Eu estou

Eu estou no desespero ao alto de duas torres que queimam, ou na angústia gelada de um condutor em um módulo que explodiu no espaço.
Em um corpo que incendeia preso por uma corda ao pescoço, em um porão com fortes linhas inquebráveis que rasgam agora meus antebraços.

Me via ainda no coração de pescadores que se perderam no oceano, e agora já sem forças imploravam para que algum Deus os livrassem do azul abissal.
Nos olhos já sem vida do homem que escolheu o mal caminho, e agora pelos algozes sua cabeça rolava ladeira abaixo as margens de um matagal.

Também no coração aflito de uma mãe irresponsável que chora de fome pelas calçadas com quatro filhos, onde todos alí passam sem que nenhum os veja.
Ou na tolice de um rico que gastou tudo em álcool e agora cai e se corta todo por cima de cascos de whisky e cerveja.

No pensar de um ateu que por um acaso se converteu, e agora viverá a passar seus dias em interrogação procurando sua posição pela existência.
Estou também aos braços e abraços de um casal que tanto falou de amor, mas que agora tudo que resta são lágrimas e lamentações com insistência.

No choro sem consolo de uma mãe que perdeu algum filho amado e agora não acha gosto algum em comer e viver.
E ainda na certeza da morte iminente de algum mergulhador que submergiu pela última vez, e agora só resta oxigênio extravasando perdido em ouvir ou ver.

Estou na mente intrigada do físico que reluta a cada instante de sua velhice para entender o paradoxo da fissão do átomo. Na carne que queima com gases tóxicos no horror da guerra, com soldados entrincheirados e sem esperanças dentro de um sujo buraco.

Me encontro também nas lágrimas da esposa que sofre todos os dias com o marido bêbado que a humilha, espanca e a mata aos poucos. Também estou no olhar da criança inocente, raptada pelo sequestrador que a ver com perversão levando-a para longe dos outros.

Estou ainda na última palavra do revolucionário que para guilhotina foi condenado, esperando os segundos pela sedenta lâmina afiada. Me faço presente em cada centímetro de pele das bruxas que queimaram vivas, pela inquisição da igreja em sua estúpida piada.

Estou ainda no piloto de avião que cometeu vários erros na aeronave, e chora agora ao saber que não há escapatória naquelas enormes alturas. Me vejo no paraquedista que sofreu pane, e agora se enrosca todo em queda livre ao olhar para baixo e não imaginar tais mensuras.

Estou no coração daquele que escolheu fumar durante toda a vida, e agora luta inutilmente ao bipe da máquina cardíaca de UTI. Me vejo naquela criança cujos dias são sofrer com um maldito câncer mas já em fase terminal, e sua família se desfaz em lágrimas logo alí.

Estou naquele que abusou de muitas cartelas de tarja preta afim de apagar e não ter mais nunca que pensar. Estou naquele que sofre de insônia, e passa as noites em claro irrequieto pensando e a sonhar.

Estou nos gritos do lunáticos no fundo de um sanatório mofado e esquecido. Estou ainda naquele que foi injustiçado pelas leis, e sofre agora no fundo de uma cela suja com poeira e restos apodrecidos.

Estou naquele pobre escravo pego pelo senhor de engenho, e agora sofre preso ao tronco com o corpo lavado em sangue o peso de duzentas chicotadas. Estou naquele que foi vítima da antiga covardia, e agora sem chances leva inúmeras facadas.

Estou em um cachorro que sofre de frio e de fome ao relento da noite, sem que ninguém se importe. Estou no coração temeroso de alguém que volta para casa na perigosa noite, arriscando a própria sorte.

Estou ainda naquele que não resta mais nenhum resquício de esperança, e adentra sem medo na Aokigahara fria e sombria. Me vejo naquele simples cidadão que ao andar por uma rua de Nagasaki, presenciou algo pesado que caía dos céus em uma manhã de quarenta e cinco antes do meio-dia.

Eu estou na instabilidade do elétron que une sua violenta explosão. Na composição do átomo em sua infinita e fantasmagórica formação.

Aquele golpe certeiro foi mesmo para me matar, no entanto ainda estou… Estou na noite estranha e fria na qual o poeta ainda escrevia …

Estou na última nota da canção penosa em que Tartini tocaria …

Estou nas pinceladas fortes em que Van Gogh lançava enquanto ainda sorria …

Nesse instante, acordo de repente de um pesadelo vívido que parecia interminável no qual eu vivia todas aquelas situações, para tentar escrever apenas mais um verso.
Este é o penúltimo e caso não venha a ser visível o tal último, certamente morro agora subitamente e minha essência se esvai para a mesma matéria escura a qual compõe o universo.

2 comentários em “Eu estou

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