Álbum de amarguras

Alí estava eu numa tarde qualquer. Andando novamente pelo mesmo caminho do qual outrora, vivi tempos tão belos. Todos aqueles locais por onde eu andara agora e lembrava-me de outros momentos em que estive diariamente por alí, pareciam um campo magnético por onde elas pairavam: as mais profundas memórias. Me causavam arrepios profundos… Mas tomei coragem, e fui andando até a frente daquela antiga casa. Ah meu Deus, aquela casa! Sonhava com ela todos os dias e tudo de bom que havíamos passado juntos, sob o mesmo solo, o conforto das paredes, a proteção do teto. Tudo era de maior plenitude. Fiquei só parado alí em frente, olhando e refletindo a saudade de um lindo passado recente que se fora para sempre… Era como um transe! Mas precisava ir. Por dentro eu chorava e demorando mais, correria o risco de se exteriorizar.

Não queria que alguém visse. Parecia até um rio de sensações! Onde é que esse rio iria desaguar mesmo? Será que teria fim, chegando ao mar? Sei que nossas lágrimas, as lágrimas de quem tanto amei se encontrariam e juntas, dançariam.
“Como é triste! Minha alma chora tanto, e já se desfaz ! Porquê tudo aquilo se venceu tão rápido? E se eu ainda tinha o poder nas mãos, porquê fui um covarde tão miserável, de não enxergar meu próprio erro? Eles gritavam para mim. A saudade não quer me deixar viver, é como um eterno coma!” De repente me vi com esses pensamentos e por pouco não falei alto. Ainda bem que as palavras voltaram. A rua totalmente deserta, com um carro parado frente a alguma casa.

“Só queria poder passar mesmo e me banhar naquele oceano de momentos bons outra vez, como antes. Mas em paz. Por que era como se… A boa paz fugisse de mim.” Novamente um pensamento, seguido por outro “Fui eu mesmo quem te machucou e eu mesmo quem te afastou de mim. Eu mesmo quem te arrancou de mim! Mas dói. Dói tanto. Fiz por merecer, tanto!” Saí dalí e fui andando em outra direção. Ainda indo em frente olhei para trás… Eu sabia que nunca, nunca apagaria tais memórias lindas jamais!

Agora aqui dentro desse avião, só quero mesmo é dormir e esquecer ainda que por um instante tantas coisas que vêm a tona. Preciso olhar mais além. Assim como olho daqui de cima além da imensidão das nuvens e da terra. Mas antes, abro um álbum e vou vendo cada página lentamente. Cada página virada, cada momento vivido, cada olhar sobre o outro. Aquela sensação que talvez não se possa mesmo descrever. De repente sinto um embargo no peito. Sei que as páginas também sentem, ao me ver assim. Sim, acho que elas sentem… por tudo que alí há em cada quadro de página. Me sinto como uma fotografia sem cor que não se fixa, que muda de forma contínua mantendo o mesmo papel velho.

Fecho o álbum e beijo-o calorosamente. Sinto algo como um beijo em resposta. Será? É tão estranho… Mas de uma profundeza infinita é feito todos esses momentos. Fecharei meus olhos. Desejo ver o mesmo álbum amanhã outra vez… Se eu ainda acordar.

2 comentários em “Álbum de amarguras

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s