Campos eólicos

Acordei de repente com uma sombra duradoura sob meus olhos semiabertos que, ao levantar, constatei ser de um enorme urubu que passou frente ao sol, voando ora em círculos acima de minha casa, ora para mais alto. Era como se ele desejasse me acordar para ver algo. A paciência e a cooperação dos urubus sempre me fascinou enormemente… Corri de repente para a janela ali no segundo andar em que eu dormia e que dava para a extensão infindável das plantações de trigo cor de ouro que ondulavam pela força constante do vento murmurante. Milhares de torres eólicas bem grandes fincadas em vários pontos no meio do trigaral que subiam rumo ao céu, giravam sem parar dia e noite. Umas rápidas outras mais lentas… O som do vento parecia vir de várias direções causando algo como uma melodia harmoniosa, bela e distante… Semelhante como quando o vento corta a superfície de grandes tubos de ferro gerando notas graves e celestiais. De repente, não mais que de repente, o céu claro tornou-se cor de chumbo. De quando em quando servia de plano de fundo para os muitos raios que rasgavam o céu num piscar de olhos. De certo que uma tempestade se aproximava. O vento era forte esvoaçando meus cabelos e eu acabara de acordar. No sonho profundo que eu estava tendo até então, acontecia exatamente de uma dessas torres perderem o controle da velocidade e em dado momento, explodirem em mil pedaços. Talvez fosse até pelo dano sofrido ao ser atingida por um raio. O céu absorvia a mesma tonalidade de agora. Algo fez com que as hélices rodassem bem mais rápido, em descontrole total até quebrar-se em forte violência, jogando detritos para muitos lados. Algo desconhecido e caótico quebrou a calmaria constante e contínua. Isso acontecia há alguns segundos após três grandes cavalos bonitos e fortes passarem veloz rumo ao norte, correndo pela estradinha de terra na direção oposta desta minha janela que dá para o horizonte sul dos trigos e as milhares de torres eólica. Eles surgiram e sumiram tão de repente que me assustei. Na ação de correrem dava-me a sensação de que nem pisavam no chão, corriam como que já voando baixo levados pela força dos ventos. Era tão real enquanto sonhava que também senti que era um dos cavalos ou os três ao mesmo tempo. Até que acordei sobressaltado como já mencionei. Por aqui praticamente tudo sofre influência dos ventos, seja para bom ou para ruim.

Na parede ao lado da janela que agora olho para fora, há um quadro. O mesmo quadro que está também ao lado de minha cama. Eu sei que são duas cópias perfeitamente iguais que me trazem paz e nostalgia em olhar. Na figura se faz assim: há uma árvore bem ao lado de um riacho raso e sereno que corre espumoso por cima de pedras que são de um azul quase transparente. Ao pé da árvore pequena e frondosa está prostrado ali o que um dia já foi uma pessoa. Sentado ao chão o esqueleto branco e tristonho tem o crânio enclinado para um lado como que olhando para baixo. Acho que em sua costela tem uma flecha atravessada, mas de forma alguma consigo ter a certeza pois esse detalhe me parece borrado e bastante desgastado. Apenas imaginei que deva ser uma flecha por ser algo que sempre achei bonito, digno das histórias de grandes heróis esquecidos… Metade daquela pilha de ossos branco está sentado sobre a grama e a parte dos ossos das pernas e pés são lavadas pelas águas límpidas do riacho e já criaram tufos de musgo em certos pontos. Está ali solitário em meio a uma erma floresta cujo silêncio só é quebrado pelo canto dos pássaros e das águas. Certamente já faz muitos anos…

Também em meu devaneio esses dois quadros se faziam bem presentes, com a diferença que não era mais uma gravura estática. Lembro de observar os dois e constatar que, as águas do calmo e lindo riacho se moviam continuamente dentro da moldura e o esqueleto, como que já cansado de manter sempre a mesma posição, moveu lentamente uma perna sobre a outra e seu crânio virou para o lado oposto ao qual eu sempre via quando acordado. Os ossos das mãos se moveram e pousaram para sentir a água que ali corria. Até que parou e prostrado daquela nova forma se manteve. Algumas folhas caíam lentamente da árvore sobre o esqueleto e o riacho. Parecia sair de dentro do quadro uma lenta e penosa melodia que soava aos meus ouvidos. Mas não sei bem se era o murmúrio das hélices cortando os ventos que me dava essa sensação de sons ou se de fato era uma melodia que vinha do interior daquela gravura na parede.

Agora estou acordado, bem acordado. O céu continua como na véspera de uma tempestade e parece aumentar mais. Não vejo urubu nenhum aqui. Ali em baixo na estradinha de terra que muito já andei, três lindos cavalos robustos que estão vindo em disparada rumo ao norte surgem e desaparecem feito os raios do céu. Num instante logo a minha frente, ouvi o som agudo que prenunciava uma explosão até ver uma das torres eólica, a que ficava mais próxima da janela, quebrando com violência e seus mil detritos arremessados para muitos lados e caindo em cima do trigaral lá em baixo. Na parede ao lado da janela e minha cama, a gravura do quadro ainda se mantém como em meu sonho. O esqueleto antigo está diferente do que eu era acostumado a ver antes… A água límpida do riacho continua correndo sobre as pedrinhas de tal forma agora que parece escorrer e molhar a parede, junto das folhas verdes que caem… Tenho a impressão de vir uma penosa melodia dali de dentro mas certeza não consigo ter… O vento continua batendo em mim sem parar, uma torre eólica a menos não faz diferença quando se tem um mar delas. A chuva começa a cair forte, o som celestial eu também escuto… Na verdade não sei se de fato acordei ou se pelo fruto dos meus delírios ainda durmo…

3 comentários em “Campos eólicos

  1. Achei essa história bem interessante, parece que durante toda a história a pessoa esteve no sonho e vivência ele, causando pperturbações e delírios, de fato é intrigante esse conto, gostei bastante!

    Curtido por 1 pessoa

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