Um encontro nada convencional

Fazia já quase meio ano que durante duas vezes ao mês, quem morava na ladeira Mineira a qual tinha o asfalto bem liso, podia ver o garoto Juca descer em alta velocidade com sua nova bicicleta de cor alaranjado fosco. Mineira era uma bela rua arborizada e de muitos casarões de arquitetura colonial, situada em Braga ao norte de Portugal. A maior parte dos habitantes da cidade eram anciães que ainda sentavam nas calçadas ao fim da tarde e conversavam assuntos de quietude e sossego. Juca havia ganhado aquela bike de seu pai em seu recente aniversário de onze anos. O garoto já desde seus sete anos de idade era muito esperto e um aficionado por dinossauros e tudo o que envolvesse evolução em geral daqueles antigos seres.

Tinha vários exemplares informativos e com curiosidades, revistas e bonecos que ele mais usava para fins de decoração e explicação para seus amigos, do que para brincar. Além de quadros, pôsteres e até a fantasia com seu tamanho, de uma espécie voadora chamada Tapejara, que o garoto explicava para os pais que se tratava de um espécime de pterossauro que habitava as terras brasileiras à alguns milhares de anos. Às vezes ele vestia-se com àquela fantasia e saia correndo de braços abertos pela casa e quintal, dizendo que não era mais Juca e sim um grande Tapejara.
– Oh Juca! Não te vás subir nesta árvore aí e cair, se não tua mãe mata-me quando chegar em! Que menino traquina meu Deus!
A empregada Eleonora todos os dias assistia uma nova invenção que Juca arrumava de fazer, e que quase sempre tinha relação com os antigos dinossauros.
– Fica tranquila Nora, já viu Tapejara cair? Eu sei voar, vou subir lá no topo e trazer uma goiaba pra ti!
Sempre quando a mãe de Juca saia, dava uma ordem para Eleonora:
– Nora, não deixe Juca sair com o Tiago caso ele venha aqui chamá-lo, ok? E se ele der na telha de querer ir para aquela banca de revistas, vá com ele ou diga que quando eu ou Marcelo chegar o levaremos. Daqui até a igreja é um pouco longe, você sabe. E às doze já deve está pronto e de banho tomado para ir à escola!
– Tudo bem dona Carmem, não se preocupe. Vou fazer ele me escutar!
Mas Eleonora sabia que Juca era traquina de mais. Agitado do jeito que era, só queria ir para a banca sozinho e de bicicleta. Pobre Eleonora … Cuidar de Juca não era nada fácil. Ela cogitava dizer para Carmem, mas em tanto de o garoto repetir suas idas e vindas da banca com sua bicicleta e nada de ruim acontecer, ela ia deixando passar sem nada dizer.
– Aiai viu Juca, hoje mesmo eu digo para sua mãe ou pro senhor Marcelo quando chegarem!

Eleonora falava isso enquanto já havia tentado convecê-lo antes, e o menino descia com sua bicicleta a calçada de porcelanato bege e em seguida ir reto pela ladeira da rua Mineira onde chegaria na banca em uns trinta minutos.
– Nora, agora que são quinze para as doze! Eu chego logo, vou correndo pro banheiro, almoço e estou pronto à tempo de ir pra escola! A ida é rápida e na volta pego um atalho pra não ter que morrer subindo o alto! Quero só ver se já chegou o fascículo do mês sobre tsintaossauros!
– Tsin o quê menino?
E juca descia a ladeira sem sentar na sela da bicicleta, com seu cabelo preto e grande esvoaçando ao vento da rapidez. Daquele mesmo modo passando direto ele cortava um cruzamento ao final da ladeira, onde passava uma outra rua também declivosa de nome Matrilha. Juca passava alí quase sempre sem freiar. Ele pensava “Vou me guiar pela audição. Se na outra ladeira que cruza com essa eu não ouvir nenhum som de carro ou moto, também não freio e passo direto com tudo!” Ele sempre fazia o mesmo nas duas vezes ao mês e sempre dava certo.

Alí na rua Mineira além dos inúmeros idosos sonolentos que viviam por lá, tinha um peculiar casal cuja residência tinha a frente toda em pedra tosca vermelha e pontuda. Tão pontuda eram aquelas pedras que remetiam às formas que são usadas em pavimentação ou em ombros de lastros ferroviários que compõem trilhos de trem. Seria impossível encostar naquela parede sem sentir-se desconfortável e sair de perto. O casal de velhos ficavam a maior parte do dia sentados na parte de dentro da área bisbilhotando a rua de poucos acontecimentos interessantes juntamente com Miquéias, o filho deles de quinzes anos de idade que possuía altíssimo grau de altismo e ficava sentado o dia todo alí também. As vezes ele gritava sem nenhum motivo, ria alto ou chorava enquanto tacava ritmadamente sua cabeça na parede. Às vezes sujava-se com sua própria urina ou derramava sua comida alí mesmo tendo comido só a metade. Ficava sempre só de calção ligeiramente rasgado e os cabelos que eram grandes chegavam a dar nós de tanta sujeira alí acumulada. Mas o casal de velhos nem ligava e até tiravam sarro da situação. Alguns vizinhos ou quem passava por alí até se compadeciam com aquilo e falavam ” Levem o menino para um internamento, não seria melhor? Ele não tem acompanhamento psiquiátrico? ” Ao que os velhos respondiam ” Que nada! Miquéias nasceu assim e assim morrerá! É normal. Nem todo mundo nasce com a mente sã! Não tem acompanhamento pra ele não, só damos alguns medicamentos e é quando compramos! Ele não vai morrer por isso! ” A velha Safira já desiludida e sem paciência mais, não nutria esperança alguma em ter ainda outro filho, já que abortara três vezes antes de Miquéias. Fosse sorte ou azar do destino, nasceu um na quarta rodada e bastante problemático.

Nisso de requerer melhorias para o garoto, quem falasse, dava de ombros e deixava para lá. E o pobre menino ia sobrevivendo daquela forma mesmo. O único momento em que Miquéias levantava do chão e se alegrava era quando Juca passava veloz em sua bicicleta descendo a rua. Ele pulava sorrindo e batendo palmas como quando alguém ganha um prêmio de alto valor. Juca retribuía sempre olhando para o lado e acenando para o garoto. Os pais de Juca não raras vezes falavam da situação do pobre menino e o quanto os velhos não ligavam para ele. Juca também se sentia bem quando via Miquéias sorrir. O menino por sua vez, ficava com o rosto pressionado contra o portão olhando a bicicleta passar até sumir de sua vista. Onde depois sentava novamente ao chão e falava sozinho brincando com os dedos dos pés. Depois que Juca passava por alí o velho sempre dizia ” Esse menino é doido! Passa aqui sempre correndo e não olha nem freia quando passa a Matrilha. Eu quero um dia ainda ver ele se espatifando no chão só pra ver como eu tinha razão! Num é não Safira? Ele anda bem, mas se brincar com o destino vai se dá bem mal, num é não Safira?” E a velha respondendo que sim com a cabeça, ria alto até quase ficar sem ar e fazendo nós em uma fralda suja em sua mão. A rotina diária, ano após ano daquele casal era a mesma. De igual modo, a mesma cena se repetia toda vez que Juca passava por alí para ir em direção a única banca de revistas da cidade que ficava a uns seis quarteirões dalí em diante na região de Tenões. A pequena banca de nome “Daora” ficava entre duas árvores ao lado da bela igreja de Bom Jesus do Monte. Juca adorava toda vez que fazia aquele trajeto, não somente por ir comprar suas revistas, mas também porque adorava apreciar a beleza daquele escultural santuário católico. Possuía uma arquitetura bem robusta e rebuscada de detalhes, com uma cor meio amarelada mas muito bem pintada, em toda a fachada. Muitos vasos brancos e grandes cheios com tulipas azuis e orquídeas vermelhas, completavam alguns pontos de entrada da igreja. Lá em cima da alta escadaria que dava acesso ao interior do santuário, era possível deslumbrar uma bela vista para a cidade. Sem contar o maravilhoso e amplo espaço verde, fontes, uma gruta, e um funicular movido a água. Um dos únicos no mundo todo que ainda funcionavam. Todo aquele espaço tranquilo e bucólico, era frequentado por muitas pessoas que procuravam lazer e relaxamento com belos momentos de piquenique, afetos e fotografias. Todos os dias haviam missas em um só horário do dia e aos domingos em três, onde os pais de Juca costumavam ir e levá-lo. Nas vezes que saía para ir até a banca ele pegava a revista que queria, entregava três euros ao dono e voltava rápido pegando um atalho para que não se atrasasse na ida para escola. Juca achava chato que a banca não abrisse aos fins de semana, seria melhor para ele e alguns outros garotos da cidade que também faziam coleções diversas. Mas tinham de se contentar assim mesmo.

Ao meio dia de uma segunda feira de céu limpo, Eleonora fazia o almoço ouvindo Xutos & pontapés, e se embalava na música alta “Homem do Leme” entre um ingrediente e outro. Ela adorava uma boa música dos anos noventa. Foi nessa distração da empregada, que Juca saiu com a ponta dos pés até a área, pegou sua bicicleta que estava encostada no muro e abrindo o portão silenciosamente, saiu sem que Eleonora se desse conta. Pois se soubesse, com certeza ao menos tentaria impedir o garoto. “Vou e venho e Nora nem vai perceber! Não vou atrasar pra escola!” Pensava ele. E assim o fez mesmo. Deu umas poucas pedaladas e lá ia ele em sua bicicleta a alta velocidade. Quando passou frente à casa de Miquéias, o casal de velho levantou-se da cadeira e ficaram em pé, de cara fechada, com as mãos no portão. O menino sentado ao chão batia palmas e ria satisfeito. Juca como sempre, acenou e sorriu para o garoto. O problema é que nesse dia, um carro que provavelmente havia dado um sério problema naqueles instantes, descia em ponto morto fazendo nenhum barulho, o cruzamento perpendicular à descida de Juca. O motorista assobiava alegremente e batia na direção ao mesmo ritmo do som. Confiante de que nada desceria por alí, Juca como sempre não freiou e nisso foi acertado pelo carro onde passou voando por cima do capô. O motorista deu um grito assustado e levou as mãos a cabeça, praguejando. A bicicleta teve sua frente toda amassada e o garoto gemia de dor no chão, com um corte profundo em sua perna. Sangrava muito e o menino falava que ia desmaiar, sendo consolado pelo motorista que lhe pedia desculpas e falando que ficaria tudo bem. O carro teve um dos faróis quebrado com o impacto. “Porquê não parou e olhou para os lados menino?” “Eu não sei moço, eu sempre fazia isso e dava certo! Minha mãe não pode ficar sabendo disso!” “Fique calmo! Vou com você para o hospital! Vai ficar tudo bem!” Alguns curiosos já se reuniam ao redor da cena, enquanto o casal de velhos que finalmente tinham aberto o portão e saído na calçada observavam de longe. “Deixa o que cai no chão mesmo, é bom que não precisa mais levantar!” Disse o velho sendo acompanhado pela risada de Safira. Miquéias chorava e batia sua cabeça na parede.

Em poucos instantes chegou uma ambulância, fez os primeiros procedimentos e pôs o garoto alí dentro onde em pouco tempo estariam no hospital da cidade. “Moça, minha perna tá doendo muito, e me sinto um pouco tonto! Vou morrer?” Falava Juca. A enfermeira ouvia tudo mas insensivelmente apenas cantava e cantava, de forma que sua intenção parecia ser, que ele cansasse e dormisse. O socorrista falou “Fica tranquilo garoto, não vais morrer. Foi só um corte profundo, tá?” Mas Juca não respondeu, parecia haver desmaiado. Naquele mesmo dia, Marcelo havia ficado de almoçar em casa por conta de um imprevisto em seu trabalho. Ao chegar, perguntou por Juca e a pobre Eleonora nervosa e sem saber o que dizer falava que já era para ele ter voltado. “Sr Marcelo eu estava fazendo o almoço e quando me distrai por um instante, nada do Juca! Me perdoe sei que fiz errado em não ter escondido a chave! Ele deve ter ido novamente a tal banca de revistas! É agora que dona Carmem me despacha de vez!” Marcelo apenas pediu que ela ficasse calma, que depois eles conversavam e que não era completamente culpa dela. Ele iria na banca, dar uma volta no bairro afim de encontrar o garoto. Sem almoçar nem nada, pegou seu carro e foi até a banquinha da praça. Estava fechada aquela hora. Marcelo sentiu uma angústia enorme naquele momento. Onde estava seu filho? O que faria agora? Aí seu celular tocou de repente. Foi quando recebeu uma ligação do hospital, informando-lhe que seu filho havia sofrido um acidente mas que estava bem. Causou-lhe um corte profundo na perna mas nada muito grave. Por sorte não batera a cabeça fortemente no chão. Ele havia desmaiado mas acordou logo, passou o número do pai falando que queria vê-lo imediatamente. Marcelo sentiu um alívio grandioso ao ouvir aquilo, embora preocupado com a situação do menino. Concordou com tudo e em poucos minutos estava na recepção do hospital.

Logo estava na sala de Juca, mas o garoto havia tomado um relaxante muscular que o tinha feito dormir. A enfermeira lhe informou que o menino estava bem, que só levaria alguns pontos na perna, mas que precisava ficar em observação até a tarde do outro dia. Marcelo então ainda muito chateado saiu da sala e foi andando até a saída do hospital. Iria voltar para o trabalho sem almoçar e ainda chegar atrasado. E o sermão que Carmem lhe daria mais tarde? “Quanta dor de cabeça nessa vida meu Deus!” Pensou ele. Já alí na saída, encontrou sentado ao banco da recepção um amigo seu dos tempos das festas e baladas, que não via já fazia uns quinze anos. Ele olhou com um pouco mais de calma o homem com ar de preocupado que olhava para o chão e a mão no queixo. “Sthenyo, é você mesmo cara?” Perguntou Marcelo achando estar confundindo a pessoa. Foi quando o homem olhou para cima e disse ” Meu Deus! Marcelo?! Quanto tempo cara! Como assim te encontrar aqui depois de tantos anos?” Marcelo então perguntou o que ele estava fazendo alí. Sthenyo disse que havia sem querer, batido seu carro em um garoto que descia a ladeira de bicicleta. “Que droga em Sthenyo! Porquê não parou o carro cara? O menino que você acertou é meu filho!” Marcelo gritou de repente. “Calma Marcelo, por favor! Meu carro deu um problemão na rua de última hora. Tava tudo tão parado achei que fosse dar tudo certo. Me perdoa cara! Qualquer gasto que tiver eu pago, o menino vai ficar bem não vai?” Marcelo então falou que não precisava de nenhuma ajuda dele e que Juca estava bem. “Olha Sthenyo… Estou a morrer de fome e nem vou almoçar hoje, já estou atrasado para o trabalho. Tá tudo um estresse só! Vou indo nessa! Também nunca imaginei que depois de tantos anos te reencontraria logo numa dessas! Mais tarde tenho que voltar e ver como está meu filho! De qualquer forma, foi bom ter te visto… Mas presta mais atenção na vida beleza?!” A tensão e incômodo do momento não permitiu que os dois amigos relembrassem animadamente dos velhos e bons tempos. O que seria um reencontro de animosidade se tornou algo desconcertante e incerto. ” Tudo bem então… Marcelo, onde você tá morando cara? Vamos nos ver depois? Sei lá , conversar…” Marcelo olhou rapidamente para trás e disse “Não sei cara… Talvez!” Sthenyo saiu até alí fora e acendeu um cigarro. Também estava preocupado com o que havia causado. Se sentia um total irresponsável e errado. Marcelo saiu depressa em seu carro. Uma ambulância chegou naquele momento com o alto som da sirene cantando. A movimentação por aquele hospital tinha lá seus dias agitados. ” Porquê não parei logo a droga daquele carro?! Tanto tempo que eu não via o cara, e quando vejo rola uma droga dessas! De um minuto pro outro tudo fica de ponta cabeça nessa vida… Assim como o álcool ou o próprio éter que evapora, as coisas fogem do nosso controle… Vai entender! Pode ser que Marcelo me perdoe ainda, ele é uma boa pessoa… E tudo há de ficar bem, tudo há… Juntos haveremos ainda de recordar dos velhos tempos!” Ele então apagou o cigarro na parede e saiu dalí levantando suas calças que caíam de vez em quando. Ia para casa e mais tarde na oficina concertar seu carro. De repente, dormir um pouco era ainda a melhor solução para abstrair- se de certas problemáticas da vida.

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