O estranho visitante

O povoado esquecido e remoto, era o menor distrito do município. Possuía não mais não menos que cinco quarteirões de casinhas simples de madeira e um pequeno cemitério cercado por uma baixa mureta. Todas as casas haviam janelinhas disformes na lateral, mas que nunca abriam. O clima no interior delas era sempre o mesmo de secura e abafamento, e parecia piorar ainda mais em certas épocas do ano. Os exatos trinta habitantes que alí haviam, eram tão iguais em seus traços físicos que pareciam ser filhos de um mesmo casal. Não havia diferença também em por exemplo, questões sentimentais. Uma solidão cortante os deixavam devolutos em si mesmos durante todo o dia, que quem viesse a chegar por aquele povoado poderia ver um aspecto de abandono em todos os que alí moravam, de modo que ficaria fácil confundir um e outro. Do bebê ao idoso eram visíveis os traços. Fosse nas feições, no modo de comunicação, andar ou dormir. Usavam um amontoado de galhos e folhas secas entrelaçados na cabeça em forma de chapéu afim de proteção contra o sol escaldante. Todos sabiam falar, mas não conheciam o escrever e muito menos ler. Também denotavam um peculiar e forte comportamento inerte, assim como o restante do povoado. Mas não. Ninguém ia alí, todos sabiam. Nunca foram. Desde que o primeiro casal chegou por aqueles lados de árvores secas e galhos sem vida, de terra sem umidade e vento quente, sempre foi a mesma coisa. Tudo exavala o real soturno.

Criavam algumas cabeças de gado que nunca engordavam para que dessem o mínimo para o sustento, porém de vinte que possuiam, oito ou nove nem chegavam a fase adulta e já viravam carcaças ao chão onde dezenas de urubus e milhares de moscas varejeiras faziam a festa. As carcaças todos já sabiam também: “Ora, se morre nosso gado melhor pra gente é! A armadilha perfeita pra pegar uns urubus e assar no fogo alto dos cipós de macaé!” As mulheres também usavam a gordura dessas aves para passar nos cabelos o qual dava um brilho visível e forte acompanhado por um odor nauseante. Tentavam também plantar alguma coisa, porém as condições climáticas e terrenas eram quase que absolutamente escassas e incompatíveis com a vida. Tinham uma magra plantação que dava ainda resultado de alguma cultura aqui e alí, quando chovia muito raramente no período de todo um ano. Como adubo para as poucas plantas que nasciam alí, usavam o pó dos ossos das carcaças de gado que eles mesmo trituravam e também de abutre ou qualquer outra ave que tivesse a desventura de pousar na região. Água para beber e demais necessidades, vinham do armazenamento pluvial que logo se esgotavam por caírem dificilmente, ou de um lago próximo cuja água possuía um verde característico e via-se impurezas em suspensão nos recipientes que usavam. Apenas filtravam a água em algum pano que possuiam e faziam uso dela assim mesmo, dizendo ser de ótimo gosto. Diziam que água boa como aquela só eles tinham. Eram apenas três espécies de plantas diferentes que cultivavam, com uma aparência de leguminosa. Uma delas oferecia um grão que possuía uma forma perfeita de um octógono, cuja cor era metade preto e metade um vermelho fortíssimo, que escorria sem parar até formar uma poça caso o apertasse forte. “Xilina, nosso vermelho da vida!” Eram como o chamavam. Segundo os moradores, não se achava em nenhum lugar do mundo aquele tal grão desconhecido, e que tinham de esconder bem quando viesse os agentes da saúde. De fato, as tais plantas eram culturalmente desconhecidas já que produziam com total eficácia naquela relação de solo tão árida e salina. Por aquela região, não havia estação climática correta como se conhece nos estudos meteorológicos ou ainda na ciência popular dos agricultores. Não, alí era algo a parte… O ar era espesso, era algo de mais esquisito que não tinha época definida para ocorrer… Mas ainda assim, inexplicávelmente se mantinham vivos.

O prefeito da cidade que sentia vergonha em saber que alí ainda era anexo do município, mandava até lá dois agentes de saúde e um médico especializado em causas gerais, por uma vez ao mês. Revisavam alguma coisa por lá, examinava um idoso ou criança, prescrevia algum medicamento mesmo que para fins paliativos, e voltavam rápido passando álcool no corpo e lançando maldições sobre aquelas terras e dizendo “logo não haverá nenhum mais! Apostam quanto? Não dou dois meses!”. O povoado ficava a alguns metros estrada adentro onde, perpendicular a essa estrada passava uma larga rodovia pavimentada de movimentação grande e diária. Grandes caminhões carregados, ônibus e carros de passeio cruzavam sempre por alí, mas sem ao menos cogitarem ir pela estradinha adentro que era cheias de galhos secos e cipós de um lado e outro, onde bichos do mato deformados corriam por dentro. Mesmo que na entrada de lá todos os dias houvessem crianças descalças e com trapos vestidos, levantando as mãos e pedindo alimento ou algo que nem elas mesmo sabiam o quê, quem por alí passava parecia não ver.

Entre tantas coisas sem vida por aquelas bandas, onde até o ar parecia ser mais denso e de uma cor amarelo desbotado, havia uma pequena praça localizada imediatamente ao término da entrada da estradinha de terra. A pequenina praça era feita de pedras quadradas bem polidas e todas pintada de cal que mais pareciam reluzir com a luz do sol ou da lua. Havia ainda um único banco todo em madeira envernizada e com algumas flores de cores fortíssimas e cheirosas, que se espalhavam pelo chão. Formavam um tapete ao redor do banco, e subiam os ramos verdes e vívidos por entre suas frestas. Ninguém alí conseguia entender ou ser capaz de explicar como aquelas flores insistiam em se manter vivas naquele ambiente tão inóspito e impróprio. Como aquele único banco nunca estragava e se mantinha sempre brilhoso com a resina que havia nele, ou como o cal das pedras nunca perdia a cor branca e brilhante. Mas eram. Se mantinham exatamente daquele modo, ano após ano. Desde que os primeiros habitantes chegaram alí, já havia aquela formação em forma de praça e ninguém explicava como aquilo se deu, apenas aceitavam sem questionar. Tão belo era que lembrava um rico jardim minuciosamente cuidado, cujo jardineiro nunca cansava. Cheio com cores diversas e aromas penetrantes que exalavam um refresco de renovo. Aquele recanto era a única coisa que havia por alí onde todos sentiam-se bem, confortáveis em viver, alegres, sorridentes e saudáveis. Até as crianças pareciam mais gordas e coradas, com boas roupas para vestir e bons calçados quando pisavam naquelas pedras e se punham a brincar e sonhar. Todos olhavam para sí e para os demais e animavam-se pela imagem que viam.

Um contraste esquisito em meio a tanto desolamento e tristeza, que se fazia presente para aqueles esquecidos e poucos habitantes. Quando entravam naquela praça, tudo isso passava a acontecer, tornava a existir. Até diziam “Tá na hora de recarregar a energia, ser feliz novamente, vamos para a praça da alegria!” No entanto quando saíam, todos voltavam ao estado de desolamento profundo, entristecidos como sempre foram.

Certa tarde, enquanto uma dúzia deles estavam sentados no banco da praça cantarolando e as crianças brincavam com brinquedos que acendiam luzes sentados nas brancas pedras confortáveis, observaram um homem alto vestido de terno novíssimo com sapatos lustrosos, chapéu côco e calça preta social. O modo como ele andava era vagaroso e formal, lembrando alguém que entendia de passarelas das mais altas modas mundo afora. Trazia consigo ainda uma trouxa de roupas nas costas. Todos que alí conversavam e sorriam cessaram imediatamente. A canção que cantavam parou. As crianças pararam de brincar e largaram os brinquedos ficando apreensivas franzido as sobrancelhas. O homem vinha falando sozinho e fazendo formas estranhas com as mãos e acenando para o nada. “Quem diabos nesse mundo viria até aqui? Durantes décadas, nunca ninguém além dos homens da saúde vieram até nós!” Disse um dos habitantes “Ele deve ter pegado a rodovia até aqui, mas de onde vem?” Falou outro. Sem dizer nada, os que estavam sentados no banco afastaram-se dando lugar de assento ao tal homem estranho que ao chegar, não cumprimentou com nenhum dos que estavam na praça. Apenas parou frente ao banco, sentou e pôs a trouxa de roupas no chão. Tirou o chapéu pondo sobre as pernas e ficou olhando rumo ao descampado imenso de galhos secos no horizonte, onde um pouco ao fundo apareciam os crucifixos malfeitos e imóveis sobre as covas do pequeno cemitério. Era um belo pôr de sol alaranjado. Os cabelos do tal visitante eram finos e pretos e pareciam estar sempre molhados. Todos olhavam admirados para ele sem falar nada, enquanto se fazia um silêncio agonizante que era quebrado apenas por um grasnar de ave carniceira que por alí passava ou som de grilos “- Eu sei o que passam!” Disse o tal homem sem denotar expressão na face, apenas com um olhar perdido e uma postura corporal refinada. Os outros que estavam ao seu lado, nada diziam. Continuavam do mesmo modo, parados. “- Sim, eu sei o que passam. Da dor que sentem, todos os dias…” Nesse instante ele levou as mãos ao rosto e abaixou a cabeça chorando, repentindo a última frase que acabara de dizer. Mas de súbito parou o choro, e continuou “- Calma! tudo haverá de passar se Deus com vocês estiverem não é mesmo? É o que todos dizem!” E começou a rir.

Nesse momento, os habitantes dalí que estavam ao seu lado também riram alto. Foi quando o silêncio deles quebrou. Mas de súbito novamente, o homem parou o riso e ficou sério, sendo sempre acompanhado por os outros. “Lembram do que falou Beckett? Lembram da velha árvore de galhos secos que ele falou? O silêncio que se faz aqui é absoluto… Mas mesmo assim o ar está cheio de gritos e choros” O homem falava isso observando o ambiente dalí, mas sem jamais olhar nos olhos dos outros que o escutavam. “Esse lugar, parece ser exatamente aquele, a árvore parece está bem alí. Foi onde esperaram aquilo que nunca veio. Vocês também esperam? Lamento dizer que nunca, nunca sob nenhuma hipótese ou condição virá! “ e fez o mesmo de baixar a cabeça e chorar repetindo a última frase, parando subitamente em seguida e dizendo ” Ou será que vem? Sempre é dito que a esperança é a última a morrer, não? Então esperem, esperem meus bons amigos! Morram esperando, há de vir!” irrompeu a rir novamente sendo seguido por todos, inclusive as crianças que riam e rolavam no chão. ” Parem!” Todos pararam novamente. “Foi! Foi também em certo dia, que acordei tão sem razão de existir feito o absurdo do real, que falei que nunca mais pararia de andar, nunca mais! E já estou vagando pelas estradas mundo afora, já fazem quase vinte anos, sem nenhum seguidor!” Baixou a cabeça outra vez chorando e repetindo “quase vinte anos, sem nenhum seguidor!” Subitamente parando disse baixinho “Ou, talvez eu pare não é mesmo? Sim, talvez eu pare meus amigos! Um dia todos param, não? Todos param um dia!” e riram todos novamente. Dessa vez o riso demorou um pouco mais. Foi quando parou outra vez e disse “É bem evidente que um ódio ancestral me atormenta sem cessar, todas as horas… Certa noite em que dormi no meio dos matos ao pé de uma velha ponte que rangia sem parar, sonhei que o Mein Kampf de Hitler era um livro de lindas poesias, escritas com a ponta de um chifre de bode e a tinta era sangue!
Sangue, entendem?” E chorou outra vez, de cabeça baixa repetindo “sangue, entendem?” Mas aí falou “- Talvez nunca tenha sido mesmo poesia, não acham?!” E todos riram novamente.

Cessou outra vez com uma seriedade estampada e disse “- Vocês certamente não saibam, mas há um vírus letal que está acabando com o mundo. Mas aqui estão protegidos, não se preocupem meus amigos!” dessa vez o homem não chorou, mas riu alto novamente e falou “Ou talvez não estejam tão protegidos assim, quem saberá?” No entanto dessa vez, ele riu sem acompanhamento dos outros até parar. O pôr do sol que havia com a chegada do visitante, ia dando lugar a escuridão da noite rapidamente. Foi quando ele levantou do banco e jamais olhando para os que estavam alí disse “Vocês deviam ter sorrido. Ter sorrido mais! Bem mais! Nunca se sabe qual será a última vez, eu também nunca saberei jamais! Tenho muita sorte de ter conseguido escapar do labirinto de casas abandonadas que me meti poucos antes de chegar aqui. Passei duas semanas preso lá dentro e tentando fugir dia e noite. Muitos que lá morreram iriam me aprisionar eternamente não fosse eu ter encontrado uma janela aberta e pulado rápido para fora! Me chamam outra vez… Conseguem escutar a voz? Parece até ser Choronzon! Me dá um horror visceral e tremendo, me arrepio por inteiro e sinto pena, toda vez que a escuto, toda vez! Mas tenho de obedecer, sempre!” E tendo dito isso, o homem pôs o chapéu na cabeça, pegou a trouxa de roupa e voltou pela estradinha de terra por onde havia entrado. Seguia olhando rumo à rodovia que ficava um pouco a frente, sem se despedir dos que ficavam para trás. Todos ficaram admirados olhando ele partir. O silêncio perturbador se fez novamente e o homem voltava sem fazer as formas com a mão, mas de cabeça rigidamente levantada e apurando os ouvidos como se desejasse ouvir algo que estava distante.

Quando ia chegando próximo à rodovia, passou um carro em alta velocidade cruzando alí e o homem sumiu na mesma velocidade em que a imagem borrada do carro gerou. Pareceram fundir-se em um só. Os que estavam sentados na praça perceberam no mesmo instante que as pedras lindas como eram, foram tornando-se uma a uma sem cor e brilho e tão pontudas que mais pareciam pontas de lanças. Os que estavam sentados no banco, caíram ao chão pois o mesmo tornara-se rapidamente apodrecido. As plantas coloridas e vívidas, tornaram-se apenas pequenos galhos secos e escuros sem cheiro algum. Os brinquedos sumiram das pequeninas mãos dos meninos. Toda a praça juntamente com os que estavam lá, fundiram-se ao restante da paisagem entristecida e sem vida que pairava sobre àquelas terras. O silêncio imperava sendo interrompido somente pelos muitos passos vagarosos e arrastados. Todos sairam andando maltrapilhos, cabisbaixos e com as mãos para trás. Foi quando um menino falou “Ele levou junto a única coisa que nos fazia se sentir bem não foi mãe? Eu gostava dos meus brinquedos que nunca tive… Como vamos sorrir novamente agora?” Quando a mãe respondeu “Não menino, ele não fez nada! Aconteceu porque tinha de acontecer mesmo, tá doido? Vamos aceitar sem reclamar!” E todos saíram na escura noite para suas casinhas, imaginando que nunca mais teriam aquele refúgio de vida e conforto. Mas pensavam “É, é assim mesmo. Acontece mesmo. Ganhando ou perdendo, só sabemos que estamos… Se foi o homem que nos tirou a praça ou não, o que faremos para mudar?” Imaginavam que ao menos no outro dia teriam o grão de duas cores para comer, algum gado vivo ou já morto pela seca para assar, e com mais sorte um urubu ou outra ave que pegassem na armadilha da carcaça com moscas. Sentir o vento quente que corria por alí e observar a enorme vastidão de árvores secas para todos os lados. Iriam todos ao pequeno cemitério enterrar algum dos seus que tivesse partido, ouvindo o mesmo grasnar de sempre das aves pretas do céu. Único som que quebrava o silêncio assustador dalí. Também iriam se banhar ou beber muita água do lago esverdeado, que ficava bem próximo às casas de madeira com cobertura de folhas de Coccoloba antiga. Os hábitos haveriam sempre de se repetir. A solidão e a sufocante forma como a vida insistia em existir por aquelas terras secas, seriam ainda a mesma. E a única fonte de alívio que os fazia transcender de toda aquela realidade dolorosa, sem explicações havia deixado de existir para nunca mais.

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