Um verso do andarilho

Era um dia vago onde vagas pessoas caminhavam ao meu redor. O sol sim bem presente sobre todos. E eu caminhava pela orla da praia, enquanto observava as andorinhas, sabiás-da-praia e os maçaricos tão felizes na entonação de seu lindo e distante coral. Distantes mas tão presentes e plenos ao mesmo tempo. Foi que então avistei aquele hippie que parou na calçada e rapidamente com suas mãos ágeis lançou ao chão suas muitas mercadorias. Tantas coisas trazia consigo… Entre histórias e muitos lindos artefatos. Fui andando até ele e comecei a observar tudo o que alí havia, ao chão, sobre um fino pano branco que mais parecia um refinado cetim.

Duas uma: ou ele acompanhava meu olhar que expressava profunda curiosidade sobre suas coisas ou, sem outra explicação, lia meus pensamentos. Foi o que senti. Pois em cada uma que eu bastasse olhar, ele me contava uma breve história à respeito delas.
Até que parei a vista sobre um lindo coral branco, de aproximandamente uns dez centímetros. Lembrava uma grossa escama milimetricamente calculada e feita sem nenhuma pressa pelo mais habilidoso artesão. Tarefa simples para a imensa e rica natureza. “Essa aí eu consegui de um pescador, que havia se tornado cozinheiro de um luxuoso cruzeiro, então cessou um tanto o seu labor. Ele me disse ter trazido diretamente das águas cristalinas do Mar de Azov, e que por lá todos os frutos do mar e quem desfruta, tem mais sorte!” Fiquei fascinado com a peculiar forma de falar do hippie. Pondo rima após rima, como um livro ambulante de poesias… Um andarilho poeta perdido! E continuou “É uma pequena região ao norte do mar negro ligado a ele pelo estreito de Kerch. Tem ao norte a Ucrânia, e a leste a Rússia. Ao oeste pode se ver o extenso amarelo das areias bem mais quentes!” Desenhava cada coisa que ele detalhava nas linhas e páginas de minha mente!

Olhei novamente para o coral. Naquele exato momento, tinha certeza de uma coisa: desejava ardentemente aquele objeto. Guardar comigo para sempre! Embora… “para sempre” seja uma palavra muito grande para quem é sempre tão minúsculo. Quem sabe toda vez que eu tocasse no coral ouvisse uma linda história dos mares distantes, ou o maravilhoso ronco sagrado dos oceanos. Mas sem dinheiro eu estava e nem mesmo bolsos no meu calção restava. Infelizmente tudo alí era para venda. O hippie podia ser um ser iluminado, sim. Mas também precisava do poder passageiro do dinheiro. “Eu queria tanto levar esse coral, muito mesmo! mas não me encontro com dinheiro…” Foi que já bem próximo alí o tempo vinha de longe fechando em nuvens esparsas e escuras. Ouviu- se um trovão, e seguiu- se mais. A chuva iria cair e forte. “Fico triste com isso meu amigo, isso devo lhe contar. E bem sabes que sem dinheiro nessa cidade desalmada, não há como me alimentar!” Poderia ser que eu conseguisse comprar outro dia, poderia… No entanto, talvez eu nunca o visse mais. Seria o mais provável… Ou, eu chegaria a vê-lo e ele não. Ou ele me veria, e eu não. E assim se fizesse.

O temporal vinha rápido com a brevidade do vento gelado. Ele rapidamente começou a juntar suas coisas e pôr em sua mochila toda enfeitada de penas e búzios. Ia embora é claro, sem que ninguém soubesse o destino, antes do temporal. Fiz questão de ajudar. O vento batia forte em nossos corpos e em que alí passasse buscando se proteger da chuva iminente. Balançava árvores, palmeiras e os inúmeros coqueiros que alí haviam. “Agora devo ir meu amigo! Pois contam os cronistas que do lado de lá, as chuvas deslizam geladas e intensas para cá. E não há terra sobre terra que deixe de se banhar!” Dei um largo sorriso com isso, aquele encontro me inundou de alegria!

Não me sentia bem assim já havia tanto tempo! Aquele hippie carregava consigo a essência real de muitos outros poetas livres, disso eu não duvidava. ” Tome! Fique com essa pedra reluzente olho-de-tigre que consegui da Costas dos Esqueletos, na Namíbia. Um local tão remoto e seco, onde só quem habita são caçadores e coletores seminômades da tribo de Himba!” “Não há como medir em agradecimento, meu caro, tamanha grandeza desse pequeno ato! Adeus meu amigo! foi uma honra ter lhe encontrado aqui hoje!”
Dito isso, a chuva caiu aumentando sua força gradativamente. Ele seguiu, correndo rápido pelo outro lado da avenida com suas coisas sobre as costas. Onde depois de um carro branco passar, ele sumiu. Procurei por outros ângulos, até me abaixei para tentar ver seus pés apressados através dos carros alí parados, mas em nenhum momento consegui vê-lo mais. Além de a chuva tornar tudo mais turvo. Eu não corri afim de não molhar-me… Fiquei alí onde estava, e a chuva caía sobre mim. Molhava- me, assim também como a linda pedra era lavada. Imaginei que agora ela ganhara umidade que em seu seco lugar de origem não lhe era permitido. E eu a observava, sem me importar em molhar-me. Ela parecia brilhar mais forte com aquela água gelada. Estonteante pedra raríssima de se achar. “Agora que parei, reflito. Ninguém mais parou para comprar algo do hippie pelo o tempo que passamos alí… Tampouco pareciam nos ver conversando.

Talvez sejam ocupados de mais para enxergar as raras belezas perdidas por aí… Ou quem sabe, o hippie me viu de longe antes que eu o visse. E já sabia que seríamos o único a ver um ao outro e enxergar a luz da beleza que transcende o tempo. Bem como assim, uns poucos e raros andarilhos que se encontram ao longo da caminhada, ao longo de tão grande estrada.”

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