirem. Aperto o botão de desligar. Pelo menos isso me obedece e funciona logo. Pelo menos isso está em meu controle. Ao tentar sair novamente para a área, vejo que o chão está molhado. Olho para o poste e a luz me ajuda a ver que começa a chover. É a mesma vista, a mesma visão que eu tinha quando criança e isso também acontecia. “Como vamos embora agora?” Diriam meus pais… Agora como não estão aqui eu mesmo respondo: não sei como vou embora e tampouco quero ir agora! A chuva vai se tornando mais forte e gelada e molha a área inteira. Chuva com vento, como acontecia antigamente. Sento na área encostado à parede. Me molho também e gosto disso. Se meus pais estivessem aqui reclamariam muito disso… Mas não sei nem onde minha tia está, como saber deles? Chova mais, que chova a noite toda, que as águas me levem para outra casa ou lugar quando eu abrir os olhos! Espero saber em que tempo estou, se é que posso. Incrivelmente a chuva me dá um sono, um sono tão bom, uma sensação tão bem formada de paz! Vou escorrengando pela parede afim de deitar-me. Não importo em me molhar. Percebo ainda que um adesivo na porta um pouco a minha frente que antigamente estava escrito “Eu e minha casa serviremos ao Senhor!” agora diz “Para sempre habitaremos aqui, e sonhamos…” De repente, ouço vozes na sala. Levanto e vou olhar. Ah, que droga em! É só a TV que ligou sozinha… Ela é antiga, de repente isso é normal… Pelo menos agora não é notícia, trágica ou boa. Uma canção… Sim, linda canção ela canta. Conheço essa canção… Brian Eno. A música é By This River. Sim, não posso está errado quanto a isso. Sento novamente na área. Uma parte da sala já está molhada. Linda e maravilhosa chuva, não importo em me molhar. Como é linda essa vista dos céus, tudo turvo. Já vi muito isso. As gotas caindo em direção a luz do poste, é encantador de se olhar. Essa melancólica e linda canção… Sinto até que o sono vem… Mas se eu dormir agora e quando eu acordar? Sei lá… Ter noção do tempo é algo bom e necessário. Mas agora talvez nem importe tanto. Não sei se cheguei muito cedo ou tarde de mais. Tão sozinho… Que chuva fria, que sono bom, que paz…

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