Túneis doentios

Acaricia meus sonhos com o murmúrio dos teus suspiros… Lourenço Mutarelli

– Desde o primeiro dia em que mudei pra essa nova casa aqui que nem era a que eu queria, escuto essas drogas de estalo nessa porcaria de forro de PVC! Forro de PVC é uma merda… Porcaria de casa pra ter defeito! Se tiver algo de errado por menor que seja no telhado a água vaza legal em baixo… Parece passos aqui em cima… Mas qual coisa um pouco pesada se aguentaria aí em cima?
Assim pensava Celso todos os dias desde que mudara-se para uma pequena casa, duas ruas a frente da que estava antes. Na casa antiga a qual já era residente há uns três anos, ele morava sozinho e era vizinho de duas velhinhas. Josefa e Rosália. Josefa morava sozinha com seu neto meio retardado de origem asiática. Sabe-se lá por qual motivo ele não gostava muito de falar nem sair. Era bastante monossílabo procurando falar sempre apenas o necessário. Apenas dois irmãos que pareciam ser gêmeos eram seus amigos, mais ninguém. Talvez não se sentisse melhor com qualquer outro que fosse… Josefa passava o dia lá na cozinha ao lado do pequeno quintal, assistindo qualquer programação na TV que desse muito sono até em quem estava bem esperto. Bastava parar e sentar ali para assistir que a leseira batia certa, era infalível. Será que quem se punha a fazer tais programas também não sentia aquela sensação? De certo que não… Já Rosália que morava ao lado, era um pouco mais nova que Josefa e não era tão lerda feito ela. As vezes, logo cedo pela manhã, botava umas músicas românticas dos anos oitenta e noventa em toda altura. Ela sempre dizia que aquelas lindas canções lhe faziam sempre lembrar de seu falecido marido, e por isso também sempre ouvia… Talvez matar um pouco da falta em algum pensamento presente, como se ainda fosse jovem e pudesse sentir novamente o amor de seu amado que já há muito não mais sentia… Josefa escutava e enxergava bem. Rosália era cega de um olho e o outro só funcionava com metade da capacidade total. Ao que parecia, somente as vezes elas se cumprimentavam quando saiam no portão e tinham a chance de se verem ao mesmo tempo.

Do outro lado da rua dobrando uma esquina no cruzamento, morava um homem bastante franzino e curvado chamado Sitônio. Ele possuía os cabelos grandes meio desbotados na cor além de muito desgrenhados. A falta de cuidado com o que se tem é o bastante para em pouco tempo, ir acabando pouco a pouco até sobrar mais nada ou se sobra, é so migalhas desgastadas cujo final só pode ser o lixo. Sitônio fumava bastante e as vezes bebia um copo de cachaça e já estava bêbado. Não aguentava muito que seu organismo era fraco. Pelo menos era isso o que ele sempre dizia. Quando seus remédios estavam em falta e ele tinha uns ataques histéricos, era comum lhe ouvir gritando e andando para lá e para cá em frente sua casa. Morava ali com seu irmão um pouco mais velho que também era um cachaceiro. A casa em que moravam vivia mais com o portão velho aberto do que fechado. A frente tinha uma coloração amarela e gasta e uma palavra escrita com letras mal feitas que segundo Sitônio, só faziam sentido para ele.
“- Oh menino! Se só eu entendo o que sinto… Porquê a palavra que fiz tu quer entender? Mas eu sei bem o que é e se eu te falar é que tu não crer!” Disse ele certa vez quando um menino traquina perguntou o que aquele escrito significava. Seu irmão mais velho vivia mais no mundo andando de bicicleta do que na casa em que moravam. Era triste só de olhar ali em frente quanto mais ir lá dentro… Celso sentia exatamente isso quando olhava para ali. Parecia não ter nada lá dentro exceto por uma rede ou colchão onde os dois irmãos dormiam. A porta que também havia além do portão era quebrada e só era possível encostar. Passava o dia aberta, jogada para um lado da parede. Abandono total. Sitônio era doente da cabeça. Seu irmão não, era só cachaceiro mesmo. Bom, pelo menos era isso o que os vizinhos todos diziam. Seu irmão certa vez passou naquele cruzamento sem olhar para os lados e o carrou lhe pegou de cheio que ele foi arremessado por cima do capô. Foi ele para um lado e a bicicleta para o outro. O carro não parou jamais e a placa ficou no chão. Ele depois de um bom tempo deitado no chão sem que ninguém o ajudasse, levantou somente quando Celso foi lá e lhe puxou pelo braço e lhe sentou na calçada. Um corte no braço outro no pé. Aí de repente de um salto ele saiu embalado dizendo que iria na delegacia, aquilo não ia ficar daquele jeito não, o motorista lhe devia sim. Pegou a placa do carro e se mandou. Moravam ali já desde que sua mãe morrera e deixou a casinha para eles. Desde que todo aquele bairro ali era mais mato do que casas.

O mesmo menino traquina de antes, que havia perguntado o que era aqueles escritos na parede, sempre dizia por aí que na casa daqueles dois irmãos possuía um túnel no terceiro compartimento, mas que só quem usava era Sitônio já que seu irmão não sabia disso e só gostava mesmo de tomar uns porre e andar de bicicleta. A casa começava com o piso normal na sala, mas na medida que se entrava até ao terceiro cômodo, ela descia vertiginosamente em uma curva acentuada até o cômodo onde Sitônio e seu irmão dormia. Tão íngreme ia se tornando descer ali que se não segurasse nas paredes manchadas que também seguiam aquela curvatura acidentada, era quase certo se desequilibrar e cair no chão. Tinha uma mesinha de madeira logo ali e embaixo dela havia uma portinhola. Também não era bem uma cama ou colchão que tinha ali dentro, e sim um desenho muito mal feito de uma cama no chão, além de um desenho na parede do que seria uma geladeira e também panelas. Nenhum dos dois faziam questão de cama ou algum outro móvel de verdade. Apenas imaginar que possuíam com aqueles desenhos já era suficiente, diziam. O menino como já tinha entrado lá um dia quando Sitônio não estava, havia de fato constatado aquilo e às vezes contava por aí. Ficou impressionado e ao mesmo tempo achou tudo aquilo muito fantástico e engraçado. O tal túnel, tinha a entrada mais parecida com uma espécie de porão, mas era um túnel mesmo já que o menino tinha entrado e a saída dava exatamente do outro lado na rua no quarto de Josefa e a outra porta dava para o quarto de Rosália. É claro que a maioria da vizinhança não acreditava em uma absurdidade daquela. Conversa de menino que imagina de mais e sonha muito. É até normal essas conversas vindo de um moleque danado daquele. Celso ficou no meio termo se acreditava ou não, quando em um dia pela manhã tinha ido em um mercado ali próximo e o comerciante falava aquilo para outro cliente e os dois pareciam muito intrigados. Mas se era fato ou não, além de um absurdo sem precedentes, como iriam saber? Certamente não iriam entrar na casa de Sitônio para ter a certeza. Até poderia ter como, mas no fundo ninguém queria mesmo e deixava para lá.

O mesmo menino que já havia entrado lá umas vezes, certa tarde ficou observando quando os dois irmãos saíram da pobre casinha e entrou lá novamente. Foi andando segurando nas paredes para não cair e abriu a porta de madeira no chão. De um pulo estava no chão que dava para o assombroso túnel pouco iluminado com um lampião a gás logo ali. O menino foi correndo abaixado pelo túnel estreito quando de repente parou. Sitônio engatinhava já na saída da porta que dava para o quarto de Josefa. Enquanto engatinhava dizia gargalhando baixo consigo mesmo “Sitônio é doentio, Sitônio é doentio! As coisas que faço escapam minuciosamente dos olhos rasos de quem acha que sabe tudo! Meu caminho é entre a neblina e a poeira que cai!” O menino por um instante parou assustado no local onde estava. Esperou Sitônio abrir aquela portinhola de madeira e subir no quarto da velha. Quando já estava para continuar e ir até mais a frente afim de entender e testemunhar o que aquele homem iria fazer na casa daquela velhinha, outra portinhola se abriu. Era a que dava para a casa da velha Rosália. Ela que saiu por ali e com muitas velas nas mãos e uns mantos pretos sobre o ombro, cantava uma canção com letras estranhas e com certo tom de perversão sexual. ” -De todas as noites sofridas, a melhor foi só com você meu velho Sitônio! Meu bode negro que viola todas as velhinhas caducas e acende as chamas infernais mais densas, a cegueira que se faz sobre nós é a mesma que turva nossos desejos desse maldito tesão distorcido!” Se encaminhou diretamente para a outra portinhola que dava para o quarto de Josefa. Ao abrir era possível ouvir um leve batuque levado por sons de passos arrastados ali dentro e um falatório meio frenético. Quando a portinhola se fechou novamente todo o som foi abafado imediatamente. O menino aguçou os ouvidos na ânsia de escutar algo que lhe ia render muita história para contar, embora depois ninguém nunca acreditasse no que ele dissesse. Foi quando o menino num ato de teimosia e doidice que não escapa de uma criança curiosa, levantou devagarinho a portinhola. Ela não estava trancada já que levantou na medida que era empurrada. Ele levantou um pouco e olhou para dentro. Na porta que dava para o quintal a velha Josefa estava deitada enquanto Rosália que aparentava estar sob forte enjôo, vomitou em cima da velha. As duas estavam semi nuas vestidas com algo que lembrava um tipo de lingerie esfarrapado. Sitônio estava nu logo ao lado com um livro grosso na mão e um chicote. As paredes todas cheias de placas com escritos de letras e símbolos que faziam referência a algo desconhecido e provavelmente oculto e bizarro. Uma placa grande acima da porta que dava acesso ao quintal estava escrito em letras bem grandes: “Atque perversa est occultatum est alienum a praesenti hic! Quod arcanum est malum aliorum… Profundum temporumAnomaliae cerebri…

Provavelmente tal placa ficava escondida em algum local bem guardado da casa para que nenhum filho da velha Josefa, ao entrar alí para lhe visitar, desse conta daquilo.
O neto de Josefa de feições asiáticas também participava daquilo fazendo uma dança estranha perto da pia do quintal com um balde na cabeça cheio de algo pesado dentro já que ele segurava com visível esforço. “Vai, toma mais Rosália sua vadia! Cuida em tomar mais lavagem de porco pra te lavar o estômago! Só assim tu vai ficar mais linda e pura! Josefa precisa disso pra também ficar limpinha! Vamos já começar nosso culto e hoje é até mais tarde! Já preparei tudo no nosso quarto, vamo vamo mais rápido! Ei menino, para a dança aí e leva as coisas pra lá!” Ao ver tais coisas o menino desceu a portinhola devagarinho e disparou em saída de dentro daquele túnel abafado e malcheiroso. Ofegante na carreira de volta se arranhou várias vezes e caiu também. Era muito estreito e só cabia uma pessoa por vez ali. Saiu de dentro daquele casebre e foi para sua casa na outra rua e por uns dias nem quis mais sair de casa, os pais até que estranharam a vontade repentina do menino que era sempre tão travesso. Ele contou essa história para os seus pais mas eles trataram com desdém depois de ouvirem e disse ao menino que não queria mais saber de ele entrando em casa daquele homem. Que se ele quisesse levar uma surra boa e ainda ficar de castigo ele repetisse aquilo. O menino prometeu por sua vida que não faria mais aquilo, que agora tinha mesmo ficado com medo. Certas coisas traumáticas possuem detalhes tão agudos de horror que conseguem se sobressair comparada com outras. Essa última história depois de uns dias ganhou repercussão no bairro tanto quanto as outras que se referiam aquele homem magro e desprezado de nome Sitônio. Mas da mesma forma como sempre, logo também ganhou desdém e descrença da parte da vizinhança. Celso como sempre se mantinha meio a meio. Ele sempre desconfiava de tudo e não duvidava de nada. As vezes, passava horas e mais horas imaginando a possibilidade real daquelas histórias contadas pelo menino… Até que depois de uns dias mudou-se dali de perto.

Em uma manhã enquanto tomava café na mesa da cozinha, Celso ouviu novamente aqueles estralos estranhos no forro acima de sua cabeça. De começo não fez nada, depois olhou para cima. Por uma brecha olhando para baixo e sorrindo estava Sitônio. Ele parecia não ver Celso. Foi que Celso levantou de uma vez com o susto grande que tomou e derramou seu café. “- Ei seu louco, o que tá fazendo aí nesse forro? Quer derrubar tudo? Desce logo daí que essa porcaria de plástico não te aguenta! O que é isso mesmo?” “- Não me aguenta? Tem coisas que era pra me aguentar e não faz isso… Mas aquelas que não, essas sim que aguentam meu jovem! Sabia que lá na área de serviço tem um túnel que eu sempre uso? Esse bairro já tá cheio deles, jajá vai ser essa cidade toda! Uso pra entrar no quintal da velha aí do lado. Ela é atraente. Com o tempo ela aprendeu ou passou a gostar das minhas visitinhas, parou de tanto resistir… Mas também gostei desse forro aqui e uso pra dormir fora de casa ou rezar…” Sitônio olhava para ele se espremendo contra a parede e o forro por uma pequena brecha que tinha surgido ali. Ele botava a língua para fora como que provocando Celso.
Celso completamente assustado e sem entender nada, correu para a sala abriu a porta e foi até ao dono da casa que morava logo ao lado. Chamou ele imediatamente para olhar aquilo e tomar alguma providência. Bateu no portão e chamou alto, mas ninguém saiu. Logo se deu conta de que o portão estava somente encostado e entrou de uma vez.
– Sr. Rogério, você tá aí? Preciso falar com o Sr. urgente!
-Oi meu filho! – ele gritou lá do quintal – é você Celso? Pode entrar, estou só um pouco ocupado!
Celso foi entrando, e contou rapidamente o que havia acabado de presenciar em sua casa. O susto e mesmo o medo que lhe invadiu quando viu aquele homem no forro de sua casa fazendo horríveis caretas.
– Mas o quê? Que troço de história é essa Celso? Tem certeza? Você viu isso hoje?
– É claro que tenho Sr. Rogério! Porquê cargas d’água eu ia inventar tal história?
– Pois espere aí, deixa só eu cortar esse pedaço de peixe aqui e já vou indo lá! Quero ver se esse merdinha é maluco mesmo quando ver minha peixeira aqui brilhando pro rumo dele!
O velho Rogério com as mãos levantadas, cortava um pedaço de peixe abaixo do teto da área do quintal, que era bem baixo, usando como suporte uma parte da ripa que sustentava as telhas, pressionando o peixe e a faca contra ela com bastante esforço, lutando contra a força gravitacional. Celso se aproximou lentamente de Rogério com muita admiração e bastante confuso.
– Ei! Porquê você não põe o peixe numa tábua e corta ele em cima da pia? Tem certeza que isso aí dá certo? Sempre faz isso? Você pode se cortar, estragar o peixe e ainda não vai resolver nada… Olha o sangue do peixe pingando em você!
– Você se engana meu jovem… Olhe aí a panela em cima da pia. Não é o peixe já todo cortado? Corto aqui de cima pra baixo pra justamente economizar tempo… Só sei cortar assim, de outro jeito nem adianta. Já cheguei a usar minha mão como tábua, ou a mão do meu filho… Mas a gente sempre se cortava então paramos… Você sabe cortar de cima pra baixo ou de baixo pra cima? Cada um escolhe seu modo… Desse jeito aqui o peixe já cai direto dentro da panela e eu só tenho que limpar e pronto! Depois eu me limpo…
Diante daquela esquisitice toda, Celso passou a mão no rosto esquecendo por alguns segundos o que exatamente havia ido fazer ali. Sentiu uma leve tontura e teve a sensação de já está ali em pé horas e horas. Até que de imediato, recobrou sua consciência e os dois saíram correndo de dentro da casa para a rua. Rogério com a peixeira empunhada na mão, entrou na casa de Celso já gritando afim de espantar Sitônio.
– Vamo seu filho da puta, tá aí ainda? Vem aqui em baixo que quero te ensinar a parar de invadir e bisbilhotar a casa dos outros, seu magrela desgraçado! O bairro todo já sabe da tua fama, mas eu não tenho medo não!
Ninguém falou nada. Apenas aqueles dois homens ali em baixo olhando para um forro de PVC aparentemente normal, sem quebraduras ou algum buraco qualquer.
– Celso meu filho – perguntou Rogério com um olhar meio desacreditado – tem certeza que ele tava aqui? Um forro de plástico desse aqui não ia aguentar ele não… Era pra ter caído com tudo imediatamente… Estranho…
– Mas ele tava sim, eu juro pra o Sr., juro mesmo! Eu quase me engasgo só de susto quando vi, tava tomando meu café!
– Sei não em Celso… Que porcaria é essa… Já tinha ouvido falar que tinha um túnel na casa dele, mas essa de vir nos tetos dos outros, primeira vez que escuto… Nem dá pra acreditar… Deixa eu ver aqui!
Rogério subiu em cima do muro para ver se encontrava ele no teto, mas nada. Tudo normal como sempre foi, em qualquer direção. Olhou pela brecha do forro e só havia poeira.
– Mas acredite, eu não iria inventar isso não, não sou nenhum moleque não! Igual aquele que fala que tem um túnel na casa dele! E se for mesmo? Não tem como saber se é real!
– É, é verdade… Mas por aqui Celso, nem sinal dele! E também, não tem nenhuma quebradeira no forro, nenhuma brecha nem nada, não entendo mesmo… Ah, é… Agora com isso tudo, lembrei… Ontem a tarde quando fui na mercearia aqui perto, os rapazes lá conversavam algo… Diziam que aquele menino andou dizendo por lá mais coisas relacionadas com esse maluco… Lembro até da sensação ruim que tive na hora e como aquilo me fez pensar o resto do dia…
– Que coisa? O que ele falou?
– Ele disse que entrou novamente na casa desse tal de Sitônio, e entrou mesmo sem ter vontade de ir lá outra vez, sabe? Como se tivesse andando pela rua, brincando, e de repente já se visse dentro lá dessa barraca que ele chama de casa… E aquele maluco ficou lá olhando para o menino que tava todo se borrando de medo… Antes de ele correr Sitônio tinha dito pra ele que era um tipo diferente de raça… Um bicho que não respira, nem come, nem dorme e, que ele só poderia continuar existindo se fosse com tais condições, fazendo as coisas que já fazia e tantas outras que quase ninguém sabia. Também que, esse túnel que tem lá na casa dele foi feito há centenas de anos atrás por uns antepassados dele, doentes mentais iguais a ele, já que eles moravam ali muito antes de qualquer outra pessoa ir para lá. Antigamente era só mato ali. E que ele pretende tomar todo esse bairro e até a cidade para fundar e retomar umas antigas seitas aí que só ele conhece e que seus antepassados já faziam… Sei lá, foi algo assim que o menino me falou… Esse Sitônio é muito é de um ladrão safado, isso sim! Canalha bom de surra! Não acredito nessas lorotas que ele diz não… Se é que ele disse mesmo, tentando assustar o menino! Eu já ia perguntar mais coisas na mercearia, só por curiosidade… Mas disseram que o menino apenas falou que já tinha que ir, que se demorasse mais seus pais iam brigar com ele… E isso foi tudo que fiquei sabendo … Os pais do menino vão embora pra outra cidade semana que vem, vão pra uma casa deles mesmo…
– Cruzes! Sério mesmo tudo isso? Não dá mesmo para acreditar, embora a gente se esforce pra isso… Caraca!
– Não se esforce não, deixe isso pra lá… Tem coisa que é mesmo sem uma resposta clara, uma solução certa… Tipo como quando você ver um pouco de sangue em certa parte do seu corpo, e não sabe nem onde tá o machucado e muito menos onde se machucou, sabe? Fica besta tentando entender e dá em nada… É mais ou menos assim… E cabe a cada um se vai mesmo comprar aquele pensamento, absorver de pouco a pouco aquela idéia até se tornar uma só…
– É, isto é mesmo… Mas eu vou entregar sua casa Sr. Rogério, vou procurar outro canto para morar, também… Não vou continuar mais aqui ainda mais depois do que aconteceu… E também, sua casa é cheia de defeitos, muita poeira, e alguns vazamentos… Depois de amanhã vence o aluguel e eu já achei outro canto para morar, é bem longe daqui até…
– Poxa Celso… Não quer rever algo? Eu posso mandar ajeitar o que tem de errado por aqui e tudo o mais…
– Não, não meu Sr., Muito obrigado, mas não… Você já tinha me dito que não ajeitava e agora mudou de idéia. Mas não precisa mais, esqueça isso… Nesses últimos dias nem tenho conseguido dormir direito… Pesadelos lúcidos, não sei o que seja isso… Tive um pesadelo em que enxames de milhares de gafanhotos e vespas invadiam a terra e causavam grandes destruições e aumentavam a prostituição no mundo. Pelos céus como era horrível! Foi algo assim mesmo. Lembro de que eu ligava a TV e via isso sendo noticiado em vários jornais e plantões… Aquilo era noticiado em todo canto possível! E eu via Sitônio sendo o líder daquele enxame pavoroso, montado em cima do que mais parecia uma velha alada e deformada. Desses delírios idiotas também já estou de saco cheio! Mas olha só… Ele também disse que tinha a passagem pra um túnel na área de serviço daqui, é verdade?
– Mas pesadelos qualquer um pode ter, Celso… Bobagem isso… Mas tudo bem então… Não posso lhe obrigar não é mesmo?! Um túnel aqui? Você deve saber garoto, que eu jamais faria algo do tipo, não acha? Ora bolas! E posso lhe garantir que não. Você já viu ou só quis acreditar no que aquele maluco falou? Venha ver!
Os dois foram até a área de serviços, mas não havia nada fora do comum ali. Apenas o chão de cimento como sempre fora. – Chego a imaginar Sr., que se realmente tem aqui o que ele disse, ele pode simplesmente ter mentido quanto ao local que está… Isso explicaria como ele conseguiu chegar até aqui. Já pensei várias vezes também sobre eles serem adeptos de um ocultismo da mais tenebrosa qualidade ou algo do tipo, sei lá, eu não duvido… Ao meu ver não tem mais o que fazer… Parece infeccionado de mais para tentar acabar com isso tudo…

Dali a uma semana Celso mudou-se para uma cidade vizinha. Nunca mais ouviu falar de Sitônio, nem daquelas histórias bizarras das quais tinha presenciado. Tantos túneis subterrâneos não são nada normais em uma cidade comum, ainda mais tendo como saída a casa de outras pessoas, relatos de perversões sexuais como que fazendo parte de alguma seita religiosa desconhecida. Mas poderia mesmo isso acontecer? Os túneis serem tão possíveis quantos becos e vielas? O côncavo pode ser convexo e o convexo ser côncavo. Às vezes mesmo com provas, muitos preferem o auto engano, não há jeito. Difícil mesmo é saber onde começam as leves mentiras e iniciam as mais pesadas e terríveis verdades.

2 comentários em “Túneis doentios

  1. Essa historia me parece bem real, de fato não sabemos se essas coisas realmente acontecem, ou são apenas histórias contavas pelos outros, a partir do momento em que o garoto entra no túnel e ver essas coisas tipo macabras, já imagino uma bela história assustadora que daria num bom filme, gostei bastante!!!

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