A flecha sagrada

Nas pradarias distantes ao sul do grande rio alfa, existia uma grande tribo comanche de valorosos guerreiros. E nessa tribo um jovem índio aventureiro possuía já o seu destaque. Sua diversão maior era caçar pássaros, pequenos ou grandes. De certo que caçava tantas coisas mais, javalis, bisonte e cães da pradaria por exemplo, mas pássaros havia já algum tempo se tornado sua principal arte. Sendo muito desses pássaros raros para o restante do mundo, outras regiões de grandes vegetações e biomas, alí eram comuns habitando aquela parte de lindas matas ricas e virgens. Kagu, papagaio mocho e um periquito de barriga laranja faziam parte de sua pequena criação em modestas gaiolas, feitas de finos talinhos de bambu que ele mesmo confeccionava.

Alguns também, eram comidos e outros saíam inevitavelmente feridos no ato da caça e ficavam a ponto de ele poder cuidar depois. Ele sentia-se bem com isso, em poder cuidar de cada pássaro. Sentia-se mais calmo e fazendo algo de grande importância em retribuição para a mãe natureza. Ou ainda, retirava algumas belas penas afim de fazer algum colcar para alguma linda indiazinha ou um filtro dos sonhos que ficariam balançando sob o teto de sua tenda feita de couro de bisonte e fibras de sisal . Embora soubesse da lei e cultura de seu povo de que o pajé há muito, havia deixado claro e que isso ia passando de geração para geração: ” Todo animal morto deve ser para alimento, e não se deve estragar a carne, jamais! Nosso alimento é sagrado, um presente do grande espírito!”. Mas como todo jovem é, o índio aventureiro agia por inconsequência muitas vezes. Certo dia, ajudava alguns membros mais velhos na caça aos búfalos pelas límpidas pradarias verdes como é de costume e tradição dos comanches, correndo com seus saudáveis cavalos treinados. O vento morno fazia balançar o extenso capinzal verde-escuro de toda aquela extensão paradisíaca de encher os olhos de qualquer ser que pairasse o olhar sobre.

A caça seguia-se quando de repente, atrás de uma grande moita onde o jovem índio estava, achou ao chão em cima da fresca terra escura algo lembrava a ponta de uma flecha. Ou era mesmo de fato uma. Tinha o tamanho exato de uma e poderia ser usada perfeitamente para os mesmos fins. Tal achado era de todo muito belo, certamente algo que ninguém por alí poderia ter feito. Com aquele mesmo acabamento e textura, nenhum índio conheceria tal técnica artesã. A ponta da flecha era semelhante ao vidro, ou até mesmo o cristal. Daquele dia em diante o jovem comanche substituiu a tradicional ponta de madeira e passou a usar sempre aquela que achou, onde ele aclopava por um encaixe na ponta da restante composição em madeira de todas as flechas que ele fazia para seu próprio uso. Em todas suas caçadas adentrava as densas florestas dia após dia para procurar muitos pássaros com sua “flecha sagrada”, assim batizada por ele.

Alguns pássaros eram acertados fatalmente e não resistiam. Embora o menino procurasse não exercer tanta força sob a pressão do arco ou acertar algum local que não mataria as aves, certas vezes não se podia evitar. Alguns poucos eram feridos. Assim seguia no decorrer dos dias … Certa vez atrás de uma grande árvore de folhas alaranjadas e grandes ele se posicionava para pegar um último rabo-branco-de-margarette, raríssima espécie de beijar flor, que estava quase no topo da árvore. Mas um movimento errado do jovem comanche fez soar um som estridente fazendo com que aquele belo pássaro, percebesse e imediatamente levantasse vôo. Mas antes que o jovem pudesse evitar, atirou rápido sua flecha na tentativa de ainda acertar de qualquer forma o pássaro. No entanto a tal flecha estranha acertou e cravou no caule grosso da árvore.

Nesse mesmo instante do acerto da flecha, todas as folhas da árvore voaram tomando de forma fantástica a feição de inúmeros pássaros. Eram grandes e pequenos, de plumagem exuberante e rara, todos idênticos aos que o jovem índio havia ferido ou matado nos últimos dias com sua flecha vidrenta. E assim viajaram para bem longe ganhando o infindável céu de azul profundo, deixando na bela árvore somente galhos secos e sem vida com o jovem completamente espantado jogado ao chão observando muito assustado toda aquela irreal cena. Ele rapidamente após isso, pegou sua estranha flecha. e foi correndo ofegante até sua tribo procurando o velho xamã, pai de todos, para pedir-lhe uma explicação daquele misterioso evento. O xamã encontrava-se dentro de sua tenda tragando seu cachimbo sagrado e muitos incensos de pinheiro fresco e carvalho, acesos ao chão perfumando todo o ar por alí. O jovem então se aproxima com uma saudação de permissão e respeito e conta-lhe de forma breve o que houve. Em seguida então mostra a tal singular flecha.

O xamã logo ao ver, reconhece e explica ao jovem do que se tratava o tal artefato -“Isso é uma flecha do raio, meu jovem guerreiro. Um belíssimo fenômeno natural! Um raio pertencente aos grandes céus em fúria ao tocar a mansa terra, funde-se com ela feitos fogo e calor, onde formam juntos essa espécie de cristal sagrado. É realmente algo raro de se achar meu jovem e você teve essa sorte! O problema é que usastes de forma errônea mesmo conhecendo as leis e cultura de nossos povos, assim ceifando as inocentes e puras vidas de muitos pássaros livres … Mas agora a essência e espírito de cada um foram libertas como deveriam nas muitas lindas folhas da árvore que tu acertaste, pois é claro, a flecha cristalina que achou, absorve a essência vital do que venha a perfurar! E somente na grande Waga Chun, a árvore sussurrante sagrada, a essência central que foi absorvida pode então ser liberta!”
Nisso o velho xamã, disse que o jovem deveria fazer um juramento do fundo de seu coração perante toda a tribo, afim de retratar-se e ser assim plenamente perdoado.

E assim foi feito. E então o velho xamã lhe deu a benção do grande espírito e concedeu-lhe aquela flecha como amuleto sagrado no pescoço do jovem índio. Daquele dia em diante o raro artefato da natureza iria proteger aquele guerreiro comanche, e lhe guiar pelas distantes pradarias ao sul do grande rio alfa e onde quer que fosse, sempre nos caminhos da justiça e retidão.

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