Folha úmida

“Você foi o mais lindo poema que eu pude ler. E toda essa sua ternura e brandura única, formam a mais bela de todas as linhas já escritas desse livro que pude ler.” Digo isso para mim enquanto me dirijo ao velho porão de minha antiga casa que tomou por fim o abandono, ninguém nunca se interessou por ela mesmo, a não ser eu. Nem compra nem aluguel. Sei que lá no fundo de sua estrutura, há aquele meu velho baú. Lá, permaneces escrito algo de muito antigo meu, em uma folha bastante úmida. Foi assim a textura que ela foi tomando ao longo dos tempos. Embora as letras não apaguem e sejam sempre vivas, permaneces habitando de forma tão melancólica ao fundo de um baú cinza e empoeirado, sendo eterna morada de traças e aranhas.

Que triste contraste! Guardado no porão da minha casa a tantos anos e mais anos, lá está ele.
As escadas até lá rangem. Sim, eu lembro de cada coisa guardada lá. Estão aqui. É o retrato do esquecido, do velho e remoto. Olha! Esse presente, essa relíquia… Esse prêmio, esse troféu… E ainda mais que todos esse úmido papel. Eu pego em cada um e observo. Passo a mão lançado para todos os lados poeiras, mofos e restos de memórias. Mas tudo é só parcial. Fechando os olhos sinto que me envolvo com os muitos sentimentos que cada um vibra e guarda nas fibras que os compõem, e geram uma avalanche de lembranças em mim. Mas parece que tudo aquilo, o valor que há em todos, lhes foi rompido por algo há algum tempo atrás… Sem razão ou explicação. Mas também, agora isso não importa. Na verdade nada mais me importa. Ou talvez seja algo próximo disso…

Ah, ainda há algo que não mexi no fundo do baú. Esse último, é uma lembrança. É uma grandiosa lembrança de um ou vários dias áureos e é tudo que sei! Ou pelo menos, isso é tudo que consigo dizer ou lembrar … Eu até consigo tocá-la mas sou totalmente incapaz de vê-la nitidamente embora até me esforce. Sua simetria e forma é impossível de ser descrita, isso é inegável por quem quer que seja, apenas estivesse no meu lugar. De repente uma voz alta e de tom sussurrante ecoou no porão “Não leve para fora, deixes que durma adormecida, sem ver a luz!” Tal voz Inundou todo o ambiente alí e tão vertiginosamente! Tornou tudo mais frio e em trevas por alguns instantes. Mais do que já estava! Minha vista ficou escura, minhas mãos até onde pude ver e notar, também todas cinzas como algo que queimasse, lançasse fuligem sobre mim.
Mas te ouvirei, oh misteriosa voz!

Então devolvo tudo ao báu e com um som de clique me certifico de que ele realmente fechou. Permanecem alí todas as coisas como sempre foram. Sozinhas e empoeiradas, cinzas e úmidas. Ao sair dalí, lá fora, sou uma imagem em preto e branco, ou ao menos acinzentada… Destacada sobre o restante colorido e úmido do dia, do tempo, do mundo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s