Abominável visão do fim

Era por volta de uma e meia da manhã em cinco de maio de 2019, quando o alarme do celular de Armânio Nicoll disparou. O som lhe trouxe incômodo e o fez acordar de modo perturbado e desnorteado, semelhante ao sonho estranho que lhe permeava o inconsciente até o momento. O brilhante estudante e pesquisador astrônomo, havia ajustado a hora para o mesmo alarme uma semana antes, mas por haver formatado o aparelho um dia atrás necessitou reativá-lo. Armânio, jovem alto e magro de um carisma altíssimo, muito conversador e bom observador. Assuntos sobretudo ligado à física quântica e literatura fantástica, estava dentre suas conversações sempre que encontrava algum dos seus amigos ou qualquer um que fosse um entusiasta dos mesmos pensamentos. Bem jovem ainda, tinha lá pelos seus 24 anos e usava agora um óculos de armação prateada com detalhes em azul. Se denominava um cético, embora até certa altura de sua adolescência se considerasse um ateu convicto. Certamente algo em seu pensamento disparou em uma sucessão de eventos formando uma revolução, até chegar ao ponto que estava: um cético não convicto. Não convicto pois, por hora ou outra, alternava todas suas mais profundas certezas em longas e potentes reflexões especulantes.

O motivo para a pontualidade em acordar foi ter a certeza, da passagem da terra por uma região de grande concentração de poeira cósmica deixada pelo cometa Halley. Ficou sabendo do evento em uma matéria destaque do site Scientific American do qual era leitor assíduo e até tinha vários exemplares no armário de seu quarto. Umas que ganhara de aniversário e muitas outras compradas em alguma banca da cidade. Ele é claro, não poderia perder a divinal e extraordinária experiência visual que o cometa arrastava consigo pelo tecido do espaço, e que era de enorme vislumbre para qualquer um que olhasse. Sem mencionar o fato que lhe ajudaria a escrever seu obrigatório TCC de forma vívida e prática, que era além de uma série pormenorizada de muitos eventos cósmicos e a confecção de um pêndulo, também pedia uma descrição detalhada do rastro do cometa chamados de Eta Aquarídeos. Ele então pegou seu celular rapidamente em seu criado mudo, e desligou o alarme que tinha ao título “belos detritos no céu!”. Como se sentia um tanto cansado, sentiu a devida preguiça para levantar-se mas logo fez força e se autoanimou.

-“Coragem Nicoll, você consegue! Se perder essa passagem, só daqui a setenta e cinco anos…e você não existia ainda em 1986 para que tivesse presenciado o cometa de fato!”

Certamente seu melhor amigo Bernad também iria ver o fenômeno nos céus e muito provavelmente já estaria acordado, se é que havia dormido com tanta ansiedade ao qual transpareceu antes. Quase toda noite ele se dedicava aos documentários que fizesse assunto ao cosmos, ou alguma leitura extra até dá sono acerca de Richard Dawkins ou Stephen Hawking. Fato é que, assim como Armânio, o jovem rapaz também sofria de forte insônia. Em sua cama, Armânio viu que havia alí sob seu travesseiro dois livros já bem desgastados e que lia a poucos instantes atrás que eram, Delirium tremens de Edgar Allan e A cor que caiu do céu de Lovecraft. O copo que antes havia água, estava ainda sobre o criado mudo com uma cartela agora vazia de algum medicamento sonífero que ele se medicava já havia algum bom tempo. Como efeito colateral dos medicamentos, sentia tonturas e vertigens em momentos nada oportunos além de enjôos que lhe chegavam de forma repetina sem nenhum motivo aparente.

O jovem rapaz era mesmo um amante da literatura grotesca e perturbadora. Alguns pôsteres em seu quarto deixavam isso bem claro como, um todo feito em tecido veludo de um enorme gato preto que olhava de forma penetrante para frente. Ainda um outro em papel laminado brilhoso do mito horripilante Lovecrafttiano conhecido pela palavra Cthullu. E alguns outros mais seguindo o mesmo estilo estranho de padrão visual. Há de se mencionar também vários artigos decorativos de cunho científico: um globo cor de ouro que tentava mostrar a terra na idade média, um pêndulo de Newton, o crânio de um macaco verde da África, um outro pêndulo magnético em bronze, e um outro cinético e várias amostras de estromatólitos em conjuntos sobre outros de cores mais claras ou mais escuras. E as centenas de livros que possuía, dentre os quais, toda a obra de Lovecraft incluindo raros artigos sobre o autor e O mundo assombrado pelos demônios de Carl Sagan, este último em destaque ao lado de um pequeno abajur branco, dando a entender que tinha sido lido ou que ainda estava.

Armânio levantou e foi caminhando até a cozinha onde pôs seu celular em cima da mesa, e o copo do lado. A cozinha de aspecto escuro mas bem limpa, ficava logo antes de uma varanda que dava para os fundos da casa. Uma porta de vidro de uma fina expessura até mesmo para os padrões de uma porta, separava esses dois últimos cômodos. Armânio foi até a varanda onde observou o céu límpido com as suas milhares de estrelas. Uma brisa suave moveu as folhas alí próximo, e tocou seu corpo. Mas de primeira até alí, nada do fenômeno ele conseguiu observar. “- já aparece e eu verei claramente, o céu está bem limpo.” pensou ele. Mas alí de cima da varanda sua visão era limitada para o lado norte acima da casa, e ele logo imaginou que alí não seria o local exato para a observação. O melhor local com certeza seria logo alí em baixo no quintal coberto por grama. Antes de descer o segundo andar da casa, o jovem pegou seu celular e mandou uma mensagem ao seu amigo Bernard: “E então, já tá observando o céu? Já viu o fenômeno?” Mas não teve de prontidão uma resposta, e ficou no aguardo. Enquanto isso foi a sua sala, onde estava seu telescópio adquirido por ele a uns dois meses atrás e que daqui a uma semana seria usado em um evento de exposição na faculdade. Era um telescópio newtoniano, de acabamento vermelho fosco dotado de excelente potência ocular. E pelo pouco tempo que ele possuía, já havia até observado algumas lindas nebulosas. Vestiu uma blusa pegou o aparelho e desceu as escadas da casa, onde chegou ao quintal e lá montou rapidamente o telescópio. Observou uma, duas, três vezes e nada. O céu só contava com a presença das estrelas, e assim ficou. Isso durou por quase vinte minutos. Uma ligeira e inexplicável tensão percorreu seu corpo, era como se agulhas espetassem sua pele. Passou a mão na testa, estava suando frio e não sabia bem o porquê. O que estava acontecendo? E por qual motivo não conseguia ver o tão esperado fenômeno? Havia se enganado quanto à data? Impossível, a NASA não poderia ter divulgado uma falsa matéria.

Respirou fundo três vezes, e tentou acalmar-se daquela horrível e breve sensação, mas ela parecia aumentar. Posicionou a lente para um outro lado, e olhou. Agora viu o que julgou ser uma colossal sombra atrás de muitas nuvens densas que se formavam a sua frente. Ao ver a tal sombra sua boca secou e a tensão só aumentou, fazendo sua mão tremer no telescópio. Por um momento pensou estar ficando louco. Mas fechou os olhos por um momento, e tornou a olhar. Agora as nuvens se dispersavam de forma lenta porém, revelando de forma mais nítida a estranha e enorme sombra que continuava aparentemente parada atrás delas. Porquê não sumia junto as nuvens? Armânio não acreditava no que estava vendo. Será que continuava a dormir e começava alí um pesadelo? Abriu os olhos como alguém que deseja fortemente acordar de um sono conturbado. Mas estava acordado, bem acordado. Pois olhou novamente pelo telescópio, e via agora claramente uma figura que ele reconheceu de imediato. Era a destruição, o fim, o apocalipse encarnado, era cthullu. O tal ser que era cosmicamente improvável e biologicamente impossível, mas que era. Os horríveis tentáculos negros da entidade maligna com suas escuras asas primitivas, iam até o extremo do horizonte noturno onde o jovem ao olhar boquiaberto, não conseguia ver um fim. A visão monstruosa que lembrava um polvo se projetava de lado, olhando para o lado leste das montanhas, tendo a casa do jovem como referência de cordenada. Era uma noite sem lua, mas ao redor dessa monstruosa figura parecia haver um contorno de luz, lembrando um cinturão de estrelas reluzentes. Dando o real destaque da entidade cósmica. Ao mesmo instante ele lembrou então de Lovecraft, e pensou consigo mesmo embora nunca houvesse mesmo desacreditado completamente “-então era verdade meu Deus! Sempre foi! Eu só desejava ver detritos de um cometa, e acabo vendo isto!” Ele gritou de horror o mais alto que pôde de uma forma inesperada, não pode embora tentasse, se conter.

Nesse instante sua alma certamente foi invadida e se absorveu de insanidade mortal, delírios de morte e um ódio por si mesmo misturado à uma repulsa por ter visto tal abominação celeste. Uma mórbida vontade de ranger os dentes tomou conta de sua mandíbula, e ele saiu correndo escadaria acima chegando novamente a sala de sua casa. Levava as mãos a cabeça de forma desesperada, onde arrancava muitos fios de cabelo. Ele tentava assumir correta postura e acalmar-se, mas algo no âmago de seu ser o deixava loucamente inquieto. Seria apenas uma alucinação decorrente do uso frequente de medicamentos calmantes em junção ao cansaço rotineiro? Ou um pesadelo lúcido do qual ele não conseguia acordar? Pelo menos tentou. Ele imaginava tudo isso, ao mesmo tempo que sabia que segundo a lenda de cthullu, quem chegasse a ver a tal entidade morreria submerso em loucura. Mas ele não sabia bem o que de fato estava ocorrendo alí e cada segundo parecia tudo mais confuso. Ele correu para a mesa procurando por seus comprimidos mas não havia nenhum. Correu a mão pelo armário derrubando utensílios diversos e recipientes de vidro. Alí achou duas caixas do medicamento, ele iria tomar e ficar tudo bem como das outras vezes que se sentiu ansioso. Mas ao abrir, constatou as duas vazias.

Ouviu logo em seguida um zumbido em seu ouvido que pareceu tomar conta de toda a casa, acompanhado por um som que lembrava uma voz grave e gultural. Isso ainda se repetiu por umas 6 vezes. Ele então passou a mão pela cabeça descendo pelo rosto e correu ofegante em direção à fina porta de vidro da cozinha e se atirou com todo o peso de seu corpo em direção à ela. A porta como era de uma fina composição, quebrou na hora rasgando a cabeça e o peito do jovem, liberando estilhaços para fora da área e para dentro da cozinha. Seu corpo passou arremessado para o quintal onde caiu de cabeça ao lado de seu telescópio, quebrando imediatamente o pescoço.

O telescópio continuava apontando para os céus no mesmo ângulo, e qualquer um que fixasse o olhar pela lente ocular poderia ver o belo Eta Aquarídeos cruzando a noite. Os grilos cantavam tranquilamente no gramado do quintal, a brisa suave continuava e a lua apareceu timidamente para o lado norte por trás das nuvens, no calmo céu que se estendia. E o cenário de uma morte misteriosa e horrível em destaque logo alí em baixo. O celular de Armânio continuava sobre a mesa da cozinha e recebeu nessa hora então, uma mensagem de volta “- Olá Armânio! Cara me desculpa a demora meu celular estava descarregado. Mas eu ví sim o lindo Eta Aquarídeos, foi fantástico! Até consegui umas fotos com minha Nikon. Esse TCC vai ser mole. E você viu tudo também? Deu certo?” Havia sangue e vidro no chão da cozinha, e o relógio marcava duas e meia naquela madrugada de cinco de maio.

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