Agulhas pelo chão





As palavras são manchas desnecessárias sob o silêncio e o nada… Samuel Beckett

O homem magro e meio pálido possuía os ossos do rosto bem destacados e salientes. Todos os dias ao varrer a casa apressadamente, tinha, dentre várias outras, uma intensa fixação recorrente que lhe invadia até que fosse terminada toda aquela atividade diária: que em meio ao revoar da poeira e lixos maiores, lhe vinha sempre a idéia de ver algo que lembra a forma de uma ou várias agulhas correndo pelo chão, de forma que é jogada para a frente pela força do impulso da vassoura. Mas como pode ser uma agulha de fato, se há tempos ele não manuseia uma em sua casa? Ele apenas lembra de ter umas vinte dessas, entre espessuras mais finas e mais grossas, fincadas cuidadosamente numa pequena bola de cera em seu estreito quarto que mal cabe sua cama e um guarda roupa nada largo. Todos os dias sem falta, aquelas agulhas eram retiradas dalí e uma por uma contadas minuciosamente para poderem voltar ao mesmo canto.  Mas ao ser invadido por aquela obsessiva dúvida diária, sempre descia ao chão meio esburacado, tateando e dando leves tapas afim de achar o tal minúsculo artefato de ferro. Cada centímetro da casa e cada canto era tateado com seus longos olhos assustados percorrendo cada ponto. Todos os dias quando isso lhe ocorria, seu medo maior era furar-se e saber que certamente, iria morrer com um prognóstico de uma lacerante fasciíte necrosante. Exatamente aquela mesma infecção cutânea grave, exposta como uma chaga óssea que rasga progressivamente até chegar ao passamento de uma morte dolorosa e pútrida que vitimou seu pobre pai, quando ainda o varredor magro da casa era uma criança bem raquítica e pensativa. Mas a dolorosa imagem de seu pai definhando até o fim aos inúteis cuidados de sua mãe e os lamentos por não ter tido tanto cuidado para que não se cortasse com aquele maldito arame enferrujado no fundo de um rio escuro, nunca haviam saído de sua frágil mente e ele os levava como uma carga pesada que só ganhava mais força em sua mente ao longo dos anos. “Irei com plena certeza, morrer como meu velho pai descuidado morreu. Mas isso deve me servir ao menos de cuidado. Pois pelo dado momento de partir dessa existência, por mais que aparente uma inocente causa, por mais ridícula e irrelevante que pareça ser, você pode ir!” Era o que ele sempre dizia.

Pois certa vez em uma noite, horário ao qual ele sempre se dedicara anteriormente a contar até cem e no final dá três pulos imaginando que tal prática ajudasse com sua ansiedade que nunca lhe largara, decidiu suspender ao menos uma vez isso e começou a varrer a casa rapidamente. Em seu pensamento imaginou “Achar as agulhas! Achar as agulhas! Não posso me descuidar! Elas não vão me furar nunca! Não posso morrer como meu velho pai, e ainda mais que o motivo seja a droga de uma mera e insignificante agulha, não aceito isso!” Mas foi então que ao passar seus longos dedos magros pelo chão já próximo de um velho sofá, que ele sentiu àquela pontada que sempre havia idealizado para si como sinônimo de um fim doloroso, como a picada que ele sempre temera, sempre! E tinha para sí como o extremo prenúncio de uma morte macabra e agonizante. Ele sentiu e logo viu a pequena gota de sangue que saía devido ao furo. Saiu correndo para a pia do quintal afim de lavar-se enquanto gritava em um tom grave e praguejava sem crer que havia perdido para aquilo que ele sempre tivera cuidado, logo para aquilo que ele tanto temia e ainda aparentava ser tão inofensivo e que, ainda com alguma possibilidade remota de lhe causar mal, nunca seria possível frente aos tantos cuidados que ele tanto tomava. Mas aconteceu. Infelizmente e por fim, lhe havia acontecido.

Passou apenas um mês exato sem tirar nem pôr algum dia a mais, e todo o seu braço já estava em carne viva e mostrando o osso. – É grave e mesmo com todos os nossos meios ainda que paliativos, não tem como cessar isso… É bem provável, a julgar por umas caixas de remédio que encontrei aqui nessa casa, que seu pai sofresse com diabetes. Ele nunca contou para vocês? Pois bem. A tal úlcera de meleney, é considera uma doença de grau emergencial. E além do mais, quando você foi me chamar para iniciar o tratamento, já estava em estágio avançado da gangrena, certo? Talvez esse tenha sido o pior erro, esperar de mais e atitude alguma ser tomada! Não temos tantos recursos, já é avançado, infelizmente. Isso me faz lembrar quando viajei para a Papua nova Guiné com um grupo de médicos do hospital Princesa Alexandra em Brisbane na Austrália… Um grupo de nativos que praticavam rituais antropofágicos desenvolveram uma síndrome cerebral priônica chamada de Kuru. Foi uma experiência de muito aprendizado para todos nós, mas também de muito horror e atenção redobrada. Era tenso tratar todos aqueles enfermos cujos sintomas era próximos de uma loucura desenfreada e sinistra. Mas é isto. Agora tenho que ir meus amigos. Tentaremos o que puder pelo vosso pai!

Dizia o médico ao filho mais velho que, há um mês atrás ao tomar conhecimento da situação do pai, passara a lhe visitar todos os dias e levava seu irmão mais novo também que sempre insistia em ir, mas o irmão afim de poupar-lhe de tal cena, negava. Até quando já lá para o fim do mês e seu pai já quase nem falava mais, ele enfim levou o menino. Ao chegar, os dois punha máscara pois seu magro pai já exavala um odor nauseante mesmo. O pai ao ver os dois, apenas virou-se para o menino pequeno e disse “Saia daqui, meu pequeno. Para que não termine como eu, para que não leve a vida toda perdida em um único pensamento ao invés de viver, ao invés de olhar para o presente e abrir-se para as outras possibilidades!” E depois disso voltava a gemer com lamentos de dor. Os filhos ficaram no quarto até o fim daquele dia quando o pai enfim deu o último suspiro. Iriam arrumar o enterro. O menino pequeno virou-se para o irmão e disse “Eu não quero terminar como meu pai, meu mano!” Com os olhos arregalados puxou o braço do irmão e dizia “Não posso um dia morrer como ele!” “Mas calma meu irmãozinho, você não vai morrer assim, não pense isso!” “Agulhas Bryan, agulhas são perigosas, entende? Nunca sabemos ao certo onde elas vão estar e por fim, podem estar alí ondem nem contávamos e assim nos furar e depois disso só vir o pior!” “Calma meu pequeno, calma… Mesmo porque uma infecção pode ocorrer por outras infindáveis vias, as agulhas foram só mais uma que nosso pai se descuidou… Com o tempo quanto mais se acumula as causas, mais difícil de lidar se torna e então, qualquer hora, é passivo de que extravase e fuja dos limites, até chegar ao fim inevitável… E por fim, a vida vai se perdendo e no final a morte ganha. Ela sempre sai ganhando com tudo no final…” “tenho medo Bryan, tenho medo do furor das agulhas, não sabemos onde elas estão, devemos olhar…” Os dois caminhavam por uma estradinha de terra com o vento batendo forte em lamentoso murmúrio na direção contrária e balançando secas folhas no chão e nas árvores enveredadas bem alí. O pequeno repetia que tinha medo de agulhas enquato era envolvido pelos braços do mais velho que também relutava em consolar-se. Iriam encomendar o velório do pai.

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