Cinco tentativas

A vida é um perpétuo desvio que nem sequer permite darmo-nos conta de que é que se desvia. – Franz Kafka.
I
“Um caso lamentável agora, pessoal. Um suicídio que foi registrado casualmente por uma câmera de segurança de uma farmácia, nos foi enviado agora pela manhã. O caso aconteceu ontem a noite na pequena e pacata cidade de Viçosa do Ceará, região norte do estado. Já na quase fronteira com o estado de Piauí. A polícia ainda investiga a motivação do ocorrido em tal local. A cena é forte, e em respeito aos telespectadores, deixamos a imagem turvada assim.”

Foi exatamente assim que iniciou o noticiário local de TV naquela manhã, na capital do estado, Fortaleza. Os noticiários de rádio em Tianguá claro, também comunicavam de igual modo a trágica notícia. Em toda a serra da Ibiapaba, somente Tianguá possuía um estúdio de rádio cujo sinal se difundia por muitas outras cidades. Em cidades pequenas, qualquer ocorrido com algum traço de relevância chega rápido a todos os ouvidos, em questão de minutos. Meu nome é Nebuloso, aquele que não está e está ao mesmo tempo. A névoa me recobre. Irei contar mais uma história, para quem quer que casualmente, venha a ler tal triste caso no qual vi e ouvi. Casos humanos sempre me fascinaram, não sei bem o porquê… Mas parecem sempre, tão bem armados em uma minuciosa teia complexa. Todavia, não recomendo esses escritos carregados de desgosto e desesperança de um pobre jovem que entrou em desequilíbrio. Razão de muito orgulho para seus pais e ademais familiares que moravam na capital. Talentoso e que acreditava em um futuro de sucesso, mas que de repente foi tomado totalmente por desarranjos emocionais e também subconscientes. Tornou-se uma vítima de si mesmo. Fugiu de sua própria consciência, uma vez que esta é por si só a base de toda a retidão e conformidade suprema. Sendo assim, há ainda coisas melhores a ler e inteirar-se… Alegrias pelas quais absorver.

Mas foi lá pelo fim do ano, algumas semanas antes das ruas das cidades começarem a ficar mais vivas com luzes e enfeites nas árvores e em frente as casas que é quando aproxima-se a data natalina, e das pessoas sorrindo se presentearem e cearem juntas, que Antony fixou em sua cabeça a idéia de que tinha de qualquer modo, falar com uma pessoa na qual ele manteve um relacionamento sério durante três anos e meio, mas que já tinham rompido fazia já uns dois anos. Mas falar exatamente o quê depois de tanto tempo? Se ainda poderiam reatar a relação? Falar que o que sentia por ela era mesmo amor? Pedir perdão pelos erros? Que não havia esquecido ela durante todo aquele tempo que haviam passado longe, e saber se com ela tinha sido igual? Ou apenas dizer coisas carregadas de ressentimentos e mágoas? Eu juro, verdadeiramente não sei. Apenas vi, e só. Sentido nisso que ele desejava fazer não havia mesmo algum. Mas o quê na vida faz? Assim então, também quem vivenciou o tal ocorrido depois, teve por encontro uma grande incógnita.
II
Saindo de Tianguá onde o rapaz morava até Viçosa, era uma rápida viagem até. Coisa de quarenta minutos por aí. Lembro de ter contado as vezes dessas suas idas até lá, que foram cinco no total. Sempre me perguntei também se ele contava, e se tinha algo com o número cinco. Ele tinha uma tatuagem pequena no pulso esquerdo com o mesmo número, com outra tatuagem ao lado que mostrava a estrutura de um átomo. E um caderno com suas anotações que foi achado em sua mochila pela polícia, estava lá o mesmo numeral, seguido por alguns papéis impressos com ilustrações de facas artesanais, de combate e bisturis. Na primeira impressão, na parte de cima da mesma ilustração, haviam cinco formas diferentes de bisturis cada uma enumeradas. Uma delas tinha a forma de uma pequena foice. Em baixo mais cinco, sendo que dessa vez com lâminas um pouco maiores. Antony era estudante de medicina e um amante da cutelaria. Possuía uma vasta coleção de facas de combate e camping. Em sua casa onde dividia o aluguel com um amigo, havia na parede da sala uma espada katana a qual lhe custou quase todas suas economias, e se mantinha presa a um suporte metálico fosco com uns escritos em Kanjis. Antony sonhava em um dia ser um neurocirurgião de renome. Já havia concluído seus seis anos acadêmicos em medicina e se ocupara até alí, já no último ano de sua residência medicinal. Que é o período no qual compreende mais cinco anos de especialização para quem deseja seguir esse segmento de profissão cirurgiã. Sua manhã toda era ocupada pela faculdade.

Pois das cinco vezes que Antony foi até Viçosa com o intuito de tentar a comunicação pessoal com sua ex, foram a noite. Cedo da noite, que era quando saía de seu estágio em uma clínica de pesquisas médicas. A primeira vez que ele fez tal ação, se deu em cinco de novembro. Alí próximo onde Antony estagiava, havia um ônibus de sua mesma instituição de ensino, que diariamente passava por lá quando seguia até Viçosa com uma remessa de alunos. Todo dia era o mesmo trajeto: Ia à Viçosa com uma quantidade de alunos, buscava mais e trazia para a universidade em Tianguá. Os horários de saída e chegada alternavam entre os três turnos do dia. Percebi que esse mesmo horário do carro quase nunca atrasava e quando ocorria, era só questão de minutos. Todos os alunos já sabiam que, quando o tal ônibus amarelo chegava naquela praça de poucos bancos quebrados, saía dalí em no máximo meia hora. Segundo Antony, com esse curto tempo já conseguiria o que desejava.
III
Nessa ocasião de cinco de novembro, Antony chegou e ficou na esquina da rua dessa mesma casa em que pretendia se aproximar. Ele observava a casa que ficava no segundo andar. Um calafrio e um embrulho no estômago lhe corria pelo corpo. Certamente uma voz em sua consciência que falava: “Volta pra casa cara, isso não tem nada a ver, vocês já se distanciaram faz tempo!”. Mas por outro lado, havia também outra voz que era a da emoção e obstinação exarcebada já perdida dos corretos controles da razão: ” Vai em frente cara! A vida é só uma mera passagem. O que tu há de perder com isso? Ao menos tu terás histórias pra contar um dia!” Anthony se sentia confuso, de verdade. Ele se manteve no mesmo local durante todo tempo, com medo de se aproximar e ver no que dava. Acho, que o maior medo dele era de algum familiar dela chegar na hora, já que ele sabia dos costumes deles que ainda deveriam ser os mesmos. Com a garganta um pouco seca, ele olhava a todo instante para os lados e bebia um pouco de água que ainda havia em sua garrafa. Não teve coragem, não naquele dia. Não podia vacilar com o horário… Voltou para a praça e pegou o ônibus de volta.

Três dias depois fez o mesmo esquema de pegar o ônibus, e foi até Viçosa pelo mesmo horário. Dessa vez foi pelo lado oposto da esquina onde antes havia ficado. Passou em frente a casa, a luz da sala estava acesa. Ele iria, dessa vez iria mesmo. Mas quando imaginou em ir até lá em frente e subir as escadas, olhou rápido para o lado e se aproximara uma moto que parou alí em frente. Era a irmã de sua ex e que, mesmo nunca tenha ficado claro, sempre detestou Antony. Mais uma vez, voltou para casa sem conseguir. Deu uma espera de uma semana com sua rotina normal, e tentou novamente em uma segunda-feira de clima quente. Dessa vez, Antony sentia o mesmo nervosismo de antes ou até mais, suas mãos gelavam. Atravessou a rua estreita como todas alí, abriu o portão que só se mantinha encostado e subiu as escadas sem pensar duas vezes, procurando não causar nem um barulho com seus passos apressados. Ficou parado em frente aquela porta fechada e a luz da sala acesa. Nenhuma movimentação aparentemente… Era escuro e facilitava que ninguém o visse alí. Embora ele sempre olhasse para os lados com medo de que alguém achasse estranho aquela movimentação, e gritasse perguntando o que ele desejava alí ou, pior, contasse depois para sua ex ou algum de seus familiares. Ele então aguçou um pouco os ouvidos e ouviu um som distante de água que caía no banheiro, pelo chuveiro. Uma fragrância boa de sabonete era presente até lá na área onde ele estava. Ao sentir aquele cheiro tão gostoso, preferiu até mesmo não sentir pois, ele lembrava perfeitamente de quando o sentia na pele de sua amada. Onde cheirava cada centímetro de seu pescoço tão macio e quente. Quando ficavam os dois tão juntinhos de mãos dadas trocando inúmeras carícias em tantas noites e locais da cidade, nas viagens que faziam juntos ou em casa, que pareciam durar por toda uma eternidade tudo aquilo. Eles mesmo todavia falavam que seria para sempre, enquanto ele punha o curtinho cabelo dela para o lado tão liso e preto, e ela retribuía passando seus finos dedos aveludados nos lábios do rapaz. O beijo que se seguia era sempre demorado e lento carregado por completo do pleno fogo de paixão amorosa. E quando Antony lhe falara “- Certa vez em um antigo livro que eu lia em algum belo lugar, lembro perfeitamente de que em um trecho lá escrito, já falava de nós dois meu amor…” “- De verdade isso amor? E o final da história falava também?” ” – Do final não lembro bem por mais incrível que pareça… Mas acho que, não importa tanto quanto o nosso agora… Je veux tellement t’ aimer!”

Ele então ficou parado alí naquela varanda de estreito corredor, tentando segurar alguma possível lágrima que desejasse brotar em sua face quando lhe ocorreu tais memórias. Antony tinha certeza de ser sua ex que estava no banho, sozinha em casa. Imaginava sua reação, ao ver ele alí em frente tão de repente e sem explicações. Ficou pensando se batia na porta ou se iria logo embora. Fez menção de bater mas desistiu, quando olhou para o relógio e faltavam dois minutos para voltar e pegar o ônibus.

Nessa mesma noite bem mais tarde, Larissa sua ex, tinha uma conversa com sua mãe na cama do quarto onde Antony horas atrás, estava atrás da janela.
– Acho que vou casar com Ítalo mãe. A gente namora a pouco tempo claro, e é tão cedo pra afirmar assim… Mas a gente tem conversado tanto. Ele sonha em ir pra Luxemburgo, e eu também! Sempre sonhei mãe!
– Que bom filha! Fico feliz que as coisas estejam tomando uma linha melhor pra você agora. Já que falam tanto e tudo, alguma data prevista pra ida ao cartório e tudo o mais?
– É… A gente tá pensando na próxima semana. Ele disse também, que o chefe dele pode conseguir mudar ele pra Europa, precisamente Luxemburgo sabe? As casas lá são tão lindas mãe! Eu vi na internet. Sem contar as condições de vida bem mais brandas, aluguéis e tudo!
– Sério filha? Hummm… Imagino que seja mesmo. Quero ver. O casamento com certeza será o mais lindo daqui de Viçosa, eita que eu já até me animo também!
– Com certeza. Ao menos com ele parece que vai dá tudo certo mesmo né mãe. Com Antony… Ah meu Deus! Foi tudo por água a baixo. Triste, triste!
– Não fale mais minha filha. Eu nem ia mesmo com a cara daquele garoto, e você sabe disso! Nem eu nem sua irmã. Ah! E você chegou a chorar algumas vezes também por causa dele lembra?
Larissa olhou com um certo olhar de mágoas para a mãe. Pois sabia que ela tinha muita falsidade em sua mente e atitudes, que haviam ajudado com o fim de ambos.
– É, e nem eu mais!
IV
Já era começo de dezembro, quando ele foi novamente àquela cidade. Ao aproximar-se na mesma esquina onde observava antes, viu algo diferente. Nenhuma movimentação ali, a luz da sala estava apagada, e havia uma placa “aluga-se” em frente. Antony sentiu um desconsolo nesse momento, era bem visível. Como iria fazer para encontrar ela agora? Porquê não falou logo enquanto dava? Porquê esperou tanto? Era uma cidade pequena claro. Mas muitas vezes para um mero homem, mesmo pequenas distâncias lhe confundem. Sentiu um certo desespero até. Um forte impulso lhe fez subir àquelas escadas e viu alí vizinho, uma senhorinha que estava sentada junto à sua porta com um pano no ombro. Antony perguntou a ela, onde o povo dalí tinham ido, se ela sabia. Ela deu uma pequena pista apenas, não sabia bem. Mas sabia que haviam saído fazia uma semana, e moravam agora próximo à uma venda de flores de nome “Dammasco”. Ele agradeceu-a e sentiu-se esperançoso novamente. Andou algumas ruas pedindo informações onde ficava a tal venda de flores. Lhe informaram onde era e que naquela hora já se encontrava fechada. Antony dobrou em uma esquina e viu a tal lojinha, tão bonitinha com um ipê na frente e uma arquitetura barroca que dava gosto em olhar. Antony olhou para o lado enquanto observava, e viu uma moto rápida que se aproximava do outro lado dobrando a mesma esquina, onde parou frente a uma casa de portão preto e adentrou alí. Era a mãe de sua ex.

Antony esperava o ônibus em frente a instituição, com um buquê de flores brancas e amarelas e um par de alianças finas de prata, no bolso. Havia comprado naquele mesmo dia mais cedo. Era uma tarde de céu limpo de dezembro. Ele sentia-se bastante nervoso… Havia tido a certeza de onde era a casa de sua ex na noite anterior, e agora iria tentar reaver-se com ela. Apostando por completo que daria tudo certo. Dentro do ônibus já próximo à Viçosa, ele observava a paisagem do pôr do sol que se estendia no horizonte. Uma aluna que estava ao seu lado bastante pensativa, olhava para fora da janela. Antony tentava se acalmar.
– Você faz engenharia ambiental né?
– Não não, faço letras.
– Ah entendi… Um amigo meu também faz esse mesmo curso. Confundi então … Que frio né?
– Desculpe moço, as vezes sou assim …
– Assim? Mas eu falei do clima moça.
– Nem percebo sabe? eu vivo com frio mesmo … Ei! Tem algo de diferente e triste no seu olhar moço … Me lembra um fim. Me deu uma pena de você até, agora… – Como assim moça? Disse Antony – Que história é essa? Eu em!
Antony desceu naquela praça de poucos bancos um pouco mais confiante. Com as flores na mão, seguia para a tal casa onde havia se certificado ser a de sua ex. No caminho à tal casa, Antony viu que ainda estava aberto uma loja. Era bem arrumada, toda de vidro na fachada, uma bicicleta com arranjos florais que chegavam até o chão e uma placa na calçada onde oferecia alguns serviços. Dentre eles: “Sua mensagem personalizada aqui no nosso carro de mensagens! Fale conosco!”
Antony parou por um instante, entrou na loja e pediu uma mensagem para um endereço específico, onde lhe informaram que dentro de uns quinze minutos sem falta estariam lá. O rapaz cansado chegou a esquina da casa e sentou-se sem atravessar a rua. Sentia-se contente. Iria esperar o carro de mensagem chegar e então bater palmas e torcer para que desse tudo certo. Nesse mesmo instante, Antony reparou em um carro preto luxuoso que se aproximava e parava em frente a casa. O coração de Antony disparou. De dentro do carro sairam a sua ex e um rapaz alto e loiro. Deram um longo beijo alí em frente e adentraram a casa. Ela segurava uma pizza e outras compras. Antony levantou com as rosas na mão e saiu dalí subindo uma rua escura.
V
Nesse meio tempo lá em Tianguá, Fernando o amigo que dividia a casa com Antony, tomava umas cervejas em um bar cuja decoração era toda trabalhada na madeira envernizada. Ficava ao lado da igreja da Sé. Conversava com seu amigo Jonathan.
– Eu nunca tinha provado essa cerveja artesanal Fernando. Pena lá onde eu morar não fazerem delas… Consegue um fardo pra mim?
– Consigo sim cara! Vai embora domingo né? Ainda temos dois dias, dá tempo de eu falar com o cara que faz.
– Ótimo. Cara, tenho que ser sincero… Já estou ficando bastante legal com essas cervejas. Zonzo mesmo!
– Pois que bom meu caro, porque eu também, e é sensacional! Quer que eu recite Tchékov como nos velhos tempos?
– Ah sim, por favor Fernando…
– Essa igreja é bonita… Me lembrou esta passagem: ” Devem pensar que leio até na igreja, mas aqui não me sinto vivo. Adormeço ou entro em devaneios, sem controle, incapaz de retornar à terra, feito um balão…”
– Que sensacional, lindo lindo! É muito bom te ouvir meu amigo, sempre gostei… Eu também decorei um para ti, ouça: “Os russos adoram o passado. Odeiam o presente e temem o futuro. Ah se esquecêssemos que o futuro que tememos, lentamente se transforma no presente que detestamos e no passado que adoramos…”
– Bravo Jonathan, bravo! Maravilhoso trecho! Não sabia que estava a ler Tchékov…
– Li um pouco ontem à noite… Que bom que gostou… Ah, tenho que lembrar antes que a gente se vá! Seu amigo Antony cursa medicina, sim?
– Sim sim. Deseja seguir carreira como neurocirurgião. Já está em estágio até… O cara é bom!
– Então eu acertei no presente! Pois bem. Veja aqui que eu trouxe para ele um livro de presente com dedicatória e tudo. Trata- se do livro de Gordon “Great medical disasters” de 1983. Fala sobre Robert Liston, um cirurgião escocês do século dezenove, que ficou famoso por amputar a perna de uma paciente em menos de dois minutos, crer nisso?
– Uau! Nem para mim um presente desses em? Estou brincando. “Disasters”? Bem sugestivo o título… Já até imagino o que ocorre quando esse tal Liston tá em cena. Certamente Antony vai adorar! Quando ele chegar hoje eu já entrego, pode deixar.
– Que horas ele chega?
– Já era pra ter chegado a muito tempo… Ele tá meio estranho sabe? E já faz dias. Chegando tarde e com um jeito bastante preocupado. Tentei saber o que se passava, mas ele não me relatou nada. Estou muito preocupado sendo sincero… Vou ligar para ele… Quando chegar vamos tentar conversar. – Sim, conversem mesmo… Até gostaria de ver ele amanhã.
Quando os dois amigos já iam embora dalí, o sino da catedral tocava alto e pausadamente.
– É… Lindo som… Devo te dizer Jonathan, que tal som faz lembrar de minha doce infância, e também é a única lembrança que tenho do que seja fé…

Antony ia subindo a silenciosa rua escura tendo como companhia as estrelas do céu e um buquê de flores brancas. O único som que se fazia presente alí era o de seus próprios passos. Achava incrível como, todas as ruas daquela cidade o faziam lembrar de Larissa. Cada ponto, cada esquina. Ele estava arrasado. Falava sozinho e se auto dizendo um idiota total, que para ele não tinha mais jeito. Ao olhar para o céu, a solitária “estrela da manhã” ainda era bem visível em junção do horizonte crepuscular.
– Sou um burro completo, apostar no que não sei, no que não vejo! Me sinto como um Orfeu idiota que vive olhando para trás em busca de uma Eurídice que não é para mim! Realmente só mereço a condenação de Hades… O erro fatal e incontrolável é sempre o de passar a existir!
Quando chegou ao final da mesma rua declivosa, constatou um bar de bebida barata que tinha tanto as paredes da frente quanto as de seu interior, descascadas e destioradas. Estava aberto e vazio com um velho bêbado do lado de fora. Antony foi até o bar. O velho bêbado falava que sua barriga doía de fome e insistia para que o dono do bar lhe desse um pequeno pedaço de carne que estava assando. Foi quando o dono falou
– Sai daqui imundo! Carne não tem, mas se quiser te dou um pedaço de brasa ardente!
O velho foi sentando ao chão devagar com suas costas passando pela parede e virou sua garrafa de cachaça na boca fazendo caretas. Ao mesmo instante, apareceu alí um cachorro muito magrinho grunindo e que se pôs a lamber as pernas do velho. Antony foi até o balcão onde pôs as rosas e mandou que o dono do bar lhe botasse alí um litro completo de vodka. Ele tomou cinco doses seguidas e cheias.
– Vai com calma garotão, tá querendo morrer é?
– É, não seria uma má idéia… Kafka já havia me dito, o que estava nos horrores dos nossos dias, nos nossos sonhos mais profundos e tristes… Uma estrela pálida e estranha, que não se apaga…
– Hum. Bonito amigo. Mas esse homem aí que você falou não conheço não! Se quiser algo me fala, vou continuar assando a carne pra eu comer, só pra mim! E saiu rindo até a churrasqueira.
Antony encostava sua cabeça no balcão e chorava de forma silenciosa, chorava bastante. Naquele mesmo momento pegou o litro onde iria guardar na bolsa, quando encontrou ali dentro uma faca de modelo karambit que havia posto dias atrás afim de mostrar para um amigo. Ele foi ao banheiro, pôs a lâmina no bolso e saiu do bar onde pegou o litro restante juntamente com uma nota de cinquenta reais e entregou ao velho bêbado que já se encontrava caído ao chão tendo ainda ao seu lado o cachorro magrinho. O velho o agradeceu muito com uma voz arrastada e penosa.
Naquele momento o ônibus que Antony pegava todos os dias, certamente já havia partido fazia tempo. Já eram mais de sete da noite. Ele descia cambaleante aquela rua deserta em direção a casa da ex, parecia desolado. O teor do álcool ganhava força gradativamente em seu cérebro. Seus pensamentos em remoinho total dentro da cabeça e seus olhos vermelhos pela irritação tamanha que o choro que ainda não havia cessado de todo, lhe causara. Quando chegou à esquina, a moça do carro de mensagem acenou e sorriu alegremente para ele mas Antony parecia não ver, pois não respondeu. O carro iniciou a expressão romântica com uma bela música melosa de fundo. O volume era bastante alto. No justo momento em que Antony se aproximava do portão, sua ex estava na área com o namorado, de chaves na mão já afim de abri-lo e sair. O carro luxuoso parado. Antony parou em frente ao portão e sua ex deu um grito de susto.
– Antony! O que tá fazendo aqui? Tá louco chegando assim? Vai embora!
– Ele que é seu ex? Um bebâdo desses? Vai embora daqui cara, ou vai querer piorar a situação?
A mensagem bonita nos autos falantes do carro continuava.
– Eu escolho piorar a situação! Nosso relacionamento pode ter sido complicado Larissa, mas eu te amava. Sempre te amei! Sei que já faz um tempo que terminamos, mas infelizmente o tempo não me ajudou. Levei esses últimos dias tentando te ver, tentando te encontrar! E quando consigo, tenho a certeza de que realmente não havia mais chances para mim, me cansa agora tentar mais algo já que é inútil… Ah Larissa! A droga do perfume do teu corpo nunca deixou de habitar as minhas narinas!
– Vai embora Antony, eu nao quero saber das tuas conversas tá? Pelo menos não mais! Já faz dois anos que terminamos cara! Eu vou embora para o exterior com o Ítalo, eu o amo. Como assim chances para você? Me vem com flores? E ainda me aparece bêbado! Acho que nunca te amei para falar a verdade!
– Eram flores para celebrar nosso amor, só que agora servirão para enfeitar meu túmulo. Eu ia te pedir em casamento, mas a aliança também vai decompor junto à mim. Quer tanto que eu vá embora? Pois bem, irei. Mas não com minhas pernas, uma equipe virá me buscar com essa rua aqui toda fechada e cheia de curiosos como cenário. Como já dizia Nostradamus, antes do nascer do sol eu não estarei mais aqui… E ainda quero que saiba Larissa, que eu costumava… sonhar com você …
Ao dizer tudo aquilo, Antony retirou a lâmina que estava em seu bolso e passou com uma enorme precisão e rapidez em seu pescoço. O sangue esguichou para muitos lados e sujou o portão, a cerâmica branca e o casal que presenciava a cena tomados por grande horror e sem reação. O efeito das muitas luzinhas coloridas do pisca- pisca que enfeitavam a frente da casa, refletia no vermelho escuro de sangue logo alí em frente. Antony caiu agonizando na calçada junto com as flores que de brancas, tinham se tornado enegrecidas pela mesma poça de sangue. O carro de mensagens românticas e belas, cessou o som imediatamente e a moça desceu do carro com as mãos na boca e os olhos arregalados sem acreditar no que via. Naquele momento ao fim da rua onde havia um declive, estava um carro branco parado e atrás dele, se projetou uma figura humanóide de medonha estatura e fortes feições físicas, com um capuz igualmente grande que pendia sobre a testa. De aspecto totalmente escuro e empoeirado, a silhueta permaneceu perfeitamente estática com a cabeça bastante inclinada para um lado de modo que tocava o ombro e com as mãos bem cruzadas logo abaixo do abdômen. Manteve-se daquele modo por um certo tempo até que por fim, sumiu por completo com a mesma rapidez com que surgiu. Era possível ouvir um burburinho forte e contínuo de lamentável comoção na esquina, nas áreas das casas e na rua. Alguns cães também latiam alto nos quintais. Lembro bem de ouvir alguns latidos de cães nos quintais.