Um porre, um vira-lata e um amigo

Eduardo era um cinquentão que adorava cervas belgas e cigarros meio caros e cheirosos. Viajar já tinha se tornado seu hobby fazia tempo. “- Casar? Nem com homem nem com mulher, tá doido meu filho? Se é que eu iria querer mulher né… Mas minha paz vale bem mais! Sozinho com minhas dezenas de gatos sou mais eu!” Dizia ele. Ele mesmo não sabia se era dono dos gatos ou os gatos seus dono. Acho que era mesmo a segunda opção. Um cara bondoso sim, isso era de mais… Humildão, de um coração enorme… Sim não somente de fato, mas já de longe sua peculiar forma de andar denotava isso. Sei lá… Nesse ponto era algo tão particular que só vendo mesmo para entender. Meio cabisbaixo, meio risonho para as árvores, pássaros, ou alguém que passasse ao seu lado, e ele cumprimentasse… Ah, não se pode jamais esquecer esse detalhe: sua paixão pelos animais, principalmente os que aparentavam ou mesmo estavam em situação de risco, no abandono da rua com fome e frio, era por demais grande e sem limites. Amor é amor não é? Fogo de todas as formas. Corre e salta, chora e rir… Geralmente só se para para pensar nas proporções do que foi feito, bem depois que o bem se tornou mútuo, o conforto de um é o de todos e por aí vai. Como se só isso já valesse. Algo lindo de existir! Porque diabos não é assim em todo canto dessa terra? Com todo o bicho homem? Utopia. Ao lado da avenida do bairro classe média alta que ele morava, prédios, carros velozes e lentas calçadas se estreitavam nos mesmos terrenos. Casarões abandonados era comum logo ali. Quem muito tem tá nem aí não é? “Deixa essa porra de casa aí na mão da corretora, quem não tem que se vire! Um dia a gente vende ou deixa ela se acabar como já tá, é até mais fácil!” Será que pensavam assim os tais filhos da puta que se diziam donos daqueles casarões? Donos não, só tomando conta por enquanto. Nessa terra ninguém é dono, não por muito tempo. Mas lá ficavam. Um cachorro bravo e leproso, estilo cachorro louco mesmo latia com ódio para Eduardo toda vez que ali ele passava fumando seu cigarro Hollywood. Ferida enorme nas costas do cão, costelas que pareciam querer furar a pele, espumando de ódio. Certo dia Eduardo tomou coragem.

– Tenho aqui água, ração e remédios… Vou cuidar de ti meu amigão, você será outro, tá bom? É da pedigree, você gosta? E bife de fígado, o que acha em neném?

Eduardo pôs as duas vasilhas logo no pé da grade. Uma com água a outra com ração e fígado. O pobre cão que só rosnava antes, agora balançava o rabo e tremulava suas finas perninhas. Nem cheirou direito a comida já foi abocanhando tudo, tentando descontar sua fome de um mês em apenas um minuto. Nesse momento Eduardo escalou a grade para lá dentro fazer os curativos no cão. Sua blusa enganchou na grade quando ele pulou e rasgou de cima a baixo. Mas deu tudo certo e ele não se rasgou. O curativo foi feito sem muitos trabalhos e o cão ficou manso e não quis morder ele ali dentro. Desde esse dia, tornou-se seu amigo, cheirando suas pernas e mãos a todo instante quando ele voltava lá novamente. O ódio passara e a fome também… Não se sabe por quanto tempo, mas passara. O cachorro feio e maltratado se tornou saudável e bonito com o passar dos dias sob seus cuidados, todo mundo dizia isso. Nesse dia teria sido sem problema nenhum mais, não fosse Eduardo ao voltar por cima da grade, escorregar e cair de mal jeito por cima da mão. Pois é. Uma semana fazendo compressa de gelo na mão dolorida. Mas fazer o bem faz parte, o grande prêmio é a dor do próximo que foi sanada, um feito generoso que ficou para a eternidade e o universo ver.

– Esses pombinhos são tão bonzinhos… Deve ser por isso que as vezes se dão tão mal. Dizia ele. Infelizmente a existência, o mundo tirava-lhe a paz… Ânsia por um sossego maior, algum resquício de esperança, embora ele dissesse ter tanta. Esperança em continuar sendo “são”. Porquê diabos não se livrar de uma vez por todas daquele personagem que ele havia se tornado sabe-se lá quando? É, de uma vez por todas para não mais voltar como antes era! Algo doloroso de certo modo, mas libertador e necessário. Quem sabe assim fazer como Niestche, em sua última atitude desesperada. Abraçar o cavalo que apanhava na estradinha de terra pelo bruto ignorante que o dominava. E assim morrer por ele, morrer com ele. Acabar logo com essa farsa infeliz que o deixava cansado, de uma vez por todas!

Pois uma certa noite da semana como não era tão raro, depois de pôr ração em mais de trinta pratos para seus gatos, foi ao bar alí próximo, em uma esquina até movimentada. Desejava espairecer um pouco, tomar umas cervejas e pensar melhor. Com as mãos no bolso e seu cigarro pela metade na boca, foi caminhando por uns três quarteirões com seu jeitão despojado e meio desleixado. Eduardo puxou a cadeira e pôs a carteira de cigarro com suas chaves sob a mesa.

– Iae meu caro Edu! Você parece meio triste hoje… Mas já sei, o acebolado com azeitonas pretas de sempre?

– Não, não Miguel… Trás uma gelada trincando mesmo… Preciso dá aquele peso leve na mente…

– Haha, “peso leve” é Edu? Esse Edu é uma peça! Pode deixar, é pra já!

E foi uma, duas, três… Até se aquele peso bom na mente crescer. Até o “peso leve” consumar-se em um porre. Sim um belo porre porquê não? Talvez sua intenção já fosse essa há dias. Nesse momento, chegou um cachorrinho vira-lata todo preto do focinho branco o avistou do outro lado da rua e foi se aproximando lentamente. Deitou-se em baixo da mesa aos pés de Eduardo e ali ficou. Cheirou seus pés e de forma ativa se pôs fitando a rua atentamente, olhando as muitas e rápidas luzes das ruas e dos carros apressados.

Aquilo chamou imensamente a atenção de Eduardo. Afastou a cadeira e ficou ali observando.

– Tão assim do nada? Do tanto de anos que venho aqui, cachorro nenhum nunca fez isso. Ele veio e aqui ficou… Me presentear com sua companhia? Talvez sentiu de longe a solidão que por vezes me invade… Cachorro bom de faro você viu! Pra você é tão simples não é meu amorzinho? Tão belo… Você só vive e vive, existe realmente pra viver! Sentir o gosto profundo dos sabores da manhã e de cada comida… Não pensam no passado mais do que o suficiente para sobreviver no futuro… Como uma memória ram, absorvendo apenas o necessário para passar o momento de agora… O restante é DNA, genética de pai pra filho… Mas com a gente meu filhinho, com o tal ser humano, a consciência se elevou em um certo momento, e como vocês não podemos mais ser… Não há mais volta… A cada dez passos, vinte pensamentos sobem a superfície, sabe? E ao final do dia, já se perdeu as contas de toda a aleatoriedade do fluxo de tanto saber e saber… Puta merda! É pura bobagem meu lindinho, pura bobagem! Desejava apenas viver, mas isso parece… Ah! Como parece difícil… Ao menos, não sei… Mas vejo que meu comprometimento com a vida não é dos menores… Como explicar cinquenta anos de solavancos? Sim, os dias de sol foram muitos… Mas não tenho mais conta do tanto de vezes que ele se escondeu atrás de negras nuvens opacas e frias… Lembrando do grande Dostoiévski eu digo: Ah! Mas quando olho para o meu passado e penso no quanto de tempo que perdi em nada. Entre futilidades, erros e preguiça… Uma incapacidade profunda de viver! Quantas vezes pouco apreciei… Quantas vezes feri contra meu coração e alma! Desse modo, meu coração apenas sangra. A vida é um presente, ela pode ser uma doce felicidade… Sim, cada minuto pode ser como uma eternidade de felicidade!

Eduardo adorava falar sozinho, e com gatos e cachorros ainda mais. Se deixasse passava horas e horas. Ele sentiu uma grande pena do pobre animal. Queria poder ajudá-lo de alguma forma, tirar-lhe das muitas ruas perdidas, em meio àquela cidade desalmada sem rosto e compaixão. Ficou afagando o animal. Sentiu-se em uma boa companhia, poderia haver melhor? Pouco tempo depois para sua imensa surpresa e espanto, uma mão puxou a cadeira ao seu lado. Eduardo levantou rapidamente os olhos e viu que era um velho amigo. Seu velho amigo Maurício de um antigo curso de cinema e que a muito tempo não se viam mais. Não sabia mais nem onde ele morava e o último contato já tinha acontecido há anos. Maurício sentou logo ali. Conversas, risos, cigarros e álcool. Aliás, Maurício comeu. Eduardo já estava satisfeito com cigarro e álcool. Pelo menos naquelas horas a força da solidão lhe abandonara consideravelmente. Sentia-se bem melhor. E embora amasse a solidão ela muitas vezes o assustava… Talvez o resquício de algum paradoxo.
Seu amigo também bebeu um tanto nessa noite incomum. Continuaram a beber, e é claro muita conversa. Eduardo pediu um peixe grelhado e botou ao chão para o cachorro que faminto se pôs a comer.

Olha meu amigão Maurício, ainda não estou bebado, geralmente só pesa pra valer quando chego em casa. Mas amigo, meu amigo… O que lhe trouxe mesmo aqui hoje em? Foi algo muito nada a ver e bom haha!

– Hahaha! Digo o mesmo meu velho Edu! Coincidência meu caro, bizarra coincidência! Mas boa, e isso é o que vale! Sei lá… Eu tava aqui pela cidade já fazia uma mês… Mas amanhã mesmo tou partindo para Bruxelas! Vamos?

– Não posso, tenho meus gatos e no momento estou sem verbas… Mas a gente se fala sim, daqui pro outro ano dá certo! E olha… Em meio a tudo que tem acontecido ultimamente e sobretudo em tudo o que penso e sinto… Essa noite aqui meu velho, tanto me marcou, nos marcou como também me deu esperanças em continuar, me fez acreditar mais uma vez! Enxergar melhor! Esse cachorrinho aqui que chegou sem mais nem menos e você também, sem nenhum motivo aparente, como que enviados por alguém de um além! E essas cervejas… eu sei e você também compartilha que, já fomos amigos em outras vidas, outros destinos de uma outra existência qualquer… Sendo assim a gente tinha que se encontrar aqui, mesmo sem vermos algum sentido pra isso, mesmo de uma forma imprevisível e estranha! E também por que isso é o que seremos para sempre, fiéis amigos! ”

Seu amigo concordou com tudo que ele dissera. As cervejas acabaram e antes que Hebert virasse a última dose, o cachorro que estava deitado aos seus pés levantou rapidamente, lambeu seus pés e saiu correndo atravessando rapidamente a movimentada rua onde sumiu da vista dos dois. Eduardo e Maurício entenderam tudo. Presente certo da aleatoriedade do destino. Nunca mais iriam esquecer daquele vira-lata, agora era história para contar. Eles então levantaram já meio zonzos. A conta foi paga. Eduardo se despediu de Maurício com um abraço apertado.

– Ainda faremos mais boas histórias um dia meu velho amigo, haveremos de atualizar novamente nossos momentos marcantes!

– Quem sabe meu caro Maurício, quem sabe… Mas caso não, quem sabe… Esse aqui terá seu lugar na estante de ouro, dos melhores momentos desta vida! Eu espero muito mesmo ainda por outro presente como esse do imenso destino!

Já bastante zonzo pela força do álcool Eduardo segue sorrindo para casa com suas mãos no bolso da calça procurando sua carteira de cigarro e as chaves. Seu amigo que ajeitava sua bolsa tiracolo deu uma última olhada para trás com um sorriso melancólico de lado. Pegou a via esquerda e seguiu pela movimentada e barulhenta avenida pelo lado oposto no qual sumira o vira-lata preto e branco.

3 comentários em “Um porre, um vira-lata e um amigo

  1. é tão belo poder ler contos assim, vivenciar um momento e andar sorrindo feito um bobo rsrs, é algo intrigante e interessante, uns dos melhores contos seus que já li, eu amei!!!!

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