Aigües torties

Uma onda vem e mais outra logo atrás. Se desfaz e se refaz num revolver eterno e incansável. Banha meus pés. Ao mesmo vento, ao mesmo sol e ao mesmo brilho, daquele mesmo dia, que escrevi nossos nomes na areia desta praia. Talvez você ainda lembre, talvez não mais… Mas as pedras e os céus foram testemunhas meu amor, do nosso mais puro amor!
Essas ondas que me distrai e acalma… Quem delas busca uma paz tão cara. Me faz te querer aqui e agora, para te mostrar tudo isso outra vez. Ao mesmo vento e ao mesmo sol… As constantes ondas e murmúrios dessas infindáveis águas marítimas, se assemelham às minhas dores que de forma tamanha envolvem meu confuso ser. Veja, olhe nessa direção. Foi ali naquele local, meu amor. Sim, a gente já sabia que a águas e o tempo levariam. Mas também nos prometeu, que eternizaria. E assim o fez, assim sempre faz. Me vêm ao juízo a insistente ideia de nadar desesperadamente até aquele barco bem lá longe que flutua sobre a água. Chegar nele e adentrando, tomar algum rumo mesmo que sem direção. Para onde o vento queira me levar, somente afim de te achar. Não importa quantos anos se passem, ou séculos. Em qualquer canto que isso seja possível… Qualquer ilha remota que você possivelmente me espere, tão perdida quanto eu. Então finalmente nos acharemos e lá seremos eternos namorados. Mas que estranho… De repente as águas se agitaram ainda mais! Mas calma meu amor, te dou o meu amor! Tua imensidão e teus mistérios, me fazem querer o teu envolver, o teu calor. Quando fico agora de frente ao mar, sinto que faço uma saudação silenciosa na direção de uma multidão que somente eu vejo e é real demais… É real demais para mim e só eu vejo… Como um exército oculto que se move junto com as muitas ondas que desaparecem em um movimento convulsivo e constante. E quem me ver de fora, tem a certeza instantânea de que já enlouqueci de vez… Ainda que eles saúdem tantas coisas que somente eles podem ver também, e se julguem sóbrios e lúcidos demais… De repente, a loucura também é uma variante da lucidez.

Essa onda que quebrou sobre mim, agora, ah! Essa mesma espuma que lavou os teus sonhos e os teus cabelos, nesta hora me renova. Sabíamos desde o começo, o preço que se paga por tanto amar. Ou não, éramos inocentes. Assim como o mar também faz sua cobrança ao empurrar para fora e com força puxar logo para dentro, incansavelmente!
Espera… Lembrei agora da poesia que tu me falara tempos atrás, sobre o mar. Sobre jangadas agitadas com seus felizes pescadores que se igualam ao azul dourado e forte de lá… Ah meu Deus, que ironia! Pois olhe meu amor, agora eu posso vê-los! Posso vê-los exatamente como tu me falara e juntos embalava-nos em lindos pensamentos! Mas me dói, pois você não está aqui para poder ver também. Para ver toda essa beleza comigo. Sendo assim não posso, não posso… Deixa eu olhar para aquele navio na última linha do horizonte. Vai, me leva para bem longe! Que cidade barulhenta… Só o sagrado ronco do mar me acalma e me alimenta! Estou vendo agora nessa mesma linha do horizonte, algo como um enorme submarino que subiu até a superfície e não mais conseguiu submergir. Não… Na realidade aparenta ser uma ilha… Uma que foi incendiando aos poucos até virar uma enorme fumaça preta no meio do oceano, e agora se desfaz em farelos e pó levados pelo vento. Dentro de mim sempre habitou essa sensação, essa ideia, essa espécie de fascínio obsessivo… Sobre algo que incendiou por completo e era distante. Como se fizesse parte de mim tal fenômeno, tal insistência embebida por uma loucura imensurável… Por não te ter aqui comigo agora, me vêm um grande desejo de afogar-me, deixar-me ser tragado e puxado para sempre pelos braços da musa Tétis, Deusa belíssima dos mares, esposa do profundo oceano, filha dos céus e da terra! Assim quem sabe, nos casaríamos para sempre se eu lá te encontrasse e você aceitasse… Teríamos como altar o eterno branco do macio leito oceânico e as testemunhas, seriam todas as milhares de criaturas abissais que ali vivem pelo espaço de milênios. Mas talvez nem isso. Nem mesmo um afogamento assim meu amor, tiraria de mim todo o meu sentimento por ti. Toda essa pungente saudade que me rasga o peito por dentro. Todo o entorpecimento do meu ser e que me deita em confusos delírios de paixão quando tu vens ao meu juízo! Ainda choro capítulos inteiros deste livro que escrevemos juntos e findou tão de repente. Ainda assim, me seria mais certo querer a ti somente, como minha eterna ninfa dos mares azuis! A noite chega e o sol vai embora e seu brilho também, sem demora. Somente infindáveis águas banhadas pelo eterno e sublime remanescente, brilho dourado. Mas permaneço aqui, na mesma praia dos nossos nomes. Ao mesmo mar que estronda cintilante e majestoso. Ao mesmo vento que me faz te sentir e te querer, de novo, de novo, e de novo…

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8 comentários em “Aigües torties

  1. When I read Artur R I soon thought about Rimbaud. But you are very different. You have your originality and emotions. But you’re dutch or portuguese? Or you speak many languages?

    Curtido por 1 pessoa

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