Poço profundo

O que há em mim é sobretudo cansaço, cansaço assim mesmo, ele mesmo cansaçoFernando Pessoa

Seu Sebastião Esmeralda, encontrou aqueles dois homens já conhecidos, estes encontrados em um bar ali próximo de sua casa, enquanto tomava sua dose diária de cachaça do tipo ouro que era armazenada e envelhecida em tonéis de carvalho. – Todo dia eu tomo minha dose, que é metade desse copo, e vou pra casa almoçar. O médico mesmo disse que eu podia, sabe? Faz é bem pro coração, rapaz… E eu achei foi muito boa essa indicação dele, viu!” Dizia isso dando aquela sua demorada gargalhada segurando o copo de bar. Ajeitou o valor da limpeza de um poço em sua casa, com aqueles dois homens que viviam por aí fazendo diárias para sobreviver e beber cachaça. Os dois primos, Lourenço Abreu e Carlitos, concordaram de pronto e acertaram que no outro dia já bem cedo estariam lá batendo no portão de seu Sebastião.
– Vamo sim Bastião, amanhã as seis da matina já tamo lá lhe chamando. Por cem conto pra cada um a gente caça até onça, num é não Carlitos?
– É sim, ora se não!
O dia era domingo. Sebastião levantava todo dia às cinco em ponto enquanto sua esposa ainda dormia e ia andar pelo seu grande quintal de terra olhando para o sol que vinha já tão belo e dourado, por entre os galhos folhosos dos pés de acerola, goiaba, coqueiros e tamarindos. Cuidava de suas muitas galinhas e vez por outra limpava sua fonte de água oriental, que ganhara de seu filho que lhe trouxe do Japão certa vez. Fonte de um anjinho todo de mármore azulado cuja água jorrava fina e borbulhante de sua flecha. Sebastião olhava para tudo aquilo todas as manhãs e suspirando profundamente, dava um tímido sorriso e agradecia aos céus.
– Eita meu pai! Por tudo que há de bom nesse universo inteiro, sou muito grato por tudo isso que tenho… Como é bom estar vivo embora por vezes seja tudo tão ruim nessa vida… Nessas horas que penso que tudo é divino… Como uma doce fragrância que trago na memória ou uma velha canção de rádio… Pequena amostra de meu paraíso na terra!
Era um dos únicos momentos em que o velho sorria e parecia não ser tão ranzinza e zangado. Era do tipo que se irritava e brigava fácil. Do tipo de personalidade que é facilmente excitável. Gente assim é sempre difícil lidar, convencer e manter um diálogo. Depois que põe uma idéia na cabeça, adeus… O que virá é sempre impossível de segurar, embora seja estúpido, ignorante e tosco.

Sebastião foi interrompido de seu tranquilo pensamento em olhar para a fonte de água, quando os dois primos lhe chamaram lá do portão batendo palmas. Seu cachorro, um cão cuja cor do pêlo era de uma indecisão entre o branco e o amarelo, levantou e latiu alto para em seguida, como que invadido por uma preguiça em latir, deitar novamente e apenas grunir baixo até calar e ficar observando. Era como se sentir somente a tranquilidade ali em baixo daquela árvore frondosa já fosse o suficiente. Sebastião abriu o portão com a cara meio fechada para variar e os dois entraram.
– Opa seu Bastião, bom dia! Não demoramos não né? Vamo logo cuidar nessa limpeza de poço com cuidado pra não quebrar um pescoço em!
– É mermo… Tem um cafezim pra gente Bastião? Barriga parece que tem uma porca dentro, roncando direto!
– Só pode mermo… Vocês dois são uns papa cachaça. Tem estômago que aguente mermo não meus filhos!
Os dois primos se olharam meio sem graça. Sebastião já era chato desde o começo do dia até a noite. Era difícil ver aquele homem sorrindo, sem dá bronca ou até sendo estúpido. Mas no fundo tinha um coração enorme, gostava de ajudar os outros. O que lhe faltava mesmo era paciência e calma com as coisas. Sua tolerância com certas besteiras era quase zero.
Os dois primos puxaram a pedra e a lona que cobria o poço e olharam para dentro com uma lanterna. Voltaram e tornaram a olhar novamente.
– Vish rapaz… O negócio aqui tá meio sujo mesmo né? Mas bora ver, acho que dá pra ir…
– Acha que dá pra ir? – falou Sebastião já visivelmente irritado- Vocês acham uma ova, não chamei ninguém aqui pra achar nada. Ou desce e limpa jajá ou vão embora. Vou ali pegar o café pra vocês e já vão cuidando aí em pegar vassoura e o que mais for preciso!
Quando entrou, sua esposa estava parada perto da pia ali do quintal. O sol radiante dava mais beleza junto ao céu azul de poucas nuvens.
-Vish Carlitos, e agora cara? Vamo descer essa merda aí desse jeito? Tem que pelo menos amarrar uma corda e tu fica aqui em cima me dando o que eu pedir…
– Sei não meu velho… Pra te falar a verdade tou com vontade de desistir disso agora, falando sério… Olha a fundura disso, tá doido? Eu pensei que fosse mais raso, mas esse troço é um poço profundo! Complicado aí o caso viu… E tá cheio de lodo pra acabar de lascar… Escorregar aí e já era!
Dona Egelina se aproximou dos dois primos que conversavam baixo. Falavam daquele modo afim de não demonstrar que o que queriam mesmo era ir embora dali naquele instante.
– E aí rapazes… Sebastião é um teimoso mesmo… Não sei que arrumação é essa dele de querer limpar esse poço de qualquer jeito… Já falei pra ele que o melhor seria comprar umas pastilhas que faz a limpeza da água por processo químico, mas o velho é osso duro de roer! Disse que prefere a moda antiga, ah meu Deus!
– É complicado mesmo… Mas já que tamo aqui, queria cumprir com a palavra… Eu fico e o Carlitos desce.
– Nada disso meu amigo, você desce e eu fico!
Sebastião voltou e pôs os dois copos de café em cima da tampa do poço.
– E aí, quem desce e quem fica? Aqui essa corda. Quem descer amarra na cintura, limpa tudo e aí tá pronto. Cuidado com as rã e as lagartixa. Mas as bichinha não mata ninguém!
– É o quê? Tem até rã? Valeime, agora que não desço mermo, tenho pavor desses bicho!
– Sebastião meu amor, vamos só comprar as pastilhas que lhe falei vamos! Você vai mandar esses rapazes descerem aí e se der algum problema é preciso até chamar os bombeiros, é perigoso meu querido! Por favor me escute!
– Quero saber de pastilha não Egelina, já te falei que isso não é totalmente bom! Não quero cabra frouxo aqui comigo não! Se falou que fazia então bora cuidando! Tomem o café que eu vou ajudando vocês também!
Os dois primos se olharam outra vez com olhar preocupado. Queriam até descer aquele poço escuro logo e limpar tudo de uma vez. Depois teriam a diária prometida por Sebastião, tomariam uma dose juntos e almoçariam em algum lugar barato por aí.
– Tô é com medo Bastião… Tô sendo sincero contigo sabe… Como o Carlitos é mais magro que eu, acho que é melhor ele descer e eu mando vassoura e rodo aqui pra ele!
– Mas eu tenho problema de pressão Abreu, tu não sabe disso não cara? Se eu passar mal lá em baixo já era, dá mais tempo de nada não! Vai lá tu que é melhor!
– O melhor é tu cara, para de ser tão teimoso pelo menos hoje!
– Eu acho melhor Sebastião você me ouvir, isso é o que digo, esses meninos não vão saber isso! Dizia a esposa de camisola e mão na cintura.

Nesse momento Sebastião saiu sem dizer nada e foi rapidamente para dentro de casa, mais irritado do que de costume.
– Eita, Bastião já tá com raiva viu! Bora Abreu, desce logo aí cara, vamo logo ganhar essa diária…
– Tô tentando criar coragem, mas tá complicado… Ele não tinha me dito que era um poço profundo e eu nunca tinha feito isso antes… Na hora que ver a coisa de perto a história é outra, nem dinheiro resolve!
De repente Sebastião veio rápido na direção do poço com um chapéu de palha na cabeça. Tacou a mão nos dois copos que estavam sobre o poço que se quebraram ao chão.
– Sebastião calma pelo amor de Deus!
– Sai da frente Egeline! Olha, cambada de macho frouxo, eu vou descer nessa merda e limpar tudo como vocês não tem coragem! Mas também não vão ganhar um centavo meu e nem chamo mais vocês pra serviço nenhum! Mas fique aí os dois, vão ver como se faz um serviço rápido! Tenho saco pra tá com discussão inútil não viu, ora bolas!
– Bastião meu amigo, tenha calma, a gente tá aqui decidindo quem desce primeiro, espera aí! Também não é assim tão fácil!
– É Bastião, amarra essa corda aqui na cintura pelo menos, é muito perigoso! Esse poço é profundo!
– Profundo mas dá pra fazer seus frouxo! Diabo de uma converseira infernal que dá em nada, enchi o saco já!
Nisso, Sebastião foi amarrando a corda na cintura e apenas passou um leve nó, na madeira que ficava acima do poço e servia para descer e subir baldes d’água. Passou as pernas por cima da boca do poço e desceu um pouco. Subitamente, olhou para os três que estavam ali em cima.
– Olha só… Antes de eu descer isso aqui e limpar tudo lá em baixo, quero dizer uma coisa.
– Bastião meu amigo, esse nó tá frouxo, suba aí deixe eu ajeitar aqui direito!
– Tira a mão daí Abreu, o nó já tá bom! Presta atenção! Tem um grande poeta que eu sempre admirei, de nome Fernando Pessoa. Cabra bom e poeta. Ele tem um poema que diz: “O que há em mim é sobretudo cansaço, cansaço assim mesmo, ele mesmo cansaço! As paixões mundanas e violentas que passam e levam para coisa nenhuma!” – sua voz ecoava forte dentro do poço- Aí pegando isso que ele disse eu faço um verso diferente e fica desse jeito, seus cabra: O que há em mim é sobretudo revolta, revolta assim mesmo, ela mesma revolta! As conversas bestas que surgem e levam pra canto nenhum! Os desejos e tentativas inúteis que são bobos e vazios! Era isso que eu queria falar e deixar aí como idéia pra vocês dois, que meu saco pra besteira é bem curto! Ou resolve ou nem se metam! Agora reparem, eu Sebastião Esmeralda, vou terminar rápido isso aqui!
Ao dizer isso, o nó mal dado no suporte de madeira se desfez com enorme rapidez e violência. Feriu Abreu no rosto, que soltou um grito de dor. Sebastião caiu reto por uns dez metros mas ao bater as pernas na parede do poço rodopiou violentamente, batendo a cabeça em um dos anéis das paredes ali em baixo. Seu corpo caiu já morto com grande estrondo ali naquelas águas escuras de uns quinzes metros de profundidade. Sua esposa deu um grito desesperado com as mãos na cabeça. Os dois primos estavam igualmente consternados e inquietos. O rosto de Abreu sangrava um pouco com o corte da corda.
– Ai meu Deus, me ajuda meu pai! O que será de mim agora nesse mundo! Sebastião meu amor, me responda, por favor! Vão vocês dois, corram, chamem o bombeiro, a ambulância, qualquer coisa, quero meu marido de volta! Socorro!
– A gente já vai dona Egeline! Vamo na rua pedir socorro! Calma, calma!
Carlitos correu para a rua atrás de socorro. Abreu lavava o rosto na pia do quintal tentando se limpar do sangue em seu rosto e completamente sem saber o que fazer. Sua esposa já estava com um celular na mão e chorando em grande agonia, chamava imediatamente o corpo de bombeiros. O dia ainda brilhava em seu começo matutino. Os pássaros cantavam alegremente por ali. O sol quente e ainda tímido banhava o quintal por entre as folhas das árvores frutíferas e frondosas. A fonte de água oriental despejava aquele límpido fio de água pela pequena flecha do anjinho de mármore azulado, ao lado da pia de cerâmica.

4 comentários em “Poço profundo

  1. era um velhinho meio teimoso, parece que queria deixar um legado antes de acontecer o ocorrido, as pessoas mais velhas que vivem em sertão sempre dão a entender que são rabugentas e mal humoradas, mas são boa gente. Gostei bastante da historia e é engraçado jeito que o povo nordestino fala rsrs!

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