Não pulemos deste barco!

Eu enterrarei seu corpo na areia dourada da praia, naquela ilha onde todos os barcos sempre rumam, acredita no que digo? Eu enterrarei e depois serei enterrado, juro que farei isso meu camarada, sem falta. É a palavra de honra que me rege. Lhe imploro que não se jogue! O próximo que vier também fará o mesmo, e o próximo do próximo também… E assim sempre se fará. Mas é claro que há aqueles milhares de navegantes que se perdem, sim é claro que há. Aqueles bravos que, tristemente, absorveram o peso do medo e a covardia possessa do mais absoluto desespero os invadiu por completo… É claro que todo dia e momento há ainda aqueles que pulam dos barcos, nas infidosas águas salgadas e quentes… Que ao afundar a pressão é a deusa mais completa e o frio toma lugar a cada metro submerso que ganha. Há um imenso prazer em passear pelo meio desse mar de dores e nada fazer consigo mesmo, sair vivo no final dele. Não, não pulemos do barco, eu enterrarei seu corpo no final e onde deve ser! Na areia morna e fina da praia calma daquela última ilha a qual logo mais chegaremos. O meu também será. Nossos corpos dignamente enterrados na completude do que tinha de ser feito enquanto ainda éramos bons navegantes. Os desejos morrem sempre na ilha dos desejos, eles retornam ao mesmo ponto… Do longínquo ponto em que partimos já não é mais possível voltar e nem saber para qual direção fica, agora é ir em frente, não há mais jeito… Quantos barcos maiores e belos não naufragaram, enquanto aqueles que eram bem mais pobres e aparentemente frágeis foram e vão ainda até o fim? Que a lassidez horrível não nos domine! Eu sei que está ferido, eu também estou. Eu sei o quanto dói não ver um horizonte desde já tanto tempo, eu também sinto! Mas na permanência do que fazemos, iremos longe e veremos além daquela linha… Sabe-se lá o que podemos ver? O quebrar das ondas anunciando que o renovo é sempre certo! Ficaremos curados desses machucados e de toda essa ensolação lancinante. Mas não pule deste barco meu amigo, não aqui, não ainda nem agora! Creio já ver terra firme e ela não está tão longe!

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