Casa de praia

A vida é uma piada de mau gosto… Lourenço Mutarelli

Havíamos marcado de ir para uma casa de praia. Tenho a impressão de termos ido de carro de algum dos que estavam conosco, ou um carro que foi fretado quando chegamos a última rodoviária. Mas tal impressão me vem a mente somente como uma vaga lembrança que não consigo chegar a uma clara resolução se foi ou não verídica. Não sei mesmo, embora tente tanto esclarecer a mim mesmo… Também não sei se algum dos que estavam comigo sabem e também das vezes que pensei em perguntar, sempre ia fazer qualquer outra coisa e esquecia… Isso se repetiu por várias vezes enquanto estávamos lá, disso lembro. Só sei que chegamos lá, ah isso foi fato! Também não perguntei a Jonnas e nem a Ellen como se deu o curso da viagem, muito menos os dois me falaram em algum momento. Apenas recordo de poucas coisas como, a inquietante sensação de que nunca iríamos chegar ao destino pois, quanto mais a gente avançava sempre reto na estrada, só vinha mais e mais estrada. Parecia infindável aquela viagem. Era só rodovia e vegetação com algumas placas que indicavam algo necessário aos motoristas. “Só estrada e mais estrada, que negócio mais chato viu!” Lembro que em algum momento Jonnas falou isso. Algumas vezes na estrada, tive a sensação de que o carro corria para trás, como se o tempo voltasse rapidamente e depois ficasse normal… Também tenho na memória que, logo ao chegarmos em frente ao portão de madeira que dava acesso para a casa que ficava a uns quinhentos metros seguindo pelo meio da vegetação litorânea, o vento era muito forte e o sol quente tornava o clima praiano meio sufocante mas ao mesmo tempo muito bom de se sentir. A brisa marítima aliviava o calor. Descemos do carro e um dos que estavam conosco, um cara meio magro e de cabelo loiro, sentou ao meio da rodovia com uma lata de cerveja na mão e disse ” Como é bom deitar na pista e saber que nenhum carro vai me matar!” e nisso começava todo mundo a rir. Não sei se pelo efeito do álcool também… Ficou por isso mesmo. O importante era termos chegado lá. Jonnas, um amigo que há uns quatro anos atrás havíamos trabalhado juntos e desde então viramos fiéis amigos e Elen minha prima, a quem eu sempre gostara muito e que já havia vivenciado alguns breves e intensos lances amorosos.

Não era, contudo, apenas nós três presentes por aquele litoral, mas também aproximadamente umas quinze ou vinte pessoas. Tá, admito… também não me recordo precisamente de quantas pessoas haviam mesmo por lá. Devia ser em torno disso, já que havia sempre gente na praia, ou bebendo e dançando alegremente, assando carne e coisas mais. Mas não sei ao certo… Embora tenha já tentado por muitas e muitas vezes. Nunca consegui. Só sei que eram muitas, isso posso afirmar. Não sei e nem ouvi dizer da boca de nenhum dos presentes, como algum deles fizeram para chegar lá de igual modo já que, não cabiam todos no mesmo carro em que viemos. Certamente foram vários carros grandes para fazer o transporte. Também não me importava mais quanto a isso e, embora a dúvida me viesse de vez em quando, por algum motivo eu logo deixava para lá. Tal local praiano, era lindo por de mais. Um lugar ao nível do que se é considerado paradisíaco e perfeito para quem procura beleza natural e sossego da vida urbana agitada. Podia-se armar redes nos alpendres que circundavam toda a casa, deitar em umas cadeiras feitas de fibra de côco, ou sentar em uns banquinhos de pedra que também havia em alguns locais. Lembro-me nitidamente que, por algumas vezes que olhei para o mar em seu distante horizonte bem plano, vi ondulações incomuns bem longe, como se houvesse uma grave irregulação na estrutura da água. Como se algo por debaixo do colossal abismo do azul marítimo, fosse iminentemente surgir e sacudir toda a paz do oceano para cima, e revelar-se por completo para todos verem. Guardei para mim essas visões, e nem para Jonnas falei. Às vezes me vem na mente tal memória, e me assusto novamente … Não sei se, por alguma vez que bebi e beirei a embriaguez, se tinha algo de diferente na bebida, esse foi o efeito visual que tive.

Se foi isso mesmo, foi inédito para mim e me assustei, devo confessar. E ainda, duas coisas me deixavam intrigado: Todo o clima, o ambiente e o ar de onde estávamos, daquela casa de praia, pareciam sempre possuir um azul característico no qual nunca mudava. Era como se essa cor, pairasse na atmosfera como um pó lançado que diluia e cintililava, gerando assim um espelho invisível de muitas partículas, do azul das águas oceânicas. E a cada onda que acontecia alí bem próximo a tonalidade de todo o ambiente tornava-se mais forte. Em todo canto era como se muitos espectros azuis rondassem por todos os lados; Todos os cômodos da casa, inclusive as áreas que rodeavam o lado exterior, tinham as paredes que mais pareciam labirintos com cada esquina de corredor tendo acabamentos arredondados e brancos feito o gesso. Era uma alvenaria bem feita mesmo. Chegamos lá então e ficamos todos. Pretendíamos passar apenas um fim de semana, e íamos convivendo e conhecendo aquelas pessoas que também estavam alí, mas que nenhum de nós sabíamos nada sobre elas. Na verdade, todos pareciam ser desconhecidos um para o outro, ou conhecer no máximo três pessoas para cada grupo que andava ou estavam sempre juntos conversando.

Logo no primeiro dia quando chegamos, aconteceu algo que provavelmente, nenhum de nós esperávamos. Era algo inimaginável numa concessão geral, a julgar pelo local que não havia nenhum histórico de terremotos ou maremotos. Ou a qualquer contratempo que dissesse respeito à fúria da natureza. Começou de repente um chicotear forte nas paredes dos quartos, que não eram tão grandes. Todos já estavam dentro da casa. As pancadas começaram e foram aumentando gradativamente. Imensamente fortes estrondavam e tremiam toda a estrutura da casa. Todos olhavam um para o outro e nada diziam. O olhares eram estampados de grande pânico. Resolvemos saír jonnas e eu para fora da casa, e vimos que tudo alí estava encharcado e algumas paredes já rachadas. O mar invadia alí. Nesse instante que constatamos tudo molhado e as paredes abaladas, outra onda com uns cinco metros de altura veio e lançou-se fortemente sobre a casa, arrastando tudo pela frente caso alí houvesse. Exceto por algumas cadeiras e duas mesas de madeira fina.

As rachaduras nas paredes aumentaram mais e Jonnas e eu ficamos com água acima da cintura sendo carregados até a porta da frente. Foi quando gritamos para os que estavam apavorados do lado de dentro ” Corram, saiam daí agora, a zona não é segura, temos que ir embora daqui!” Foi quando um senhor encurvado e manco veio por detrás de onde estávamos, em pé sobre uma parte bem mais elevada do terreno alí, e com um largo sorriso no rosto disse “Meu filho, fique frio! Não precisam ir embora! Tsunami aqui tem todo dia, não lhe informaram quanto a isso? Ora, é o mais absoluto e indestrutível atrativo local! Ninguém mais estranha, isso é só falta de costume de vocês! Tenham só cuidado para não serem arrastados de volta para o mar e tá tudo bem! Pelo menos até hoje, ninguém nunca foi! As paredes também nunca caem por mais que se encham de tantas rachaduras ao longo dos tempos! Podem confiar! ” “Como assim tudo bem? Ele é louco ou o quê?” Imediatamente muito confusos, falamos um para o outro, com água nos envolvendo até a cintura, que foi abaixando aos poucos até ficar somente molhado o chão e as paredes, a qual foi secando aos poucos. Acontece que, todo mundo que estava presente por lá aceitou ficar alí, mesmo com as ondas invadindo forte pelo menos duas vezes ao dia os arredores de toda a casa, de que tinha um bom tamanho em estrutura. Pensamos ” Bom… Não é todo dia que se tem uma singularidade em atrativo dessas, não é?! Na segunda feira vamos embora e está tudo bem! ” O fim de semana não foi ruim, muito pelo contrário, nos divertimos bastante, comemos, bebemos, dançamos… Ainda que uma parte de nós quiséssemos ir embora, ainda que tenhamos falado nisso, por algum motivo não fomos e buscamos aproveitar cada instante. Sinto saudades ainda quando lembro, e me bate certa sensação de profundos pensamentos aos quais me perco em total subjetividade reflexiva, a ponto de esquecer tudo ao meu redor. Fiquei sabendo por meio de Ellen que passou por lá dias depois para buscar um casaco seu, que a tal casa de praia e todas as estruturas vizinhas não existem mais. Nenhuma mais e nem ninguém, ela encontrou por lá. Segundo ela, seu casaco se encontrava em cima de um balanço entre dois solitários butiazeiros que balançavam suas palhas verdes junto com o vento forte. Disse que dentro do casaco havia uma carta selada com um adesivo estampado decorado, de um minúsculo desenho onde se via uma velha casa e atrás dela, uma silhueta humanóide à espreita que segurava um candelabro gótico de três braços com velas acesas. As letras da carta, estavam escritas com forte tinta vermelha que ela imediatamente, deduzil ser sangue além de pedaços de unhas humanas. Provavelmente de quem escreveu.

Ellen disse que começou lendo a carta, mas lá pela quinta linha, o conteúdo que alí estava escrito a fez jogar aquele papel para longe e sair correndo ofegante dalí. Já tentei várias vezes saber do que se tratava a tal carta, o que estava escrito nela, até mesmo seus pais e outros amigos que ficaram sabendo disso também demonstraram interesse em perguntar, mas Ellen jamais disse. Na verdade ela busca sempre mudar de assunto quando, pelo menos alguém cogita a possibilidade de falar sobre tal assunto.

Também nunca mais desde aquele fim de semana, não fui mais àquele local. Tudo que Ellen já nos disse, ou repete alguma raríssima vez quando alguém a pergunta, é a mesma coisa: ” Na carta dizia que o velho assistiu tudo desmoronando pelas muitas águas de uma única vez em uma certa noite e até ele foi embora de lá. Não ficou claro como ele foi embora de lá … Mas dizia que tinha sido de uma forma brusca e esquisita. Ele morava lá já fazia muitos anos e sozinho. Talvez por isso, lá falava o quanto ele chorou lamentavelmente de forma lancinante, gritando para que aquilo não se consumasse com ele. Foram embora todos, entendeu?! Não me perguntem mais nada sobre isso, imploro!” Já faz muito tempo desde aquele louco fim de semana, que claro, teve sim seu lado bom, por mais incrível que pareça … Digo que teve pois quando recordo com Jonnas, damos muitas risadas juntos e sentimos uma nostalgia que acalma. Exceto Ellen é claro, ela prefere tão somente esquecer. Eu particularmente, lembro de uns noticiários na TV que falava de um local que havia sido engolido por muitas ondas grandes. Lembro de ver um local em destroços, enlameado e algumas pessoas chorando e dando certos testemunhos estranhos para os repórteres que estavam ali. Tudo isso lembro vagamente, espero não ser só uma ilusão que criei dado os fatos que ocorreram naquele final de semana fatídico. Mas faz tempo que já não falamos mais sobre, evitamos na verdade. Faz tempo também desde aquele fim de semana que não mais nos juntamos para curtir juntos… Coisa de quatro anos ou mais, se não me engano. Ou de repente menos, quem sabe… Aquele povo todo que se reuniu, sorriu e comeu juntos em meio a muita diversão naquele fim de semana inesquecível, por onde andam? Quem eram na verdade? Me pergunto como acharam o caminho de ir com a gente, já que nenhum de nós os conheciam… Me faço essas e outras perguntas ainda até hoje, especialmente quando permito que minha mente vagueei por horas… Sei lá, amigos se encontram assim mesmo por aí, é até comum… Mas é ainda tudo tão estranho… Respostas que nunca vêm ou virão.

4 comentários em “Casa de praia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s