Graças as chaves!

Estava eu em uma tarde, sentado sozinho dentro de um carro com uma das pernas sobre o painel e tocando o vidro frontal com o pé. Aquela situação rotineira. O carro possuía um compartimento bem espaçoso e comprido, estilo furgão, que levava o material que vendíamos pela cidade. Fazia relativamente pouco tempo, que tínhamos fechado contrato com algumas empresas do exterior e nisso o tecido já era também exportado em escala mediana, para umas 3 cidades australianas: Brisbane, Gold Coast e Byron Bay. Já tínhamos vendido metade da carga pela cidade aquela hora da tarde, e em pouco tempo deveríamos voltar ao depósito que ficava aproximadamente a um quilômetro e meio de onde estávamos para carregar novamente, já para o outro dia. Antes disso a gente só tinha mais uma última entrega. Confesso que me sentia um tanto enraivecido e o restante era com certeza, aqueles sentimentos reflexivos levados por melancolia que qualquer um de vocês sabem bem como é. Ou pelo menos, ainda saberão. Caso contrário, lamento muito por nunca terem ouvido esse chamado e se absorvido desse tal estado de espírito, que certamente deva vir do mais profundo núcleo consciente. Uma música tocava baixinha alí dentro do automóvel. Alguma canção que eu não devesse gostar tanto. Como sempre, sentia aquela impaciência diária que era causada pelo acomodamento e atraso absurdo do meu parceiro de trabalho. Trabalhávamos em uma cidade litorânea, com entregas de um tecido especial que fazia combinação com a fibra de vidro também usada, para a fabricação de pranchas de surf. Tecido esse que era mais prático e versátil em comparação com o que a gente vendia antes, o poliuretano. Suavizava melhor as marcas de sobreposição próprias do processo de fabricação, o corte era mais fácil e possuía melhores características físicas de memória e flexibilidade. Mas enfim, pouparei vocês desse papo longo de caráter puramente profissional.

Eu olhava para trás impaciente. O idiota do Jardan tinha me deixado alí no carro, e entrado em uma loja de perfumes caros próxima dalí, e já demorava quase meia hora para voltar. Não era a primeira vez que fazia isso, não mesmo. Nem a única demora, nem o único vacilo feio. Eu até que ligaria o carro e deixaria ele lá sem saber para onde eu teria ido, mas é claro, ele nunca deixava a chave na ignição.
–O que esse cara tem na cabeça meu?! Perfumes o caramba, deve tá flertando aquela moreninha lá do caixa. Que filho da mãe! Acharia bem bom se a namorada dele descobrisse, seria bem merecido. Trabalhar com esse cara só quem tem paciência de sobra e uma dose extra de sangue frio.
Até que nesse momento, um casal na moto passou pela lateral do carro onde eu estava e em mais ou menos 10 segundos, voltaram. Pararam ao lado do carro, cujo vidro se encontrava abaixado.
–Ei, essa chave aqui é sua? Vi ela brilhando alí no chão atrás do carro.

Não bastasse o cara adorar perder tempo e fazer bastante demora em hora de trabalho, ainda perdia as coisas sem nem se dá conta. Depois sou eu que não presto atenção no que faço né?! Era um molho de chaves, e todas é claro, importantes. Inclusive as do depósito onde estava todo nosso estoque do então tecido, estava lá. Nada era meu, e muito menos de Jardan. E caso acontecesse algum erro, o abusado e antipático do nosso chefe Marco a quem era fundador da distribuidora que já existia a uns 15 anos no mercado, nos mataria. Certo que pode ser uma boa hipérbole, mas seria quase isso mesmo.
–ah sim sim, moça! É minha sim! Muito obrigado!

O casal acelerou e foi embora. Aí fiquei alí olhando para as chaves, pensando e rindo do erro de Jardan. Devo entregar as chaves quando ele vier, ou deixá-las comigo e dar-lhe uma boa lição? Muitos que estivessem em minha situação entregariam logo as chaves e daria só aquela bronca básica, afim de evitar maiores desavenças… mas eu queria que ele tomasse um susto grande, para ver se deixava as coisas triviais de lado e focasse no trabalho. Pelo menos isso sabe? Até que olhei novamente para trás, e nesse momento lá vinha o cara… finalmente! Bem rápido botei as chaves no bolso.
-Os perfumes dessa loja são maravilhosos, mas bem caros … Olha, sente essa amostra, como é amadeirado com notas de canela e folhas secas!
-hmmm… É maravilhoso mesmo em! Mas não sabia que tu entendia assim tão bem de perfumes Jardan. Confesso-te que estou estupefato com isso!
Sim, um pouco de ironia misturado à sarcasmo se fez mesmo um pouco presente nessa frase.
-Na real eu não entendo mesmo não… mas decorei o que a lari… Quer dizer, a moça lá da loja me disse haha. Massa né não?
-sei, a moça lá da loja né… Boa sorte na escolha dos perfumes Jardan. Aliás, comprou algum? É um bom presente pra namorada também…
-Não, comprei nenhum não. Vou falar com a Lorena, se ela quiser a gente vem aqui depois… O que eu tenho ainda dá pro gasto, foi o que ganhei de presente de aniversário. E vamos deixar de papo furado que temos que ir direto pro aeroporto deixar essa última carga, a transportadora acabou de me contatar de novo.
Sério? Nem cheguei a imaginar cara! Ele foi dizendo isso enquanto girava a chave na ignição e a gente saía do estacionamento de um posto de gasolina onde eu havia passado sei lá… os últimos 40 minutos de muito tédio.
-imagino mesmo que tenham te contatado viu cara.

A gente seguiu pela avenida principal, Landscape. Bem arborizada e movimentada com muitos prédios a vista, completavam o ponto mais nobre da cidade naquela avenida que seguia toda a faixa litorânea. Sempre me sentia bem quando a gente passava por alí. O que acontecia umas 4 vezes por semana. Deixava sempre os vidros abertos, e sentia aquele vento meio morno do litoral em meu rosto levantando meus cabelos. De vez em quando rolava uma música boa alí dentro. Foi o caso desse dia que eu lembro bem. Tocava into yesterday, da banda sugar ray.
-Essa é boa em George, musicão esse! Combina totalmente com essa vista pro mar.
As vezes até que era bom trabalhar com o maluco daquele Jardan… pena que a gente mais discutia do que éramos amigos. Era sempre uma parceria complicada. Momentos como aqueles eram raros, e deixaram para sempre saudades. Naquele momento eu até pensei em devolver as chaves, sei lá… mas continuei com elas no bolso. Imaginei em quando a gente chegasse no aeroporto pra fazer a descarga do material, eu daria uma boa bronca nele na frente dos caras da transportadora. Seria uma bela lição. Pois ele também iria passar vergonha. Aí claro, eu entregaria as chaves na hora. Certo que aquilo de derrubar umas simples chaves no chão poderia acontecer com qualquer um. Sim. Mas como já disse, o cara errava como alguém que sente prazer nisso. Longe de mim ser perfeito, isso é bem óbvio. Mas, posso pelo menos afirmar que sou demasiadamente consciente. Ou pelo menos sempre tento ser.
-De mais, o refrão é a melhor parte, tu sabe?
-Sei sim! Depois dessa parte, oh my mind, oh my mind, ohhh my mind, vamos!
E o refrão a gente cantou juntos.

-I know,
Like the ocean needs the moon to take the tides away,
All we need’s a little time to chase the blues away,
Sun is out and it feels like it’s always gonna stay,
Let this last forever and turn tomorrow , into yesterday…

-É, até que teu inglês é bom viu George!
-Não chega a ser pior que o teu Jardan, eu acho. E esse som que tu instalou é deveras bom para o preço que foi.
-Verdade, meu velho amigo Maciel manja mesmo de som automotivo e fez um preço ótimo. A loja lá é dele e do irmão mais novo, o Paulo Ricardo. Faturam bem até.
-Imagino, deve ser um bom negócio.

Logo após isso, foi quando entramos em uma rua que tomava a direita, em cruzamento com a Landscape na rua Cônego de Mauá.
Quando olhei a uns 3 quarteirões dalí, vi um avião de médio porte que voava já bem baixo, com trem de pouso abaixado. Iria pousar em segundos. Havíamos chegado no aeroporto internacional Senna Martins. Do lado de fora próximo a entrada principal do aeroporto, já estava lá o carro com os dois caras que receberiam a entrega. Entrega essa que iria para o exterior em Byron Bay. Nós não tínhamos autorização para entrar até o saguão principal onde seria o abastecimento do avião, então eles ficaram com essa tarefa. Já que éramos apenas fornecedores terciários e eles uma transportadora de renome e devidamente autorizados para isso. A gente poderia ter parado nosso carro do lado da van, correto? Sim. E eu juro que adoraríamos. Se nessa hora o aeroporto não tivesse tão lotado, a ponto de mau caber a van alí. Nosso carro por ser de médio porte e assim bem maior, não entraria alí jamais. Então paramos a uns 15 metros deles onde havia uma última vaga.

O carro era uma van azul claro com detalhes brancos e tinha na lateral o logo da empresa “A.R international express”. Lembro de ter achado esse nome algo muito descolado. E como seria maravilhoso ser funcionário de uma multinacional daquelas. Descemos do nosso carro, e um deles veio ao nosso encontro.
-Opa, vocês que são os caras das pranchas né?! Haha
-É quase isso meu caro! haha. Prazer Jardan.
-Prazer, sou George!
-Prazer, Miguel!
-Seguinte miguel. Afim de agilizar nossos serviços, vamos levando as caixas de 8 em 8 no carrinho de transporte. Infelizmente a gente só conta com um carrinho no momento. E caso fosse um maior levaria 16 de uma vez. Mas do jeito que a lotação aqui tá grande, teria que fazer mágica pra conseguir passar por aqui com ele. Mas é rápido, vamos!
-ok, tudo bem. O avião vai partir dentro de uma hora, dá tempo de sobra!
A entrega alí eram no total de 80 caixas, cada uma pesando mais ou menos uns 12kg. Seria trabalho rápido. Eu só queria mesmo terminar alí e ir para minha casa. Mas antes tinha que dá a lição no Jardan.
Aí começamos a descarga e tal, tudo tranquilo. Jardan anotava o balanço do dia na prancheta, enquanto conversava com Miguel ao seu lado. Eu carregava o carrinho e levava até a van, e o outro rapaz ia encaixando tudo alí dentro do compartimento.

E foi rápido mesmo. Em meia hora mais ou menos, só restavam mais 3 idas ao carro para terminar as últimas caixas. Foi já pela penúltima vez que eu tirei aquele molho de chaves do meu bolso, e fiquei segurando. Não podia perder aquela chance. Mas como algo que desejava ver um erro crítico que teria sérias consequências por minha causa, o Jardan começou um certo assunto sobre nada mais nada menos que a piscina de ondas artificiais que o surfista Kelly Slater mandou fazer em sua casa. Pois é, pra variar quem tinha de começar esse tal assunto, era Jardan. Desse ponto eu já não lembro mais tantas coisas, confesso. Mas recordo que: antes de terminar a penúltima ida ao carro, eu entrei também nesse assunto bastante interessado. E as chaves que estavam em minhas mãos, eu pus sobre as caixas. Mas não sobre as caixas do topo, sobre as de baixo que suportaram as de cima pois se assim não tivesse sido, elas teriam caído. Lembro também que estava bastante cansado, e aquilo ajudou mais para que eu esquecesse ligeiramente das chaves. Do penúltimo pro último lote, lembro que o rapaz que organizava dentro da van pegou as caixas enfileiradas do jeito que vieram, e apenas puxou até fechar todo o estoque lá dentro. Fazendo daquele modo, nem ele viu as tais chaves que devem está perdidas até hoje em algum lugar da Oceania. Então fechou a porta traseira da van, e nos despedimos dele e de seu parceiro, o barbudo Miguel.

O que muito me intrigou e intriga até hoje, é que se aquelas caixas passaram por uma inspeção antes de entrarem no avião, porque nunca foram notificados quanto a isso? Se foram nunca fiquei sabendo. Tinha um chaveiro com o número da empresa nelas, disso lembro bem. Pois só sei que depois de terem ido, comecei a sentir lombalgias. Entramos no carro, e seguimos para o depósito. Isso já devia ser lá pelas 7 e pouco da noite. Mas no meio do caminho, foi quando Jardan pôs as mãos nos bolsos e…
-Ah meu Deus, perdi as chaves George!
-Ah que droga, Não! As chaves, as chaves! Como eu sou burro!
-Na verdade eu que sou burro cara, fui eu quem perdi, elas tavam comigo!
-Foi tu mesmo seu idiota, mas eu peguei elas pouco depois quando tu entrou naquela maldita loja de perfumes lembra? Eu tava com elas e ia te entregar na hora certa, mas acabou que perdi também!
-Sensacional cara! Agora somos dois perdidos sem chaves. O Marco vai adorar saber disso! Como vamos entrar no depósito agora? Não tem essa de hora certa seu trouxa, achou era para ter me entregado logo! Agora é inútil voltar lá, o avião partiu faz tempo!
Depois disso, recordo que ele parou o carro no acostamento de uma avenida, e descemos.

A gente discutia muito e a lombalgia incomum em mim, só aumentava. Ele foi pro meu lado e me empurrou com toda força que desandei no meio fio e caí com tudo na calçada. Foi quando levantei com muita dor e desferi um cruzado em sua boca, que cortou os lábios. Lembro que sangrou um tanto alí. Algumas pessoas ficaram olhando de longe praquela chata situação. Eu não queria nada daquilo, mas fui forçado. Ele disse que com ele eu não trabalhava mais, e que o Marco iria ficar sabendo. Mas aí eu lembro de ter dito
-Tem certeza? Assume teu erro que fica melhor pra ti. Esqueceu que durante esses dois anos que a gente trabalhou juntos, nunca contei todos os erros feios que tu já cometeu aqui? Coisas vergonhosas para um profissional? Eu que não via a hora de sair disso e te deixar só aí. Finalmente esse dia chegou!
Aí ele não falou mais nada, e nem eu. Ele ficou lá e eu segui.
Fui pelo outro lado da avenida com bastante dor. Lembro que lá próximo havia um ponto de ônibus no qual eu iria pegar. Hoje em dia no mesmo local é um lounge bar muito bonito e bastante frequentado. Entrei no ônibus e falei pro motorista…
-A passagem. Obrigado cara, hoje meu dia foi horrível.
-Acredito irmão, o meu também. Senta aí nessa cadeira que tá vazia igual o resto do ônibus, vamos até o terminal conversando.
-Vamos sim, era tudo que eu queria mesmo…
Foi desse modo que saí daquela empresa de entregas, há uns 17 anos atrás. E há uns 17 anos atrás, nunca mais vi Jardan.

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