Pálida luz

Bebi certa vez com Kafka num banco de madeira em uma praça deserta. Era noite e chovia. Chuva com vento que balançava as árvores mais altas e escuras. A bebida era de um forte teor alcoólico e um leve sabor amargo… Saborosa. Não lembro bem o que era… Mas tinha cor de absinto. Bebíamos diretamente do litro para que a água não diluisse tudo. Chuva forte, forte chuva.

– Então Kafka… Não sei mais a quanto tempo já estamos aqui… O primeiro ou o milésimo dia… Você sabe?
– Também não faço idéia… A estas alturas não importa mais saber… Parece um círculo… Os assuntos sempre mudam e voltam ao mesmo ponto… Percebeu isso? É como a surdina de um hábito. Um círculo vicioso. Mas a força do álcool se mantém a mesma…
– Sim, percebi… Não tem como, quer dizer… Não podemos ou devemos ir para casa já?
– Ir para casa a gente até tenta, mas sempre voltamos e nos sentamos aqui outra vez… Nem essa chuva quer ir embora, nem ela nem a gente. Então ficamos nessa!
– É, verdade… Você sabe ainda em qual direção fica sua casa? – Acho que ainda devo saber… Se não souber eu busco procurar informações… E você? – Também preciso fazer o mesmo meu amigo… Ao mesmo tempo que não desejo ir… É, exatamente isso mesmo… Olha…
– Olhar para aonde?
– Nessa mesma direção do meu dedo, embaixo daquela árvore distante… Não é estranho? Aquela luz tá ali desde que a gente sentou aqui. Antes mesmo da chuva começar ela já cintilava. E olha que já faz muito tempo que a chuva cai forte… Consegue me ouvir bem?
– Sim, consigo… É um estranho ponto de luz mesmo… Parece que vai apagando e de repente torna a ficar forte novamente… Não é o olho de um cachorro? Luz pálida, que cintilava e não apagava nenhum instante…
– Então… Cachorro não deve ser não. Que cachorro teria um olho tão brilhante daquele? Engraçado, você falou em cachorro… Faz poucos instantes mesmo que um, desses bem grande e marrom, parou ali na outra esquina e se pôs a nos observar… Quando procurei novamente ele não estava mais lá… Você não o viu? Ele passou um tempo, e olhava fixamente para a gente. Incrível isso! Vamos levantar e ir até lá no ponto de luz para ver?
– Eu acho que também vi esse cachorro que você disse… Mas não eram três cachorros de olhos vermelhos? Eles ficaram sentados e olhavam para a gente e grunhia… Mas estamos bêbados meu caro, pode ser apenas alucinações nossa… E ir até o ponto de luz nem adiantaria… Já tentei fazer isso inúmeras vezes, não viu?
– Não… Não mesmo! Sentamos juntos aqui e não vi você levantar nenhuma vez! Como pode dizer isso?
– Pois levantei, isso lhe garanto… Até lhe chamei para ir também e você disse que era muito distante e estava cansado… Acontece que cada vez e a cada passo que eu dava a luz se afastava… E quando eu voltava a sentar no banco, ela voltava e se fixava novamente naquele mesmo ponto. Como se estivesse me testando sabe? Foi aí que vi a impossibilidade de chegar até ela e sentei aqui novamente… Fazer papel de besta para quê? Você diz que não viu, pois já várias vezes caiu aí desse banco e tirou um cochilo, meu amigo… Fiquei observando… Você fica sonhando e parecem ser sonhos agitados… Fica falando que quer voltar para casa mas não sabe o caminho. Você fala também coisas que não entendo. Estamos embriagados, não esqueça disso meu caro.
– É serio isso? Caraca… E cochilo? Não lembro mesmo disso nenhum pouco… Como alguém tira um cochilo na chuva?
Chuva forte, forte chuva. Toda uma via Láctea de imaginações rodando na nossa mente pela força do álcool.
– Kafka… Olha lá… Olha a luz outra vez… Ver só como ela é muito pálida?
– Claro que vejo… Nunca deixei de ver, nunca deixei de olhar… Acho que se fosse os olhos de um cão não seriam pálidos daquela forma… Tento fingir que ela não está lá, mas não dá. Não tem como não perceber e olhar mesmo sem querer…
– Não adianta ir até ela, não é? De jeito nenhum mesmo? Não poderíamos tentar novamente?
– Não meu caro, não mesmo… Nem se fosse a última coisa que a gente desejasse nessa vida… Tampouco a primeira… Ela observa a gente e se afasta toda vez. Ou talvez não seja bem isso. Talvez seja algo mais além que não sabemos do que se trata, não sabemos explicar e tomar o conhecimento do que seja…
– Me diz uma coisa Kafka… Você ainda sente medo da noite? Medo daquilo que não é noite?
– Sim… Tem como, meu amigo, deixar de sentir? Há algo nela que é mais que ela própria e causa esse sentimento… Você mesmo já me contou também isso. É por essas e outras que esse medo nunca me deixou… Embora eu tente, vez por outra é possível sentir… – É, é verdade… Me diga mais uma coisa também, eu necessito mesmo saber disso… Aquela luz ali distante e presente, não é você não? Você próprio? Sua personificação? – É… Já fazia tanto tempo meu amigo… Você acertou na mosca… Sempre foi, nunca deixou de ser. Nunca deixou…

Chuva forte, forte chuva. Álcool que tonteia ao extremo. Choramos juntos e filosofamos sobre o absurdo existencial várias vezes. Infindáveis vezes. A luz ainda brilha estranha, distante e pálida. Não apaga, não muda, o mesmo ponto de sempre…

4 comentários em “Pálida luz

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